O rádio, a pista rebaixada e o nome que ninguém viu no letreiro

Existe um letreiro em Cordeirópolis que quase ninguém sabe que um dia teve outro nome.

Ali, naquele prédio que toda a cidade conhece como Cordeiro Clube, havia uma outra inscrição. Letras que contavam uma história diferente de uma mulher, de uma geração, de uma cidade que aprendia a se divertir num mundo que estava mudando rápido demais.

Essa história ficou guardada por décadas.

Hoje… ela tá no Arquivo.

I. 1937: um rádio, uma sala e o começo de tudo

Cordeirópolis em 1937 era uma cidade de poucas ruas e muita vida comunitária. Não havia cinema, não havia clube de luxo, não havia muito além da praça, da igreja e do trabalho que estruturava os dias de quase todo mundo.

Foi nesse contexto que um grupo de homens representativos da sociedade local,  entre eles Aristeu Marcicano e Bento Lordelo decidiu criar um espaço diferente. Um lugar onde as pessoas pudessem se reunir, conversar e, principalmente, dançar.

O Cordeiro Clube nasceu em 10 de novembro de 1937, numa sala simples localizada onde hoje funciona a agência do Bradesco, no centro da cidade.

E o segredo do sucesso, no começo, cabia dentro de uma caixa.

Um rádio.

— Eles botavam um rádio e com esse rádio a música que tocava eles dançavam,  contou o historiador Paulo Tamiazo, que pesquisou a fundo a história dos clubes de Cordeirópolis. Essa era a função do Cordeiro Clube no momento em que foi fundado.

Parece simples. Mas naquele fim de década de 1930, ligar um rádio e dançar com a música que vinha de longe era participar da modernidade. Era o mesmo movimento que fazia as inaugurações da época substituírem as bandas ao vivo por gravações em disco tocadas em caixas de som na praça pública. O mundo estava mudando  e o Cordeiro Clube estava mudando junto.

II. O quarteirão que quase foi outro

Durante quase três décadas, o clube funcionou naquele endereço do Bradesco, com bailes, carnavais e toda a sociabilidade que uma cidade pequena podia gerar em torno de um espaço assim.

Mas em 1962, a Prefeitura de Cordeirópolis decidiu desapropriar o imóvel. E aí começa uma das histórias mais curiosas  e menos conhecidas da cidade.

Alguns anos antes, em 1958, havia sido criada uma nova associação: a Sociedade Dançante Recreativa Nosso Clube, por iniciativa de Dona Maria de Lourdes Arrais, conhecida por todos como Dona Duda. Com recursos próprios  dela e dos sócios  a SDR Nosso Clube adquiriu um terreno e construiu um prédio novo, num quarteirão em frente à praça central que a legislação municipal havia definido como área especial: só poderiam se instalar ali entidades, órgãos governamentais e cooperativas. Nada de pessoa física, nada de comércio comum.

O projeto para aquele quarteirão era ambicioso. Seria o Nosso Clube de um lado. Do outro, uma agência dos Correios, prometida pelo governo federal, que doou o terreno em 1957 ao Departamento de Correios e Telégrafos, mas nunca repassou o dinheiro para construir. Na esquina, o Banco Central dos Municípios. E ao lado, a Cooperativa de Consumo de Cordeirópolis.

Foto: César Maniaes. A foto foi restaurada com uso de IA

Um quarteirão inteiro pensado para ser o coração institucional da cidade.

O que aconteceu depois mistura burocracia, escândalo e algum drama digno de manchete.

III. Tiroteio, escândalo e três dias de manchete em São Paulo

O Banco Central dos Municípios quebrou. E não quebrou de qualquer jeito.

— Deu três dias de manchete em São Paulo — lembrou o historiador Paulo com uma precisão que só quem pesquisou o assunto tem. — Teve escândalo, tiroteio que pegou no tornozelo do Tomazela. A prefeitura só conseguiu recuperar 60% da verba pública que tinha depositado lá por causa de um acordo.

O espaço que seria dos Correios, prometido e nunca construído, ficou abandonado por anos até que na década de 1970 o prédio ruiu. A solução encontrada foi alugar para a prefeitura,  metade para servir de agência postal, metade de biblioteca. A mesma biblioteca que, como observa Paulo, está prestes a completar 50 anos.

Enquanto isso, o Nosso Clube,  construído com tanto esforço por Dona Duda e seus sócios teve uma trajetória que poucos imaginam.

Quando a prefeitura desapropriou o antigo endereço do Cordeiro Clube em 1962 e precisou encontrar uma sede para a tradicional agremiação, a solução foi unir o útil ao agradável: o município adquiriu o prédio da SDR Nosso Clube, ressarcindo integralmente todas as despesas que a entidade havia tido com terreno e construção, e cedeu o espaço para o Cordeiro Clube funcionar.

O letreiro que Dona Duda havia mandado colocar na fachada,  SDR Nosso Clube, em letras que o historiador Paulo descreve com a mesma tipologia que viria depois  foi substituído. No lugar, as palavras que toda a cidade passaria a conhecer: Cordeiro Clube.

— Tem uma foto que o Maniaes tem, porque um parente dele construiu o prédio, contou Paulo.  Tá escrito lá SDR Nosso Clube. Aquilo que estava em cima é o que ficou, só mudou o nome. O formato da letra é o mesmo, a tipologia é a mesma.

Um letreiro. Dois nomes. E uma história que quase ninguém conhece.

Em contato com César Maniaes, ele explicou ao Tá No Arquivo, ele explicou que o p´redio foi construído por seu pai: Antonio Maniaes.

– Meu pai foi criado pelo tio Jácomo Pelosi, desde bebê, já que o seu pai faleceu novo com apenas 32 anos de idade. Jácomo era construtor e residia em Limeira, depois veio morar em Cordeirópolis, onde meu pai aprendeu a profissão”.

Livro do registro de obras
Foto: César Maniaes

IV. A pista rebaixada e as noites que moldaram uma geração

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Segundo Maniaes, a partir de 1956 inicia-se a construção do Cordeiro Clube no novo endereço,  pertencente à prefeitura, mas ocupado e animado pela sociedade civil  tornou-se o centro da vida social de Cordeirópolis. Em 1958 acontece a inauguração com o show de Cauby Peixoto.

E havia um detalhe no salão que quem frequentou nunca esqueceu: a pista de dança era rebaixada. Alguns degraus separavam as mesas e cadeiras dispostas nas bordas do espaço central onde os casais dançavam.

Não era só arquitetura. Era uma experiência. Você chegava, cumprimentava, se sentava, observava e quando a música chamava, descia aqueles degraus e entrava num outro território. A pista tinha limites físicos, e esses limites criavam uma atmosfera que salões planos simplesmente não conseguem reproduzir.

Era muito saudosa aquela pista de dança,  quem frequentou o clube na sua melhor época. As cadeiras ficavam em volta, ficavam um pouco mais para baixo. O salão era rebaixado.

Os bailes mensais eram programados, esperados, preparados. As famílias iam juntas. Os jovens se encontravam. Namorados se conheciam ali, casamentos começavam naqueles degraus que levavam à pista.

Era o único lugar social que as pessoas tinham pra ir na época em Cordeirópolis. Além da praça, que a turma andava e rodava no coreto, e tinha o Cordeiro Clube. São as coisas que mais tinham lugar de reunião dos jovens.

Num tempo em que poucos tinham carro e viajar para outras cidades era coisa rara, o clube cumpria uma função que vai além do entretenimento: era o espaço onde a cidade se via, se reconhecia e se construía como comunidade.

V. 1973: quando o carnaval foi para a rua

Durante décadas, o carnaval de Cordeirópolis acontecia dentro dos clubes, bailes fechados, foliões conhecidos, uma festa íntima e familiar.

Foi em 1973 que tudo mudou.

Naquele ano, sob a presidência de Osmar Bueno à frente do Cordeiro Clube, a Prefeitura organizou pela primeira vez um desfile de carnaval de rua em Cordeirópolis. Três blocos saíram às ruas: o RIP, o Havaiano e o Navio.

— Foi a primeira vez que a prefeitura organizou um festejo de carnaval definido — contou o historiador Paulo. — Iniciou esse processo do carnaval de rua.

Dali em diante, com exceção do período da pandemia, Cordeirópolis teria todos os anos seu carnaval organizado pela Comissão Municipal,  cinquenta anos contínuos de festa, de desfile, de uma tradição que começou naquele primeiro bloco que saiu às ruas em 1973 e nunca mais parou.

VI. O que ficou e o que se perdeu

Hoje, o prédio que Dona Duda construiu com os recursos do Nosso Clube ainda está de pé. O Salão Social Maria de Lourdes Arrais,  nome que a administração municipal escolheu para homenagear quem de fato ergueu aquele espaço  é uma justa reverência a uma mulher que não recebeu doação nem subsídio, mas que direcionou recursos e energia para criar algo que durou mais de sessenta anos.

O clube, porém, já não tem a sociedade que o animava. O prédio existe. A memória existe. Mas a agremiação que fazia daquele salão um ponto de encontro de gerações inteiras não existe mais da mesma forma.

— O Cordeiro Clube tem o prédio, mas não tem mais nenhuma sociedade ali — observa Paulo com a sobriedade de quem conhece bem o que significa perder um espaço como esse.

A piscina, construída numa área doada pela prefeitura, com recursos de sócios cujos nomes foram publicados em página inteira no Jornal Limeirense numa campanha que Paulo descreve com admiração e certo humor, também teve seu papel substituído pelos centros de lazer públicos que o poder municipal foi criando ao longo das décadas.

É uma mudança que vai além de Cordeirópolis. Clubes sociais por todo o Brasil enfrentam o mesmo destino: a facilidade do carro que leva para outra cidade, a gratuidade do lazer público, a dispersão dos hábitos numa era de telas e mobilidade. O que antes era referência, o lugar onde todo mundo ia porque era o lugar de todo mundo,  perdeu espaço para um mundo onde cada um vai para um lugar diferente.

Mas há algo que nenhuma reforma, nenhum letreiro novo e nenhuma mudança de hábito consegue apagar: a memória de quem viveu aquelas noites.

A memória do rádio que tocava em 1937 e fazia pessoas dançarem como se o mundo inteiro estivesse naquela sala.

A memória dos degraus que levavam à pista rebaixada, e de tudo que começou ali embaixo.

E a memória de Dona Duda  que construiu um prédio, colocou um letreiro, e viu seu nome ser apagado da fachada, mas não da história.

Porque se é história boa… tá no Arquivo.

Fonte

Este artigo é baseado em entrevista concedida pelo historiador Paulo Tamiazo  à Associação Trevisani Nel Mondo de Cordeirópolis. O Tá no Arquivo, reconhecendo o valor histórico desse registro, selecionou e organizou os principais pontos do relato para preservar e ampliar o alcance dessa memória. Todos os fatos, datas e nomes aqui presentes são fiéis ao depoimento original.

Veja o video clicando aqui.

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