Groselha de Cordeirópolis: Quando uma garrafinha viajava até Brasília

Tlin, tlin, tlin. O som das caçulinhas batendo umas nas outras no engradado era música para os ouvidos de qualquer criança dos anos 50. Tarde quente em Cordeirópolis. O sol castiga o chão de terra batida da rua do Comércio( hoje atual rua Toledo Barros). Um menino corre até a venda com algumas moedas na mão. “Seu João, me vê uma groselha bem gelada!” A garrafinha sai da caixa de gelo, respingando água fria. O lacre estala. O primeiro gole é pura felicidade. Essa cena se repetiu milhares de vezes entre 1952 e 1962, quando Cordeirópolis tinha sua própria fábrica de refrescos. E o mais impressionante? Aquelas garrafinhas viajavam muito mais longe do que qualquer um imaginaria. O homem por trás das garrafinhas Miguel Rodrigues de Oliveira não era um grande industrial. Era um homem simples que viu uma oportunidade e decidiu arriscar. Em 1952, instalou sua pequena fábrica na esquina da rua Toledo Barros com a Sete de Setembro, um endereço que somente os mais velhos chamam de “Rua do Comércio”. As instalações eram modestas, mas o que faltava em tamanho sobrava em dedicação. Ali, Miguel e sua equipe produziam artesanalmente os refrescos que adoçariam a vida de muitas famílias. Cada garrafa era enchida à mão, lacrada com cuidado e embalada em engradados de madeira. Não era Coca-Cola. Não era Guaraná Antarctica. Era refresco de Cordeirópolis e isso bastava. Groselha e Quinado: Os sabores da cidade Dois sabores dominavam a produção: groselha e quinado. A groselha era a favorita das crianças, doce, vermelha, refrescante. O quinado tinha gosto mais marcante, meio amargo, e fazia sucesso entre os adultos que acreditavam em suas propriedades “fortificantes”. As garrafinhas eram chamadas de caçulinhas, pequenas, de vidro grosso, com tampa de metal que precisava ser aberta com abridor. Geladas, então, eram irresistíveis. Nas festas de aniversário, nos almoços de domingo, nas tardes quentes de verão, lá estavam elas. Cada caçulinha aberta era um evento. Cada gole era saboreado devagar. De Cordeirópolis para o Brasil Aqui é onde a história fica surpreendente. Flávio Rodrigues de Oliveira, filho de Miguel, guarda memórias vívidas daqueles tempos: “Vendíamos muito bem em toda a região, inclusive até para Goiás e no comecinho de Brasília.” Pense nisso. Estamos falando de uma cidadezinha do interior paulista, com uma fábrica artesanal, despachando refrescos para Goiás e para Brasília, a capital federal que estava sendo construída! Como isso acontecia? O Brasil dos anos 50 era um país em transformação. Brasília começou a ser construída em 1956. Milhares de trabalhadores, os candangos, vinham de todos os cantos do país para erguer a nova capital. E precisavam de comida, bebida, mantimentos. Os refrescos de Cordeirópolis chegavam lá. Em caminhões que enfrentavam estradas de terra, poeira e sol escaldante, as caçulinhas viajavam centenas de quilômetros. Era o interior paulista levando seu sabor para o coração do Brasil. A era de ouro dos refrescos artesanais Para entender o sucesso da fábrica de Miguel Rodrigues, é preciso voltar no tempo. Nos anos 50, refrigerantes industrializados ainda eram artigo de luxo no Brasil. A Coca-Cola havia chegado em 1942, mas sua distribuição era limitada às grandes cidades. O Guaraná Antarctica existia desde 1921, mas também não chegava a todos os cantos. No interior, a solução eram as fábricas locais de refrescos. Praticamente toda cidade de médio porte tinha a sua. Eram negócios familiares, artesanais, que atendiam a demanda regional. Cordeirópolis não era exceção, mas tinha um diferencial: qualidade e alcance. Enquanto muitas fábricas se limitavam à cidade e vizinhança, os refrescos de Miguel Rodrigues atravessavam estados. O dia em que as máquinas pararam Em 1962, dez anos após o início, a fábrica fechou suas portas. Por quê? As razões são várias: Miguel Rodrigues teve que tomar a difícil decisão de encerrar o negócio. As máquinas pararam. As caçulinhas deixaram de ser enchidas. O som do engradado tilintando na porta da venda virou apenas memória. Mas que memória. Um sabor que atravessa gerações Quem provou os refrescos de Cordeirópolis nunca esqueceu. Não era só o gosto. Era o ritual. Era a garrafa gelada nas mãos num dia quente. Era o lacre estalando. Era dividir com o irmão, com o primo, com o amigo. Era aquela sensação de que o mundo estava bem quando você tinha uma caçulinha de groselha na mão. Hoje, mais de 60 anos depois, não existem mais as garrafas. Não existe mais a fábrica. Mas existe a memória viva, forte, doce como groselha. O legado além do sabor A fábrica de refrescos foi mais um capítulo na história empreendedora de Cordeirópolis. Assim como as fábricas de cerâmica e as tecelagens que marcaram época, a indústria de Miguel Rodrigues mostrou que a cidade tinha espírito inovador, capacidade de ir além das suas fronteiras e coragem de ousar. De uma pequena esquina na Rua do Comércio, Cordeirópolis levou seu nome e seu sabor para Goiás, para Brasília, para o Brasil. E isso, nenhum fechamento de fábrica consegue apagar. Você se lembra? Queremos ouvir suas histórias! Mande para o Tá no Arquivo! Seja por mensagem, comentário ou e-mail. Cada lembrança ajuda a manter viva essa história saborosa. Você Sabia? Nos anos 50, ter um refrigerador em casa era luxo. A maioria das famílias guardava as bebidas em caixas de gelo — blocos grandes de gelo que o “homem do gelo” entregava de porta em porta. Por isso, tomar um refresco gelado era um evento especial, não algo do dia a dia. Brasília começou a ser construída em 1956 e foi inaugurada em 1960. Durante a construção, dezenas de milhares de trabalhadores viviam em condições precárias no canteiro de obras. Produtos que vinham de outras regiões do Brasil eram muito valorizados e os refrescos de Cordeirópolis estavam entre eles. Fonte Histórica Este artigo faz parte da série “Retratos do Passado” e foi desenvolvido com base em depoimentos de moradores antigos de Cordeirópolis, incluindo Flávio Rodrigues de Oliveira, filho do proprietário da fábrica. O texto aqui apresentado é uma adaptação narrativa do blog Tá no Arquivo, mantendo a fidelidade aos
Você sabia que Cordeirópolis já foi movida pela delicadeza de um fio de seda?

Entre amoreiras que se espalhavam pelas ruas e barracões cheios de vida, mulheres e jovens dedicavam horas cuidando dos bichos-da-seda. Era um trabalho silencioso, mas que sustentava famílias inteiras e marcou profundamente a identidade da cidade. No Tá no Arquivo, resgatamos essa memória que mistura suor, paciência e esperança, relembrando os dias em que casulos dividiam espaço até dentro das casas, espalhando histórias que atravessaram gerações. Quando o fio da seda bordou a história de Cordeirópolis Na memória de muitos cordeiropolenses, a cidade ainda guarda um capítulo curioso e pouco lembrado: a criação do bicho-da-seda, que marcou profundamente a economia e o cotidiano das famílias locais nas primeiras décadas do século XX. De acordo com relatos preservados e resgatados em entrevistas feitas pelo Jornal Expresso em 2008, quando a família de Teleforo Sanches chegou a Cordeirópolis por volta de 1926, a prática já era comum em muitas propriedades. As fazendas e colônias da cidade estavam cercadas de grandes plantações de amoreiras, árvore que fornecia a folha essencial para alimentar os bichinhos. As grandes plantações das plantas ficavam em torno da linha férrea, e margeavam hoje a atual Avenida Presidente Vargas. As criações tomavam barracões pela cidade e, muitas vezes, dividiam espaço até dentro das casas. Caixotes cheios de casulos se espalhavam entre os móveis, lembrando que aquele pequeno inseto era, na verdade, o grande sustento das famílias da época. Em alguns trechos da Avenida Presidente Vargas, onde hoje há hospital, piscina e comércios, antes existiam fileiras de amoreiras e galpões cheios de tabuleiros com casulos em formação. O local era conhecido como Centro de Sericicultura, espaço dedicado inclusive a estudos sobre os casulos e técnicas de produção. O trabalho das mãos femininas Quem cuidava dos bichinhos eram, em grande parte, as moças da cidade. A rotina exigia disciplina e delicadeza: as folhas tinham de ser colhidas frescas, verdinhas, e nunca poderiam estar molhadas. A cada dia, o alimento era oferecido com zelo, garantindo que os casulos atingissem o ponto ideal.“Era um trabalho de paciência e dedicação, mas que ajudava muitas famílias a complementar a renda”, lembrava em entrevista Flávio Rodrigues de Oliveira, em entrevista ao jornal Expresso em 2008, que também atuava em outras frentes da indústria local. Indústria nascente O sucesso da criação incentivou o surgimento da primeira fábrica de tecelagem em 1938, a “Fios de Seda Ltda”, de Francisco Orlando Stocco. Ali eram tecidos fios de raion e também de seda pura. A procura era tão grande que, durante a Segunda Guerra Mundial, parte da produção local foi destinada à confecção de paraquedas militares.Outras indústrias surgiram na sequência, como a Torção Cordeiro e a Sedatex, consolidando Cordeirópolis como um polo têxtil regional por algumas décadas. Trajetória das tecelagens Nos anos 1930 e 40, Cordeirópolis, ainda era distrito de Limeira, vivia a expectativa de se tornar referência na produção de tecidos. Foi nesse cenário que nasceu a Fioseda Ltda., uma empresa que marcou o início de um ciclo industrial na cidade, embora sua história tenha sido breve e turbulenta. De acordo com o historiador Paulo César Tamiazo, a Fioseda surgiu em 1938, fruto do entusiasmo em torno da produção de seda no Brasil, projeto incentivado pelo governo federal e estadual. Os contratos foram assinados e a empresa ganhou vida em um terreno no então subúrbio do distrito, próximo à atual rua Guilherme Krauter. Os sócios eram nomes conhecidos: Francisco Orlando Stocco, sua mãe Maria Amália Fischer Stocco, além de figuras da família Levy, como o Major José Levy Sobrinho, o capitão Ary Levy Pereira e Manoel Simão de Barros Levy. Era um grupo de peso, que acreditava no potencial da seda como motor de desenvolvimento. Sobre os terrenos da antiga Indústria de Seda Nacional, foram erguidas construções simples: um edifício de seis cômodos, instalações sanitárias e até uma cabine elétrica. Pouco a pouco, o espaço começava a ganhar ares de um parque industrial. Mas a história da Fioseda logo se entrelaçou com as tensões mundiais. Durante a Segunda Guerra, propriedades de descendentes de alemães, italianos e japoneses foram alvo de fiscalização e até confisco pelo governo brasileiro. Documentos revelam que a Agência Especial de Defesa Econômica do Banco do Brasil acompanhava de perto as transações. A desconfiança política e o cenário de guerra acabaram sufocando os negócios. Entre idas e vindas, a empresa passou para as mãos de grupos como a Krauter & Cia. e os Jafet, de São Paulo. As trocas de terrenos e as disputas judiciais mostram como o sonho da seda se desfez rapidamente, sem nunca alcançar o brilho esperado. Hoje, restam apenas as marcas desse tempo: algumas casas ainda de pé, registros cartoriais e a memória de uma tentativa ousada de transformar Cordeirópolis em um polo têxtil. A história da Fioseda, como lembra Tamiazo, é um retrato de uma cidade que sempre buscou inovar, mas que também sentiu de perto os impactos da política e da economia mundial. Essas informações do historiador estão no artigo: 1941, a encruzilhada da industrialização moderna de Cordeirópolis, publicado em 2016, no Portal Cordero Virtual. Um tempo que não volta Hoje, as amoreiras quase não são vistas, e os barracões foram substituídos por casas, hospital e comércios. Mas a lembrança daquela época, em que as ruas eram perfumadas pelo verde das amoreiras e pelas mãos cuidadosas das mulheres que criavam o bicho-da-seda, permanece como um fio de memória que continua bordando a história da cidade. Esse artigo fez parte da série “Retratos do Passado”. Se você tem fotos, lembranças ou histórias sobre a época do bicho-da-seda em Cordeirópolis, envie para o Tá no Arquivo e ajude a completar esse capítulo! Curta a página, compartilhe com seus amigos e parentes e mantenha viva a memória da nossa cidade!
Yolanda Penteado: a “Caipirinha de Leme” que brilhou no mundo e nunca esqueceu suas raízes

Em Leme, a história não é feita só de fazendas, cafezais e ruas antigas. É também feita de personagens que levaram o nome da cidade muito além das nossas fronteiras. Uma dessas figuras foi Yolanda de Ataliba Nogueira Penteado, lembrada pela historiadora Cibele Arle como uma das mulheres mais marcantes da história lemense. Da Fazenda Empyreo para o mundo Nascida em 6 de janeiro de 1903, na tradicional Fazenda Empyreo, Yolanda cresceu cercada de arte, cultura e poder. Filha de Juvenal Penteado e Guiomar Ataliba Nogueira, desde cedo conviveu com nomes como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Oswald e Mário de Andrade. De espírito livre, ousada e à frente de seu tempo, Yolanda chegou a viver um romance com Santos Dumont e cultivou uma amizade de vida inteira com Assis Chateaubriand, que a apelidou carinhosamente de “Caipirinha de Leme” — um título que ela carregava com orgulho, sempre lembrando suas origens. Inovadora na Fazenda Empyreo Quando a crise do café atingiu a região, Yolanda mostrou sua força. Transformou os campos da Fazenda Empyreo com novas culturas: algodão, bicho-da-seda e mandioca, ajudando a suprir a falta de trigo durante a guerra.Mais tarde, investiu na cana-de-açúcar e fez da fazenda palco de grandes festas, que recebiam de artistas a políticos entre eles, Ronald Reagan, Vinicius de Moraes e Juscelino Kubitschek. Arte, cultura e protagonismo feminino Ao lado de Ciccillo Matarazzo, Yolanda foi fundamental para a criação do Museu de Arte Moderna de São Paulo e da 1ª Bienal de Arte de São Paulo (1951), que trouxe obras de 21 países e marcou história com a exibição de Guernica, de Picasso, em 1953. Também colaborou com Assis Chateaubriand na criação de museus regionais e doou parte de sua coleção ao Museu de Arte Contemporânea da USP. Amor por Leme Mesmo vivendo no coração da elite cultural paulista, Yolanda nunca esqueceu Leme. Doou terrenos para a construção do clube de campo e de um campo de aviação, criou o Rancho Empyreo e foi provedora da Santa Casa. Sua ligação com a terra natal foi tão intensa que, após sua morte em 14 de agosto de 1983, suas cinzas foram espalhadas justamente na Fazenda Empyreo, símbolo eterno de sua vida. Um legado que atravessa gerações Yolanda Penteado foi retratada até em minissérie “Um Só Coração” (2004) , mas, para Leme, ela continua sendo a mulher que levou o nome da cidade ao mundo sem nunca abandonar suas raízes. Como resume a historiadora Cibele Arle:“Yolanda uniu aristocracia, inovação e generosidade. Representa uma época em que Leme esteve no centro da cultura e da arte, mas sem perder o vínculo afetivo com sua gente.” Se essa história também te emocionou, compartilhe com seus amigos e ajude a manter viva a memória de quem fez Leme brilhar no Brasil e no mundo. Acompanhe também o nosso canal e assista o vídeo especial de Yolanda Penteado.
A estrada secreta que encurtou o tempo e mudou o destino de Iracemápolis

Você sabe por que essa estrada foi chamada de a ‘veia do açúcar’ do interior paulista? Continue aqui na página e descubra o motivo. Senador Vergueiro e a estrada que mudou tudo Mais um capítulo baseado em “Iracemápolis: Fatos e Retratos” de José Zanardo (2008). Aqui no Tá no Arquivo, contamos essa parte da história sob um novo olhar — o dos caminhos, das rotas, do transporte que abriu o mundo pra gente. O desafio de ligar as terras ao mundo No início do século XIX, produzir era uma coisa levar o que se produzia para mercados era outra completamente diferente. As estradas eram trilhas estreitas, lama em épocas de chuva, subidas difíceis. Nem sempre se podia contar com pontes ou caminhos consolidados. Com o açúcar vindo das sesmarias (Morro Azul, Paraguaçu, Paramirim e Ibicaba), era urgente ter rotas melhores para transportar produtos, açúcar, aguardente, mantimentos até aos centros maiores como Piracicaba, Campinas e São Paulo. Era logística pesada: burros, carroças, atoleiros. Vergueiro e a estrada do Morro Azul a Piracicaba Foi o Senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro quem percebeu que, sem estradas, o potencial da região ficava preso. Segundo Zanardo, a estrada Morro Azul–Piracicaba entrou em cena por volta de 1823, encurtando distâncias, reduzindo tempo e custos de transporte. (Zanardo, livro) Essa estrada abriu portas: possibilitou escoamento mais rápido dos engenhos, permitiu que pessoas se deslocassem com mais liberdade, fortaleceu o comércio. Não era só uma estrada de terra era o passaporte para crescimento. Outras conexões da época: estrada para Campinas e pontes Fontes externas dizem que a ligação entre Morro Azul e Campinas também foi essencial. A estrada Morro Azul–Campinas teria sido aberta em torno de 1823–1826. (Vitruvius). Para cruzar rios como o Jaguari e o Atibaia, foram construídas pontes, algo que só se completou efetivamente em 1826. Essas pontes transformaram os caminhos: deixaram de ser obstáculos e se tornaram parte da estrutura que ligava comunidades Curiosidades de bastidor Que mudança isso trouxe? A construção da estrada significou: Para Iracemápolis e toda a região, isso foi decisivo: sem essa estrada, talvez muitos dos engenhos e sesmarias tivessem ficado à margem da história, porque não haveria como tirar seus produtos ou conectar comunidades. Convite ao leitor Já imaginou quantas vidas foram tocadas por essa estrada? Quantos carregamentos de açúcar atrasados, quantos caminhos inacessíveis?Se alguém da sua família viveu perto dessas vias ou estrada antiga, conta pra gente! Compartilhe essas histórias ou fotos. Quer saber mais? Continue no Tá No Arquivo. Vale a pena conhecer tudo!
150 anos depois: o que restou da Estrada de Ferro Sorocabana e o que ainda pode voltar?

Foram os trilhos que uniram cidades, histórias e vidas. A Estrada de Ferro Sorocabana, inaugurada em julho de 1875, completa 150 anos e continua sendo símbolo de desenvolvimento e luta. O sonho inicial era escoar o algodão, mas logo os vagões passaram a carregar café, mercadorias e passageiros, conectando o interior paulista ao litoral e impulsionando a economia não apenas do estado, mas de todo o país. Com mais de 800 km de linha tronco, a Sorocabana ligava São Paulo a Presidente Epitácio, passando por cidades como Sorocaba, Botucatu, Ourinhos, Assis e Presidente Prudente. Ramais estratégicos, como o de Itararé (até o Paraná) e o de Jurubatuba (hoje Linha 9-Esmeralda da CPTM), reforçavam a integração. Outro trecho importante foi o que ligava Mairinque a Santos, fundamental para o escoamento da produção agrícola e industrial. Mas nem tudo foram conquistas fáceis. A ferrovia também foi palco de greves históricas entre 1914 e 1919, marcadas por jornadas exaustivas, baixos salários e a luta por dignidade. Foi nesse contexto que nasceu a força sindical que até hoje resiste. O Sindicato dos Ferroviários da Estrada de Ferro Sorocabana, fundado em 1932, tornou-se uma das maiores entidades sindicais da América do Sul. Fechado por Vargas em 1940, renasceu e deu origem ao atual Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Sorocabana, reconhecido oficialmente em 1974 e que hoje completa 50 anos de história. Sob a presidência de José Claudinei Messias, o sindicato segue firme na defesa dos trabalhadores da base Sorocabana, CPTM e empresas privadas. Representa ativos e aposentados, enfrenta a precarização e acompanha os processos de concessão e privatização, sempre em busca de garantir que o suor de quem construiu os trilhos não seja esquecido. Hoje, parte da malha foi concedida à iniciativa privada com a Rumo Logística no transporte de cargas, a CCR (MOTIVA) operando linhas da CPTM e metrô, e até o VLT da Baixada Santista sob administração da BR Mobilidade. Mas a luta sindical continua: ferrovia é mais do que transporte, é patrimônio, é história e é futuro. O Sindicato dos Ferroviários da Zona Sorocabana honra cada trabalhador que, ao longo de 150 anos, deixou sua marca nos trilhos que ajudaram a erguer cidades e transformar a vida de milhares de pessoas. Tá no Arquivo resgata, mas também valoriza quem mantém essa memória viva: o trabalhador ferroviário. Este artigo é uma reprodução do Sindicato dos ferroviários da Estrada de ferro Sorocabana.
A cerveja que nasceu em Cordeirópolis: memórias de uma fábrica esquecida

Pouca gente sabe, mas Cordeirópolis já teve a sua própria fábrica de cerveja. Um detalhe curioso e quase esquecido da história local que ajuda a mostrar como o município sempre teve espírito empreendedor. Segundo relatos preservados no Tá no Arquivo e lembrados em reportagem de 2008, a cervejaria funcionava por volta de 1890, quando o então “Cordeiro” ainda era um pequeno distrito cercado por fazendas e colônias. Onde ficava a fábrica? A antiga fábrica iniciava suas instalações na rua Carlos Gomes, na altura da atual farmácia Drogacentro, e seguia até a esquina com a rua Toledo Barros, onde na época havia a casa da família Pagoto. Era um quarteirão movimentado, que misturava comércio e inovação industrial. Ali, em plena virada do século XIX para o XX, a produção de cerveja acontecia em escala regional, atendendo consumidores locais e das cidades vizinhas. A bebida e o contexto da época Produzir cerveja no interior paulista no final do século XIX era ousado. A bebida, antes restrita a grandes centros e famílias endinheiradas, começava a se popularizar. Enquanto a produção artesanal crescia em pequenas cidades, grandes marcas ainda davam seus primeiros passos no Brasil. O “Cordeiro” não ficou de fora desse movimento. A cervejaria local mostrava que havia espaço para inovação e prazer nos encontros sociais da época, seja nas festas populares, nos bailes ou nos bares que começavam a surgir. O que restou? Com o tempo, a fábrica fechou suas portas. Não há registros exatos sobre sua duração, nem fotografias conhecidas de sua produção. Restaram apenas memórias orais, transmitidas por famílias e preservadas em entrevistas como a de Antonio Reinaldo Meneghin (in memoriam), que fazia questão de manter viva a lembrança desse pedaço da história. Hoje, no local, restam apenas os comércios modernos. Mas o terreno guarda a marca silenciosa de uma das primeiras tentativas de industrialização em Cordeirópolis. Um brinde à memória Falar da antiga fábrica de cerveja é brindar ao passado da cidade. É lembrar que Cordeirópolis já ousava sonhar em produzir algo que unia pessoas e embalava momentos de convivência. Quem sabe, um dia, essa memória não inspire novos empreendedores a escrever mais um capítulo dessa história com sabor local? Veja também Esta lembrança foi registrada no Jornal Expresso em 2008.Veja a edição completa do jornal impresso da época
Fogos no céu e cerveja na mesa: a história pouco contada sobre as indústrias de Cordeirópolis

Você sabia que Cordeirópolis já teve fábrica de fogos de artifício e até de cerveja? Veja essa reportagem no Tá No Arquivo Em janeiro de 2008, o Jornal Expresso (hoje Martello News) trouxe à tona memórias valiosas guardadas por cordeiropolenses que testemunharam a transformação da cidade. Entre eles, os irmãos Antonio Reinaldo Meneghin e Nice Meneghin, além do empresário Teleforo Sanches todos já in memoriam. Seus relatos são um convite a revisitar um tempo em que Cordeirópolis, ainda chamada de “Cordeiro”, dava os primeiros passos rumo ao desenvolvimento. Essas lembranças foram reunidas na série “Retratos do Passado”, e hoje o Tá no Arquivo traz novamente à vida essas histórias que misturam suor, fé, indústria e tradição. As raízes da cidade Cordeirópolis nasceu oficialmente em 24 de dezembro de 1948, com a emancipação político-administrativa reconhecida pela Lei Estadual nº 233. Mas sua história já se desenhava muito antes. Documentos de 1822 registram colonizadores ligados à Fazenda Ibicaba, do senador Vergueiro, ocupando a região. Para Antonio Reinaldo Meneghin, porém, a origem era ainda mais antiga. Ele recordava que seu avô contava sobre a passagem de bandeirantes, que montaram uma fábrica de cordas no local onde hoje fica a Avenida Wilson Diório. “Havia até uma roda d’água para enrolar os fios”, dizia sorrindo, em 2008, quando contou suas memórias. A fábrica de cerveja e os comércios do passado Pouca gente sabe, mas em 1890 Cordeirópolis teve uma fábrica de cerveja. Localizada na rua Carlos Gomes, funcionava até a esquina da Toledo Barros. Já em 1940, surgia a primeira cooperativa de consumo, que depois daria origem ao Supermercado Guardia, oferecendo produtos mais acessíveis aos moradores. Os fogos que iluminavam o céu Em 1918, nada menos que quatro fábricas de fogos de artifício funcionavam na cidade. A produção animava festas religiosas e populares até o início dos anos 40, quando começaram a encerrar atividades. Uma delas ficava onde hoje está a Escola Jamil Abrahão Saad, outra na rua José Moreira e mais duas nas ruas Guilherme Krauter e Ramenzoni. Seda e tecelagens: a força feminina no trabalho Nos anos 20 e 30, a criação do bicho-da-seda transformou a paisagem da cidade. Grandes plantações de amoreiras alimentavam os casulos, e barracões se espalhavam pela atual Avenida Presidente Vargas. A mão de obra era, em grande parte, feminina: as jovens cuidavam das folhas, que precisavam estar verdes e secas para alimentar os bichinhos. Da sericicultura nasceu a primeira fábrica de tecelagem em 1938, a Fios de Seda Ltda. Nos anos seguintes, surgiram outras: Torção Cordeiro, Sedatex e Torção Sanches, de Teleforo Sanches. Durante a Segunda Guerra, a produção de fios de seda era vital para fabricar paraquedas, o que trouxe auge econômico para a cidade. “Essa indústria trouxe muito emprego para as mulheres. Eram mais de 250 trabalhando em três turnos”, recordava dona Nice Meneghin em 2008. Cerâmicas e óleos de laranja O setor cerâmico também marcou época. A primeira fábrica de telhas surgiu em 1935, fundada por Manoel Beraldo, pai de Luiz Beraldo (prefeito nos anos 60). Depois vieram a Cerâmica Carmelo Fior e a Cerâmica Floresta, no bairro de Cascalho. Outro ramo em alta foi o de óleo de laranja, que chegou a ter três fábricas em funcionamento na década de 40. Humberto Levy, Jamil Abrahão Saad e outros empresários transformaram a fruta em riqueza industrial, movimentando a economia local. Papel, refrescos e novas frentes Na década de 40, Cordeirópolis também ganhou a Fábrica de Papelão Gabriel Saad. Depois, nos anos 50, a Papirus e, mais tarde, a Indústrias de Papel R. Ramenzoni consolidaram o setor, mesmo após incêndios e crises. Entre 1952 e 1962, a cidade também teve uma indústria de refrescos, de Miguel Rodrigues de Oliveira, que produzia groselha e eram engarrafados em pequenas “caçulinhas”. A bebida chegava a Goiás e ao recém-criado Distrito Federal. Patrimônio e construção civil A Construtora Caci, de 1947, ergueu muitas casas que ainda permanecem de pé, testemunhas de um tempo de expansão urbana. Já o Casarão Fratini, construído no século XIX, quase se perdeu em ruínas, mas foi restaurado pelo empresário Victor Levy. Hoje, abriga reuniões e ainda guarda o charme da arquitetura antiga. O fio que liga passado e presente As memórias de Meneghin, Nice e Teleforo não são apenas lembranças pessoais. Elas foram testemunhos de como Cordeirópolis se reinventou ao longo do século XX: das cordas aos fogos, da seda ao papel, das cerâmicas aos refrescos. São histórias que mostram uma cidade que cresceu com criatividade, trabalho e coragem. Histórias que não podem ser esquecidas.
Descobrimento do Brasil: por que a data mudou de 3 de maio para 22 de abril?

Você sabia que o Descobrimento do Brasil já foi comemorado em 3 de maio? Descubra como um morador de Leme (SP), José de Almeida Peixe Abade, provou que a data correta é 22 de abril de 1500. A polêmica da data do DescobrimentoMuita gente aprende na escola que o Descobrimento do Brasil aconteceu em 22 de abril de 1500, quando a frota de Pedro Álvares Cabral desembarcou na região da atual Porto Seguro (BA).O registro mais famoso desse episódio é a Carta de Pero Vaz de Caminha, documento que descreve em detalhes a nova terra avistada numa terça-feira. Conversamos com a historiadora e chefe de Núcleo de Patrimônio Histórico da cidade de Leme, Cibele Arle, ela explica que durante séculos acreditou-se que a chegada havia ocorrido em 3 de maio. O motivo? Essa era a data da Festa da Santa Cruz, e como o Brasil foi inicialmente batizado de Terra de Vera Cruz, a coincidência acabou gerando a confusão. O papel de um morador da nossa região Quem ajudou a resolver esse erro histórico foi um personagem pouco lembrado, mas essencial: José de Almeida Peixe Abade, morador de Leme (SP).• Advogado, delegado e promotor.• Jornalista e historiador apaixonado pela verdade dos fatos.• Fazendeiro e figura de grande influência social em sua região.Na década de 1940, intrigado com a polêmica, Peixe Abade mergulhou em pesquisas. Analisando documentos raros, inclusive a Carta de Caminha, ele reuniu provas de que o Brasil foi avistado em 22 de abril, e não em 3 de maio. Reconhecimento oficialEm 1949, José de Almeida Peixe Abade apresentou seu estudo à Câmara dos Deputados. Sua pesquisa foi aceita e o Brasil, enfim, passou a celebrar oficialmente o 22 de abril como o Dia do Descobrimento.Graças a ele, a memória nacional foi corrigida e, até hoje, é essa a data reconhecida nos livros, escolas e calendários. Biografia resumida de José de Almeida Peixe Abade• Nascimento: 2 de fevereiro de 1889, em Araras (SP).• Infância: Mudou-se para Leme após o falecimento do pai. Adotou o sobrenome “Abade” em homenagem ao padrasto.• Carreira: Formado em Direito, atuou como delegado, promotor e advogado.• Vida pessoal: Casou-se em 1917 com Olga Aranha e teve seis filhos.• Atuação social: Foi vice-presidente da Câmara de Leme e presidente do Esporte Clube Lemense.• Historiador: Autor de pesquisas que mudaram a forma como o Brasil entende seu descobrimento.• Falecimento: 20 de junho de 1964, em Leme, aos 65 anos. Por que lembrar dessa história? Como ressalta Cibele Arle, compreender os bastidores dessa mudança é reconhecer que até os grandes fatos da nossa história podem ter sido fruto de interpretações equivocadas. E que pessoas comuns, como um advogado e pesquisador do interior paulista podem mudar o curso da narrativa nacional. Conclusão O descobrimento do Brasil não é apenas uma data no calendário, mas um símbolo de identidade.Graças ao trabalho incansável de José de Almeida Peixe Abade, hoje sabemos que foi em 22 de abril de 1500 que Cabral e sua esquadra chegaram oficialmente ao território brasileiro. Se você gostou de conhecer essa curiosidade histórica, compartilhe este artigo, marque um amigo que também gosta de história e ajude a fortalecer o Tá no Arquivo!
Crise hídrica dos anos 60: como a lei 417 salvou Cordeirópolis

Um gertrudense daria uma verdadeira luz para Cordeirópolis nos anos 60. Luiz Beraldo, nascido em 10 de maio de 1921 em Santa Gertrudes, foi o prefeito que mudou o rumo da cidade ao enfrentar uma das maiores crises hídricas da época. No dia 16 de junho de 1965, Beraldo sancionava a Lei Municipal nº 417. Pouca gente sabe, mas aquele documento marcou a história de Cordeirópolis: foi o passo decisivo para garantir abastecimento de água tratada à população, algo que até então era um desafio diário. O plano para não deixar a cidade sem água Na gestão de Luiz Beraldo, a água virou prioridade absoluta. Três vertentes foram pensadas: Ele defendia a ideia de aproveitar a força da gravidade para facilitar o escoamento, explorando a diferença de altitude entre a represa do Cascalho e o centro da cidade. Em dias de chuva forte, Beraldo costumava observar os alagamentos na estrada do Barro Preto, onde o Ribeirão Tatu transbordava. A cada visita, reforçava em sua mente: aquele ponto tinha potencial para uma grande represa. E, anos depois, ele transformou a visão em realidade. O empréstimo que mudou a história Nos anos 60, Cordeirópolis crescia, mas o abastecimento de água não acompanhava o ritmo. A solução foi ousada: contrair um empréstimo milionário junto à Caixa Econômica do Estado de São Paulo. O valor aprovado impressionava: Cr$ 21.552.064 (vinte e um milhões, quinhentos e cinquenta e dois mil e sessenta e quatro cruzeiros), uma verdadeira fortuna para a época. O objetivo era claro: captar, distribuir e oferecer água de qualidade para a população. Em 1965, o Brasil vivia com uma inflação de cerca de 40% ao ano. Isso significava que o valor precisava ser aplicado rapidamente, antes que o dinheiro perdesse força de compra. As condições do acordo O contrato do empréstimo estabelecia: Era uma aposta arriscada, mas necessária. Cordeirópolis não poderia se desenvolver sem resolver primeiro a questão da água. Fiscalização e execução As obras seguiram os projetos técnicos do Departamento de Obras Sanitárias da Secretaria de Serviços e Obras Públicas do Estado de São Paulo, que fiscalizava desde a abertura das valas até a conservação das estruturas. Beraldo ou “Luizito”, como era chamado carinhosamente pelos moradores, governou Cordeirópolis de 1965 a 1969. A represa do Barro Preto e o sonho de uma ilha O desejo de represar o Ribeirão Tatu ganhou forma na Represa do Barro Preto. Anos mais tarde, um projeto de lei de autoria da ex-vereadora Mariana Fleury Tamiazo (PL nº 50/2021) oficializou o nome da represa como “Luiz Beraldo”, homenagem a quem idealizou a obra. Quando construiu a represa, Beraldo acompanhou de perto as máquinas trabalhando: caminhões, moto-niveladoras, pás-carregadeiras. A poeira levantada anunciava o progresso. Em seus planos, ele chegou a sonhar com uma ilha artificial no centro da represa, equipada com lazer, pedalinhos e restaurante. Hoje, tomada pela vegetação, essa ilha é um vestígio desse sonho. A represa foi inaugurada em 1968 junto com quem seria o seu sucessor, Teleforo Sanches. E a inauguração ficou marcada não por egos políticos, mas por união: os dois celebraram juntos com a população. Luizito mergulhou na água represada ao lado de autoridades e convidados. Uma área de aproximadamente 7 alqueires que nascia para abastecer a cidade e principalmente atender às indústrias, que pressionavam por soluções diante da escassez hídrica. Um divisor de águas A aprovação da Lei nº 417 foi o que permitiu a modernização do sistema hídrico de Cordeirópolis. A cidade não apenas garantiu qualidade de vida à população, mas também se preparou para crescer com segurança. Foi, de fato, um divisor de águas no sentido literal e no histórico. Mensagem “Entre sonhos e concreto, a represa nasceu — e com ela a certeza de que a água sempre guiou o destino de Cordeirópolis.” E aqui entra você! O Tá no Arquivo resgatou esse documento histórico, mas ainda restam perguntas sem resposta: Se você tem fotos, lembranças ou relatos, compartilhe conosco. Sua memória pode completar esse capítulo essencial da história de Cordeirópolis.
O caminho das sesmarias: as terras que moldaram Iracemápolis

Este é mais um episódio inspirado no livro “Iracemápolis: Fatos e Retratos” do professor José Zanardo (2008). Aqui no Tá no Arquivo, seguimos dando nova forma aos fatos, trazendo uma leitura viva e emocionante sobre as origens da aconchegante cidade de Iracemápolis. Para quem quer acompanhar os episódios dos artigos, pode ler: Onde tudo começou: quando Iracemápolis era só água, mata e esperança. Terras de riqueza e promessa Quando falamos de Iracemápolis, precisamos lembrar que, muito antes de ser vila ou cidade, ela nasceu dentro de um território gigantesco chamado Sesmaria do Morro Azul. Esse pedaço de chão não era qualquer terra: era uma das mais férteis, produtivas e cobiçadas da região. A Sesmaria, ainda no século XIX, abrangia o que viria a ser três grandes fazendas: Morro Azul, Paraguaçu e Paramirim. Eram áreas de solo vermelho, perfeitas para o cultivo da cana-de-açúcar e para a instalação dos engenhos que adoçavam o Brasil. A divisão das terras Com a morte do Brigadeiro Jordão, herdeiro e proprietário da imensa Morro Azul, as terras foram repartidas. Assim, surgiram outras propriedades, como a Ibicaba e o Quilombo. Cada divisão carregava não só a terra, mas também a responsabilidade de sustentar famílias inteiras e dar vida a comunidades que começavam a nascer. De acordo com o professor Zanardo, a Ibicaba, sob a condução do Senador Vergueiro, se tornou pioneira: foi lá que imigrantes começaram a trabalhar em regime de parceria, substituindo o trabalho escravo por um sistema que mudaria para sempre a economia regional. A produtividade agrícola Essas terras eram celeiros de fartura. No recenseamento de 1822, já havia registro de 231 unidades habitacionais, centenas de engenhos e uma população que somava quase 1.500 pessoas, entre livres e escravizados. A cana-de-açúcar era a rainha da lavoura, seguida pelo milho e pelo feijão. Desses campos saíam toneladas de açúcar em três tipos: Tudo era transportado em lombo de burros até São Paulo, e de lá seguia para o Porto de Santos. Uma viagem que podia durar até 6 dias. O legado das sesmarias As sesmarias não foram apenas lotes de terra. Elas foram o berço de Iracemápolis. Dali nasceram os povoados, os primeiros comércios, as festas populares e até a mistura cultural que hoje define a identidade dos iracemapolenses. Cada fazenda deixou sua marca, seja na economia, na religião, nos sobrenomes ou na própria geografia da cidade. Quando olhamos para trás, é impossível não reconhecer: foi no Morro Azul e nas sesmarias vizinhas que tudo começou a ganhar forma. Convite a você leitor Essa história não é apenas sobre terras antigas, mas sobre raízes que ainda vivem em todo o povo. Você sabia que sua família pode ter vindo dessas fazendas? Reconhece algum sobrenome ligado ao Morro Azul ou à Ibicaba? Comente, compartilhe e ajude a manter viva a memória de quem construiu a cidade. Projeto Tá no Arquivo – resgatando as histórias que o tempo não pode apagar. Se você leu até aqui, não deixe de ler: Onde tudo começou: quando Iracemápolis era só água, mata e esperança.
