A história de Odécio Lucke, professor, poeta e guardião da natureza de Cordeirópolis
Há homens que passam pela vida deixando rastros. Odécio Lucke deixou raízes, literalmente. Nascido em Cordeirópolis no dia 27 de maio de 1931, ele cresceu num tempo em que ensinar era quase um chamado divino, e aprender, uma fome que nunca se apagava. Cumpriu as duas missões com uma dedicação que poucos conseguem.
Mas quem foi, de verdade, o Professor Odécio Lucke?
O menino que já sabia o que queria
Aos 12 anos, em 30 de novembro de 1943, ele concluía o curso primário na Escola Cel. José Levy, aqui mesmo em Cordeirópolis. Era apenas o começo. Em dezembro de 1949, formou-se em Mecânica de Máquinas no Ginásio Industrial Estadual “Bento Quirino”, em Campinas o boletim de notas daquela época, amarelado pelo tempo mas ainda legível, com a assinatura de seu pai Emílio Lucke mês a mês, é uma relíquia que sobreviveu a décadas e conta, em silêncio, de um jovem disciplinado e comprometido.
Em 29 de setembro de 1952, o Ministério da Educação e Saúde lhe entregou o Certificado de Registro de Professor nº 5284. Na pequena foto preto e branco do documento, um rapaz de terno, cabelos penteados, olhar firme. Ele tinha 21 anos e já era professor. Estaria apto a lecionar Desenho Técnico, Construção e Montagem de Máquinas e assim o faria por quase quatro décadas, na Escola Técnica Industrial Camargo, em Limeira.
Uma vida inteira dentro de sala de aula
Ele não parou de aprender nunca. Em 1971, concluiu o curso universitário na Universidade Moreira Moraes, em Cravinhos. Em 1973, certificou-se pelo SENAC em Relações Humanas no Trabalho. Em junho de 1974, recebeu o diploma de Pedagogia pela UNAERP, de Ribeirão Preto. Em 1986, frequência de 100% e aproveitamento máximo no curso de aprimoramento docente para professores de Mecânica.
No dia 7 de julho de 1989, o Centro de Professorado Paulista lhe conferiu o Diploma de Honra ao Mérito, pelo que a vida inteira dedicou à educação.
Milhares de alunos. Quase quarenta anos de sala de aula. Mas havia algo além das fórmulas e dos desenhos técnicos que movia aquele homem.
O professor que plantava ipês
Odécio Lucke era apaixonado pela natureza com a mesma intensidade com que amava o ensino. Pelas ruas de Cordeirópolis, sua marca está em cada ipê florido foram plantados por suas mãos e pelas de quem ele convenceu a plantar junto. Amarelos, roxos, rosas: onde havia um ipê, havia uma história dele.
Na Avenida Presidente Vargas, havia um corredor inteiro dessas árvores. Os galhos se entrelaçavam sobre o asfalto como um abraço vegetal, formando um túnel de flores que encantava quem passava. Era uma das obras de que mais se orgulhava.

Então, nos anos 90, aquelas árvores foram cortadas.
A viúva Maria de Lourdes Zanon Lucke, com quem se casou em 9 de julho de 1955 e com quem teve três filhos: Vagner, Valnei e Valdmir , conta que o marido ficou transtornado. Parentes confirmam: ele não conseguia se conformar. O desgosto foi tão fundo que a família acredita, até hoje, que o corte das árvores foi um dos fatores que precipitou seu infarto. Como se parte dele tivesse sido cortada junto.

O sonho que ficou no papel
Havia outro projeto que carregava no peito: transformar a famosa Mata do Jardim Cordeiro num bosque municipal, um lugar protegido, preservado, vivo. Em 1992, o vereador Haroldo de Jesus Menezes apresentou uma indicação nesse sentido, e a Câmara aprovou a Lei nº 1.726, de 6 de maio de 1992, que constituía o Bosque Municipal e, em seu Artigo 6º, determinava:
“Fica o Bosque Municipal, objeto desta Lei, denominado de ‘Bosque Municipal Professor Odécio Lucke’, saudoso educador, que foi pioneiro e atuante batalhador na defesa, preservação e recuperação do meio ambiente em nosso Município.”
Era uma homenagem linda. Mas ficou no papel. O bosque nunca saiu do chão. A mata do Jardim Cordeiro não virou o santuário verde que ele sonhava. E Odécio Lucke não viveu para ver nem o sonho realizado, nem a injustiça corrigida.
A letra que virou hino
Há outra história guardada naqueles documentos amarelados. Em algum momento de 1976 — os rascunhos a punho têm a data de 20 de agosto de 1976 , Odécio Lucke escreveu a letra de um hino. O Hino de Cordeirópolis.
A música ficou com a professora Dyrcea Ricci Ciarocchi. A letra, com ele. E assim permaneceu por décadas: guardada, esquecida nas gavetas, como tantas outras poesias que escreveu ao longo da vida, perdidas “por uma distração do destino”, como registrou sua esposa.
Foi somente em 20 de setembro de 2002 que a Lei Municipal nº 2.113, proposta pelo vereador Jair Aparecido Dalfré, instituiu oficialmente o Hino do Município — com música de Dyrcea e letra de Odécio. O professor já havia partido há doze anos. Em 19 de março de 1990, como escreveu sua viúva com delicadeza e dor: “foi o dia em que Deus privou-nos da existência do Prof. Odécio aqui na Terra, e decidiu que ele continuaria sua mestria ao Seu lado.”
Ele não soube que seu hino virou oficial. Mas Cordeirópolis canta a sua voz até hoje.


O que fica
A Escola Estadual que leva seu nome guarda mais do que um título numa plaquinha. Guarda a memória de um homem que acreditava que educar e preservar eram, no fundo, a mesma coisa: preparar o futuro para quem ainda vai vir.
Os ipês que ainda existem pela cidade são suas impressões digitais na paisagem. A lei que nomeou um bosque que nunca existiu é uma ferida aberta e uma promessa pendente. O hino que levou 26 anos para ser reconhecido oficialmente é a prova de que algumas vozes precisam de tempo para serem ouvidas.
Odécio Lucke dedicou toda a sua vida — não a maior parte dela, toda ela — ao ensino e à preservação da natureza. Assim registrou, em 9 de maio de 2005, a mulher que esteve ao seu lado por 35 anos:
“Professor Odécio Lucke dedicou toda a sua vida — não a maior parte dela — ao ensinar e à preservação da natureza, que era mais uma de suas paixões.”
Maria de Lourdes Zanon Lucke sabia o que estava dizendo. Ela viveu ao lado de um homem assim.
Reportagem produzida com base nos documentos originais da família Lucke: boletim escolar de 1949, Certificado de Registro de Professor nº 5284 (1952), Lei Municipal nº 1.726/1992, Lei Municipal nº 2.113/2002 e depoimento escrito pela viúva Maria de Lourdes Zanon Lucke, em Limeira, 9 de maio de 2005.
Veja também o nosso video contando a trajetória do professor: Odécio Lucke