O padre que veio da Itália e mudou Cascalho para sempre

1911. Um jovem padre desembarca na pequena colônia italiana de Cascalho. Ele não sabe ainda, mas está prestes a se tornar uma lenda. O trem apita ao longe. A poeira vermelha sobe da estrada de terra. Pe. Luis Stefanello, missionário escalabriano recém-chegado, olha ao redor e vê o que esperava encontrar: casas simples de imigrantes italianos, crianças descalças correndo entre galinhas, mulheres com lenços na cabeça carregando água e  homens curvados sobre a terra que não era mais aquela do Vêneto. Eles haviam deixado a Itália em busca de vida melhor. Encontraram trabalho duro, saudade profunda e uma solidão que só a fé conseguia preencher. E ali estava ele,  um padre que falava a língua deles, conhecia suas dores, entendia seus medos. Ninguém imaginava que aquele jovem sacerdote se tornaria, nas décadas seguintes, uma figura tão poderosa que pessoas viriam de Minas Gerais, Paraná e até Goiás só para vê-lo. Ninguém sabia que seu nome seria sussurrado com respeito  e um pouco de medo, por gerações. Conheça agora,  a história de Pe. Luis Stefanello, o padre que mudou Cascalho para sempre. A colônia italiana que precisava de um milagre Para entender quem foi Pe. Stefanello, é preciso primeiro entender onde ele chegou. Cascalho, hoje parte de Cordeirópolis  era, no início do século XX, um núcleo de imigrantes italianos vindos principalmente do Vêneto. Eles haviam desembarcado no Brasil fugindo da crise econômica de 1846 que devastou a Europa. A promessa era simples: terra fértil, trabalho e chance de recomeçar. A realidade foi bem mais dura. Chegaram em 1904 e se instalaram nas proximidades da Fazenda Iracema, onde cada família recebia um pequeno pedaço de terra como propriedade. Era uma das primeiras experiências de reforma agrária no Estado de São Paulo, uma tentativa corajosa de substituir o trabalho escravo pelo trabalho livre. Mas a adaptação não foi fácil. O clima era diferente. A língua era outra. Os costumes, estranhos. A saudade, insuportável. Muitos adoeceram. Alguns desistiram e voltaram. Outros morreram sem nunca mais ver a terra natal. E foi nesse contexto que a fé se tornou o único porto seguro.  Você sabia? Os Missionários Escalabrinianos foram fundados em 1887 pelo Beato João Batista Scalabrini especificamente para cuidar dos imigrantes italianos espalhados pelo mundo. Seu objetivo não era apenas religioso  era social. Queriam “manter viva a fé católica no coração dos compatriotas emigrados e, na medida do possível, buscar o seu bem-estar moral, social e econômico.” Pe. Stefanello fazia parte dessa missão. O padre que falava a língua do povo Quando Pe. Luis Stefanello chegou em 1911, a colônia respirou aliviada. Finalmente, alguém que os entendia. Não apenas a língua italiana, mas a alma italiana. Ele conhecia as festas do Vêneto. Sabia das tradições. Entendia o peso da saudade. E, principalmente, respeitava as crenças populares que os imigrantes traziam na bagagem: o medo do malocchio (mau-olhado), a crença em espíritos malignos, a necessidade de benzer, rezar, proteger. Stefanello não era apenas um padre que rezava missa. Era um pastor, no sentido mais profundo da palavra. Visitava as casas. Consolava os aflitos. Benzia os doentes. Estava presente nos nascimentos, nos casamentos, nos enterros. E logo, algo começou a acontecer. As pessoas começaram a notar que ele tinha um carisma particular. Dona Rosa, uma das moradoras mais antigas, lembrava décadas depois: “Ele ficou aqui 42 anos, o padre Luis. E depois, ele fez o meu casamento também.” Não era só ela. Famílias inteiras passaram a vida inteira sob os cuidados espirituais de Stefanello. Ele batizou os filhos, casou os netos, enterrou os avós. Mas havia algo mais. Algo que fazia dele diferente de outros padres. “Um padre cheio de poder” A fama começou devagar, quase por acaso. Uma mulher que estava doente pediu a benção. Melhorou. Um homem atormentado buscou ajuda. Encontrou paz. Uma criança com febre alta foi benzida. A febre baixou. Coincidências? Fé? Milagre? Para o povo de Cascalho, não importava. O que importava era que Stefanello curava. E a notícia se espalhou. Primeiro para Cordeirópolis. Depois para Limeira. Logo, para cidades vizinhas. E então, para estados inteiros. “Como vinha gente”, diziam os moradores. “Vinha bastante gente do Paraná para tratar exorcismo”, contava dona Rosa, com aquele jeito simples de quem está falando de algo absolutamente normal. Exorcismo. A palavra assustava. Mas para os italianos de Cascalho  e para tantos outros que vinham de longe, era parte da realidade. O mal existia. E existia alguém que podia enfrentá-lo. Pe. Stefanello. O contexto cultural: Quando o diabo era real Para compreender a dimensão do que acontecia em Cascalho, é preciso voltar no tempo e entender como aquelas pessoas viam o mundo. No interior do Brasil dos anos 1910-1950, especialmente entre imigrantes italianos, a linha entre o natural e o sobrenatural era muito tênue. Doenças inexplicáveis? Podia ser o diabo. Comportamento estranho? Espírito maligno. Azar persistente? Mau-olhado. Não era ignorância. Era cosmovisão,  uma forma de interpretar a realidade onde Deus, santos, anjos e demônios coexistiam no cotidiano. Onde uma benção podia mudar o rumo de um dia. Onde um crucifixo na parede protegia a casa. E nesse universo simbólico, o padre era o mediador entre Deus e os homens. Stefanello entendia isso. Não desprezava as crenças populares,  trabalhava com elas. Benzia com água benta. Rezava o terço. Usava o crucifixo. Expulsava o mal. E o povo reconhecia nele uma autoridade espiritual real. A vida religiosa em Cascalho A fé não era algo abstrato para os italianos de Cascalho. Era vida vivida. Aos domingos, a igreja ficava lotada. Famílias inteiras caminhavam quilômetros para assistir à missa. As crianças eram batizadas logo após o nascimento. Os casamentos eram grandes celebrações comunitárias. Os mortos eram velados com rezas que duravam noites inteiras. E havia as festas. Festa de Nossa Senhora da Assunção. Festa de Santo Antônio. Festa de São Sebastião. Cada uma delas um momento de encontro, de pertencimento, de reafirmação da identidade italiana em terra brasileira. Pe. Stefanello estava no centro de tudo isso. Ele não era apenas o padre que rezava a missa. Era o

Efeitos especiais eram improvisados durante as peças teatrais em 1948

Relembre a história do teatro cordeiropolense e a dedicação de artistas que transformaram limitações em criatividade Na década de 1940, o teatro em Cordeirópolis começou a ganhar forma, como já relatamos anteriormente aqui no Portal Martello News. Agora, vamos mergulhar mais profundamente na história teatral da cidade, especialmente no ano de 1948, quando a paixão pela arte superava todas as dificuldades materiais. Naquela época, grupos teatrais locais não contavam com recursos tecnológicos ou financeiros, mas possuíam algo muito mais valioso: amor pela arte e criatividade sem limites. Sons de coruja, raios, chuva e outros efeitos especiais eram todos criados de forma artesanal, numa demonstração de engenhosidade que marcou gerações. Esta reportagem, originalmente publicada em fevereiro de 2008 em nossa versão impressa, revisita esses momentos únicos da história cultural de Cordeirópolis. As primeiras peças adultas (1948-1949) Na época em que o Cordeiro Clube funcionava onde hoje está localizado o Banco Bradesco, a cidade vivia um momento especial de efervescência cultural. A senhora Josefina Boldrini Beraldo (in memoriam) relembrou, em entrevista de 2008, sua participação na peça “Chuvas de Verão”, encenada entre 1948 e 1949. “Eu participei do grupo teatral Laurentino Fonseca e acredito que foi uma das primeiras peças adultas. Essa época dá muita saudade, a turma era muito animada para fazer teatro, mesmo não tendo muita estrutura. Fazíamos porque gostávamos”, emocionou-se ao recordar aquele período. Década de 1950: O grupo dramático São Luiz Gonzaga Os anos 1950 foram marcados pela atuação da Congregação Mariana, que criou o Grupo Dramático São Luiz Gonzaga. Iniciando suas atividades em 1956 na Sede Social Católica, o grupo manteve-se ativo até 1961, quando apresentou sua última peça em 18 de novembro, na sede do Cordeiro Clube. “Esta última peça teatral tinha somente homens no elenco”, contou na época, Moacir Ribeiro (in memoriam) , ex-integrante do grupo. As apresentações aconteciam aos domingos, logo após as missas das 19 horas, e tinham duração entre uma hora e meia a duas horas. As músicas eram executadas em “sonatas” e, durante os intervalos, havia atrações para entreter o público enquanto o elenco trocava cenários e figurinos. “Tinham conjuntos tocando na hora de cada ato e até humoristas que chamávamos de cômicos, animando o público para fazermos a troca do cenário”, recordou Ribeiro. A arte da improvisação: efeitos sonoros artesanais A genialidade dos grupos teatrais de Cordeirópolis se revelava especialmente na criação dos efeitos especiais. Segundo Moacir Ribeiro, cada efeito era cuidadosamente improvisado com os recursos disponíveis. Para simular raios, o eletricista Antonio Panaggio (in memoriam) utilizava dois fios desencapados para criar flashes de luz. O som da chuva era produzido por chapas grandes de zinco, balançadas por duas pessoas, uma de cada lado. Já o trovão era criado por Irineu Loureiro e Benedito Duarte, que jogavam bolas de bocha um para o outro, gerando o efeito sonoro desejado. “Eu lembro de uma cena da peça ‘Louco da Aldeia’ que o Irineu de Souza Loureiro, o ‘compadre Souza’ (in memoriam) subiu em cima do palco e fez o som da coruja. Foi muito legal, pois naquela época improvisávamos tudo”, relatou Ribeiro. Anos 1970: O grupo teatral Valentino Spolador Este grupo representou um grande marco na história do teatro cordeiropolense. Durante seu auge, conquistou títulos importantes em uma competição realizada em Rio Claro, onde Silvia Beraldo Mazutti e João Ronquizelli foram premiados como melhor atriz e melhor ator, respectivamente. Nos anos 1970, as apresentações aconteciam no Centro Comunitário. “Algumas foram no antigo Cine Paulista, onde foi o prédio da Acorac, na rua Sete de Setembro. Inclusive até ajudei”, contou Maria Costa. O grupo sofreu mudanças após o falecimento de João Ronquizelli em 1975, mas continuou suas atividades até próximo aos anos 1980, realizando diversas apresentações no Colégio Estadual, hoje conhecido como Escola Jamil. “Eu comecei no teatro em 1973 com a montagem ‘O Casaco Encantado’ e participei até 1979. Foram bons momentos de improviso e muita dedicação de quem atuava nos teatros”, declarou na época, Osvaldo Donizete Hubner. Segundo José Valdir Vidoretto, a última peça que Manoel Loureiro iniciou, mas não concluiu, foi “O Calígola”, interrompida por seu falecimento em outubro de 1979. O renascimento do teatro local Após a morte de Manoel Loureiro, as apresentações teatrais cessaram em Cordeirópolis. A cidade ficou 26 anos sem espetáculos até que, em 2005, nasceu o grupo Teatral Pingo D’água, marcando o renascimento da atividade teatral na cidade. O Grupo Pingo D’água também encerrou as atividades  no ano de 2015, no ano de 2016 fizeram a última apresentação em Guararema. Esta reportagem faz parte da série “Retratos do Passado”, que resgata momentos importantes da história de Cordeirópolis. Veja em nossa página do Instagram clicando aqui

Você sabia que a estação de Cordeirópolis nasceu de uma “curva no meio do nada”?

Você sabia que a estação de Cordeirópolis nasceu de uma “curva no meio do nada”?
Veja também: como uma derrota política se transformou na maior vitória da Companhia Paulista.
Há histórias que começam com um sonho audacioso e terminam em glória. Outras começam com um sonho audacioso e quase morrem no meio do caminho. Esta é a história de um ramal ferroviário que quase não saiu do papel, mas que quando finalmente se concretizou, mudou para sempre o destino de cidades inteiras no interior paulista.

Dona Margarida Macota: A parteira que trouxe Iracemápolis ao mundo

A mulher que, entre 1920 e 1960, foi responsável pelo nascimento de boa parte da população da cidade Em uma época em que hospitais eram raros e o parto domiciliar era a norma, uma mulher se destacou em Iracemápolis por sua dedicação, habilidade e amor ao próximo. Dona Margarida Macota, (Margarida Maria da Rocha) parteira prática que atuou entre as décadas de 1920 e 1960, foi responsável por trazer ao mundo centenas, talvez milhares de iracemapolenses, deixando um legado imensurável na história da cidade. As mãos que acolhiam a vida Dona Margarida não possuía diploma universitário, mas carregava algo mais valioso: o dom de cuidar e a sabedoria transmitida de geração em geração. Como parteira prática, ela dominava técnicas ancestrais de assistência ao parto, combinando conhecimento empírico com uma sensibilidade única para lidar com as gestantes e suas famílias. Sua casa era conhecida por todos. A qualquer hora do dia ou da noite, Dona Margarida estava pronta para atender ao chamado de uma família que aguardava a chegada de um novo membro. Munida de sua maleta com os instrumentos básicos, panos limpos e suas mãos experientes, ela percorria as ruas de terra de Iracemápolis, muitas vezes a pé ou de carroça, para chegar às residências onde era esperada. Mais que uma parteira: Uma figura materna O trabalho de Dona Margarida ia muito além de auxiliar no momento do parto. Ela acompanhava as gestantes durante a gravidez, oferecia conselhos sobre cuidados com o bebê, preparava chás medicinais e ficava ao lado das mães nos primeiros dias após o nascimento. Em uma época sem recursos médicos sofisticados, sua presença transmitia segurança e confiança. Muitas famílias de Iracemápolis têm histórias para contar sobre Dona Margarida. Relatos passados de pais para filhos falam de sua paciência infinita, de suas palavras de conforto nos momentos de dor, e de sua alegria genuína ao anunciar: “É menino!” ou “É menina!”. Para muitas mulheres daquela época, ter Dona Margarida ao lado durante o parto era como ter uma mãe presente no momento mais importante de suas vidas. O contexto histórico Entre 1920 e 1960, o Brasil ainda era predominantemente rural, e Iracemápolis não era exceção. O acesso a hospitais e médicos era limitado, especialmente para as famílias mais humildes. Nesse contexto, as parteiras práticas como Dona Margarida desempenhavam um papel fundamental na saúde pública, sendo muitas vezes a única assistência disponível para as gestantes. A profissão de parteira era reconhecida e respeitada. Essas mulheres eram pilares de suas comunidades, guardiãs de conhecimentos tradicionais sobre gestação, parto e cuidados com o recém-nascido. Dona Margarida representava essa tradição em Iracemápolis, sendo procurada por famílias de todas as classes sociais. Um legado que atravessa gerações Estima-se que Dona Margarida tenha assistido ao nascimento de boa parte da população de Iracemápolis nascida entre 1920 e 1960. Isso significa que muitos dos avós e bisavós das famílias atuais da cidade vieram ao mundo pelas suas mãos. Seu legado está literalmente presente em cada geração de iracemapolenses. Além dos nascimentos, Dona Margarida ajudou a formar uma rede de solidariedade feminina na cidade. As mulheres que ela assistia muitas vezes se tornavam suas amigas e confidentes, criando laços que fortaleciam o tecido social de Iracemápolis. Sua casa era um ponto de encontro onde gestantes trocavam experiências, receitas e conselhos. O fim de uma era e o início da memória Com o passar dos anos e a modernização dos serviços de saúde, os partos domiciliares foram gradualmente substituídos pelos hospitalares. A década de 1960 marcou uma transição importante na assistência obstétrica brasileira, com a crescente medicalização do parto. Dona Margarida, como muitas parteiras de sua geração, viu seu trabalho diminuir à medida que hospitais e maternidades se tornavam mais acessíveis. No entanto, sua contribuição para Iracemápolis permanece viva na memória coletiva da cidade. Muitos de seus “filhos” como ela carinhosamente chamava aqueles que ajudou a nascer, ainda lembram de sua figura com carinho e gratidão. Algumas famílias guardam fotografias antigas onde ela aparece segurando recém-nascidos, documentos preciosos de uma época em que a vida comunitária era mais próxima e as relações humanas mais estreitas. Reconhecimento e valorização Embora não existam registros oficiais completos de todos os partos que Dona Margarida realizou, sua história merece ser contada e celebrada. Ela representa milhares de parteiras brasileiras que, com dedicação e coragem, garantiram que incontáveis vidas chegassem ao mundo com segurança, mesmo em condições adversas. Hoje, quando falamos sobre humanização do parto e resgate de práticas tradicionais, é importante lembrar de mulheres como Dona Margarida Macota. Elas foram pioneiras em entender que o nascimento é um momento que exige não apenas técnica, mas também acolhimento, respeito e amor.  Epidemias e o medo invisível A história também guarda páginas tristes.Por volta de 1892, a febre amarela assolou a região. Como lembra o livro de Zanardo, “a maioria dos defuntos eram enterrados apenas num lençol… e até médicos e coveiros foram ceifados pela morte”. Os remédios eram escassos. Quinino e antipirina eram usados contra a febre, mas muitos preferiam recorrer à medicina caseira, chás de flor-de-laranjeira, compressas e orações. O desespero era combatido com fé, e o tempo era o único aliado da cura.  Os remédios da terra Na falta de farmácias, a sabedoria popular fazia milagre.Os chás eram quase sagrados: hortelã para dor de barriga, arruda para o mau-olhado, mel com limão para tosse e benzedeiras que sopravam palavras sobre as feridas. Os médicos, quando apareciam, eram figuras de respeito. Suas visitas eram caras, e o preço dependia da distância, de 15 a 20 mil réis por atendimento, segundo Zanardo. Conclusão Dona Margarida Macota não foi apenas uma parteira; ela foi uma das construtoras da comunidade de Iracemápolis. Cada vida que ela ajudou a trazer ao mundo contribuiu para o crescimento e desenvolvimento da cidade. Seu legado transcende estatísticas e números, está presente no calor humano, na solidariedade e na memória afetiva de gerações de iracemapolenses. Ao relembrarmos sua história, prestamos uma homenagem não só a ela, mas a todas as parteiras que, com suas mãos sábias e

Quando Santa Gertrudes parava para ver o Santa Gertrudes F.C. jogar

Tá no Arquivo Com informações do historiador esportivo José Antonio Milani, o Gancho Poucos sabem, mas Santa Gertrudes já teve um time de futebol que fazia a cidade parar. O Santa Gertrudes F.C. não era apenas um clube,  era o coração pulsante de uma comunidade que crescia ao redor da estação ferroviária, no que então se chamava Distrito da Paz de Santa Gertrudes. O nascimento de uma paixão Segundo relata o historiador esportivo José Antonio Milani, conhecido carinhosamente como “o Gancho”, tudo começou na década de 1930. Um grupo de moradores apaixonados pelo futebol, liderados por Santo Negro, resolveu montar uma equipe. O campo foi construído entre a estação ferroviária e a estrada velha, hoje conhecida como Rodovia Constante Peruchi. “Era um vilarejo crescendo ao redor da estação”, conta Gancho. “E o futebol chegou junto com o desenvolvimento da região.” 1934: O retrato de uma era dourada A fotografia de 1º de janeiro de 1934 é um dos documentos mais preciosos da história esportiva local. Nela, vemos os jogadores do Santa Gertrudes F.C. com suas camisas listradas, sérios e orgulhosos. Entre os atletas daquela época memorável estavam Alfredo Carandina, Claro Miranda, Armando Carandina, Zé Neves, Tufi, Henrique Heques, Joane Sella, Paulino Vaspinto, Sidiney Toppa, Bastião Férias, Luizinho Grall, Henrique Pagnocca e Nenê Pagnocca. Gancho teve acesso a esse material histórico graças à generosidade de três ex-craques: Alfredo Carandina, Antonio Vitte e Edi Valdanha, que abriram seus lares e mostraram acervos de fotos que preservam aqueles tempos. A rivalidade que incendiava a cidade O grande rival era o E.C. Flamengo. Os jogos entre os dois times paralisavam Santa Gertrudes. O Clube do Inaugu, como também era conhecido o adversário, foi inaugurado em 1934 e manteve suas atividades até 1955. No elenco do Santa Gertrudes, além dos já citados, brilhavam nomes como Santim Giacomine, Ciro Rocha, Michel Lemos, Antonio Filler, Luiz Paraluppa, Antonio Doimo, Fernando Beraldo e Alcides Soave, que comandava o time como técnico. O Bicampeonato que entrou para a história O auge veio em 1952 e 1953, quando o Santa Gertrudes conquistou o bicampeonato Varzeano. A conquista marcou época e encheu de orgulho toda a comunidade. Um dos jogos mais lembrados foi a vitória sobre a Vila Maria de São Paulo. Gancho guarda uma história curiosa sobre a final de 1953: “O Edi não participou do antipenúltimo jogo porque cortou o dedo. Como já eram considerados bi-campeões, foram jogar apenas para cumprir tabela. No lugar dele, veio o Luiz Portugues, do Palmeiras.” O estádio de telhas e outras curiosidades Onde hoje funciona o Auto Posto Santa Gertrudes, ficava o campo do time. Uma peculiaridade chamava atenção: o muro era feito de telhas cedidas pelos ceramistas da região. “Tinha um risco considerável”, relembra Gancho com bom humor. “Se saísse alguma briga, era ‘telhadaço’ por todos os lados.” O time tinha suas madrinhas, que se vestiam de branco e levavam flores para os craques quando saíam vitoriosos. As taças de campeonatos eram doadas, sendo as mais marcantes as oferecidas por Maximiliano Martins e pela Panificadora Paulista. Francesco e o milagre da virada Uma das histórias mais incríveis narradas por Gancho envolve o jogador Francesco, que havia treinado no Velo Clube e no Ypê Palmeiras antes de chegar ao Santa Gertrudes. Em uma partida contra o Ferraz, considerado o pior time do campeonato, o Santa Gertrudes perdia de 3 a 0 no primeiro tempo. Francesco entrou para guardar a meta no segundo tempo, mesmo com o dedo da mão quebrado. O resultado? Vitória de 4 a 3 na virada, em um jogo que entrou para o folclore local. O contrato mais inusitado do futebol santagertrudense O historiador Gancho registra um caso peculiar envolvendo o jogador Edi. Seu primeiro contrato foi fechado em troca de uma égua chamada Libuna, propriedade de Atilio Pascon. “Edi queria comprá-la para fazer trabalhos extras, além de usar nas horas de folga da Central Elétrica”, explica Gancho. O time pagava 200 mil réis na época e a água custava 150 mil réis. “Fui contratado por uma égua”, dizia Edi com orgulho dessa história inusitada. A união que derrubaria cadeias Uma passagem que demonstra a força da união entre jogadores e torcedores aconteceu em Corumbataí. O Getulinho foi preso após um jogo, e a torcida  que havia acompanhado o time em um ônibus e cinco caminhões, não aceitou. Foram até a cadeia exigir sua soltura com um ultimato: “Ou o soltavam ou derrubavam tudo.” A pressão funcionou, e Getulinho foi liberado. Para Gancho, esse episódio simboliza perfeitamente o espírito daquele tempo. Antonio Rosa: O mestre Impossível falar da história do futebol em Santa Gertrudes sem mencionar Antonio Rosa. Vindo de Minas Gerais, ele residiu na Cerâmica Retiro entre 1945 e 1950. Calmo, educado e gentil, Rosa foi treinador do Santa Gertrudes F.C. e formou uma legião de amigos na cidade. “Sabia como cativar os craques da época: Jaques, Edy, Cocão, Jacozinho, Baninho, entre outros tantos”, recorda Gancho. “Com ele, nossa cidade viveu uma das suas melhores épocas em termos de futebol, bom futebol mesmo.” O historiador enfatiza: “Antonio Rosa, já falecido, merece ser um nome que a cidade guardou.” As pioneiras do futebol feminino Décadas antes do futebol feminino se popularizar no Brasil, Santa Gertrudes já tinha algo revolucionário: uma torcida uniformizada feminina. Na década de 1950, mulheres como Cacilda Bononi, Nair Sabione, Alice Taioque, Ceci Richa, Nilva Giacomini, Efigênia Rosa, Marina Lenci, Iolanda Silva e Cida Lenci quebravam barreiras. “A participação das mulheres nas atividades consideradas masculinas já era o início de sua emancipação”, analisa Gancho, destacando o pioneirismo dessas mulheres que desafiaram os padrões da época. Os craques que fizeram história Entre os nomes que brilharam nos campos de Santa Gertrudes, Gancho destaca: Jacques Ribeirão, Edi Valdanha, Eduardo Martins, Mário dos Santos, Rovail Doimo, Alfredo Carandina, Pedrinho Pascon, Toninho Vitte, Dega, Nelson Pascon, Antonio (Tolé) Giovani, Chico Buoro, Orlando Giovani, Augusto Buoro, Alcides (do Conde), Armando Carandina e Marino (do Conde). De outras regiões vieram reforços de peso: Reginato, Valdomar, Jordão, Gernignani, Milton Jorge, Joãozinho, Daniel, Berá,

Os imigrantes que construíram Iracemápolis: italianos, alemães e portugueses

A história de Iracemápolis não começa em Iracemápolis. Ela começa na Itália, em Portugal, na Alemanha e na Suíça. Imagine deixar tudo para trás. Sua casa, sua língua, seus mortos enterrados na terra dos seus antepassados. Agora imagine fazer isso em 1850, embarcando em um navio superlotado, dormindo em camas-treliche na terceira classe, sem saber se chegaria vivo do outro lado do oceano. Era isso que os imigrantes enfrentavam quando partiam para o Brasil. E muitos deles, centenas, milhares  escolheram as terras que hoje conhecemos como Iracemápolis para recomeçar a vida. A viagem que mudou tudo Sessenta dias. Às vezes setenta e cinco. Era o tempo que um navio a vela levava para cruzar o Atlântico entre a Europa e o Porto de Santos. Depois, com a invenção do navio a vapor, o trajeto caiu para trinta dias, mas isso não tornava a viagem menos brutal. Na terceira classe, famílias inteiras se apertavam em beliches apertados. A comida era escassa. A cólera atacava sem avisar. Quando alguém morria; e muitos morriam, o corpo era simplesmente atirado ao mar. Por que alguém se sujeitaria a isso? A resposta é simples: fome. A crise econômica de 1846 devastou a Europa. Não havia trabalho. Os salários despencaram. Famílias inteiras passavam necessidade. O Brasil, com suas terras férteis e promessas de trabalho, parecia a salvação. Os portugueses: Os primeiros a chegar Década de 1840. Antes mesmo dos italianos e alemães, foram os portugueses que começaram a chegar à região do Morro Azul. Vinham sob o comando do Senador Vergueiro, um visionário que acreditava nas vantagens de substituir o trabalho escravo pelo trabalho livre. Não era mais escravidão, mas também não era liberdade plena, era um sistema de parceria, onde os imigrantes trabalhavam sob controle rígido. Alguns conseguiram prosperar. Com economia e trabalho duro, juntavam até 700 mil réis, uma fortuna para a época. Com esse dinheiro, compravam suas próprias terras. Sobrenomes que chegaram nessa época e fincaram raízes: Ferreira das Neves, Ferreira dos Santos, Pinto Ribeiro, Mesquita, Fonseca, Cunha, Silva, Vieira, Gomes, Nunes, Rodrigues, Carvalho Mendonça, Queiroz, Pereira, Lopes. Se você tem um desses sobrenomes, suas raízes em Iracemápolis são profundas. Alemães e Suíços: A disciplina que veio dos Alpes Entre 1852 e 1872, uma nova leva de imigrantes começou a chegar: alemães e suíços. Eles se espalharam pelas fazendas Ibicaba, Angélica, Santa Gertrudes, São Jerônimo, Morro Azul e Tatu. Trouxeram consigo não apenas força de trabalho, mas algo mais valioso: conhecimento técnico, disciplina e métodos agrícolas avançados. Sobrenomes que moldaram a região: Bush, Kloss, Scherrer, Blumer, Schneider, Levy, Roland, Hartung, Killer, Sass, Meyer, Küll, Müller, Wenzel, Asbahr, Dibbern, Hardt. Foram eles que introduziram técnicas de plantio mais eficientes e ajudaram a modernizar a produção agrícola da região. Muitos prosperaram e se tornaram proprietários de terras. Os italianos: A maior onda migratória Mas foi entre 1887 e 1897 que a grande transformação aconteceu. Nesse período, cerca de 790 mil italianos desembarcaram no Brasil. E uma parte significativa deles escolheu o interior de São Paulo, incluindo as terras que se tornariam Iracemápolis. Eles vinham do norte da Itália, principalmente do Vêneto. Fugiam da miséria, da falta de perspectiva, da fome. Aqui, encontraram sol escaldante, terra vermelha e trabalho de sol a sol nas fazendas de café e cana-de-açúcar. Mas encontraram também algo que não tinham na Itália: oportunidade. O legado italiano que vive até hoje Olhe ao seu redor em Iracemápolis. Quantos sobrenomes italianos você reconhece? A lista é extensa: Batiston, Buzolin, Bottion, Bertanha, Batistela, Bonin, Boscheiro, Bortolan, Brugnaro, Cavinatto, Chinellato, De Gaspari, Demarchi, Ducatti, Ferrari, Furlan, Gazetta, Giacon, Giusti, Guarino, Lucato, Magaldi, Marrafon, Massari, Olivatto, Olivieri, Ometto, Paggiaro, Parronchi, Pazelli, Pecin, Picinini, Pilon, Pincelli, Polatto, Pompéo, Prada, Zambuzi, Zaros. São nomes que viraram ruas, escolas, comércios. São famílias que construíram a cidade tijolo por tijolo. A comida que nos une Os imigrantes trouxeram algo mais precioso que ouro: suas receitas. Aos poucos, a culinária europeia se misturou aos costumes brasileiros de subsistência, arroz, feijão, mandioca, milho. Embora muitos italianos rejeitassem o feijão no início, acabaram se adaptando. Receitas que atravessaram o oceano Rabanadas: Fatias de pão amanhecido banhadas em mistura de ovos batidos, leite, vinho e açúcar, fritas e polvilhadas com canela e noz-moscada. Até hoje um clássico das festas de fim de ano. Crüstles: Frituras com massa de pastel, crocantes, polvilhadas com canela e açúcar. Pura nostalgia em forma de doce. Macrum: Bolinhos de massa de trigo com gergelim e erva-doce, servidos em calda grossa de água de flor-de-laranjeira. Uma receita que poucos ainda sabem fazer. Pão-de-ló gigante: Alguns chegavam a pesar 600 gramas! Feitos em formas grandes, eram o orgulho das festas. Polenta: Ah, a polenta! Com frango, com linguiça, com molho… Até hoje é sinônimo de família reunida à mesa. Polenta com serralha: Esta era mais rústica, a serralha era colhida nas plantações de café. Uma receita de quem sabia tirar alimento até do mato. E os embutidos? Linguiças, salames, mortadelas caseiras. Cada família tinha sua receita secreta, passada de geração em geração. O jogo que veio na bagagem Os italianos trouxeram também o jogo de bocha. No início do século XX, já havia campos rústicos em Iracemápolis, um no próprio povoado e outro no Bairro do Marrafon. Não tinham os requintes da cidade grande, mas cumpriam seu papel: reunir os homens aos domingos para jogar, conversar e matar a saudade da terra natal. De imigrantes a construtores de uma cidade Muitos dos que chegaram não passaram de trabalhadores rurais a vida toda. Mas outros — através de muito trabalho, economia e determinação, saíram da roça e se tornaram comerciantes, fazendeiros, industriais. A família Ometto é o exemplo mais emblemático. Chegaram em 1918, ano de forte geada que destruiu cafezais inteiros. Compraram a Fazenda Aparecida (antiga Fazenda Angélica) e, em 1932, fundaram a Usina Boa Vista. Quatro anos depois, criaram a Usina Iracema. Geraram empregos. Trouxeram energia elétrica. Ajudaram a pavimentar ruas. Construíram ambulatórios. Financiaram festas. Tornaram-se parte indissociável da história da cidade. Mas eles não foram os únicos. Dezenas

Estação Manoel Leme: História de um marco fundador

Inaugurada em 30 de setembro de 1877, a Estação “Manoel Leme” representa muito mais do que um simples ponto ferroviário na história de Leme. Nascida dentro da antiga Fazenda Palmeiras, propriedade da família Leme, a estação tornou-se o marco zero da cidade, testemunhando sua formação e transformação ao longo de mais de um século. Os primeiros anos O primeiro prédio da estação foi construído em madeira, mas logo se mostrou insuficiente para as necessidades crescentes da região. Em 1891, uma nova estrutura de alvenaria foi erguida, conferindo maior solidez e permanência ao local. No mesmo ano, foi edificado o armazém de mercadorias, peça fundamental para o escoamento da produção agrícola local. Com a expansão da malha ferroviária, o conjunto foi crescendo organicamente. Surgiram residências para funcionários, incluindo a casa do chefe da estação, criando um verdadeiro núcleo habitacional ao redor dos trilhos. Em 1916, o prédio passou por uma ampla reforma, acompanhando o progresso urbano e tecnológico da época e consolidando sua importância na paisagem da cidade. Centro de desenvolvimento econômico e social Durante boa parte do século XX, a Estação dos Lemes foi um centro pulsante de transporte de passageiros e cargas, conectando Leme a diversas regiões e impulsionando o desenvolvimento econômico local. Mas seu papel transcendeu a função meramente logística, transformando-se em palco da vida social e cultural da cidade. Foi por esta estação que chegaram artistas brasileiros e estrangeiros convidados pela lemense Yolanda Penteado para as lendárias festas na Fazenda Empyreo, um dos grandes polos culturais do interior paulista. Em uma dessas ocasiões memoráveis, os convidados embarcavam na Estação da Luz, em São Paulo, em vagões climatizados com champanhe e uísque servidos à vontade. Após quase 200 km de viagem, desembarcavam em Leme e seguiam em ônibus-jardineiras até a Casa Grande da fazenda. Entre os visitantes ilustres que passaram pela estação estavam Ronald Reagan, então ator, e o astro Errol Flynn, cuja chegada causou verdadeiro alvoroço e até desmaios entre os presentes. Nos anos 1960, o cantor e apresentador Rony Von, ícone da Jovem Guarda, também passou por ali, segundo lembranças locais. O declínio e a transformação Com a crise do sistema ferroviário na década de 1970, o último trem de passageiros partiu em 1977, exatos cem anos após a inauguração da estação. O transporte de cargas resistiu por mais alguns anos, mas foi encerrado definitivamente nos anos 1990, marcando o fim de uma era. No entanto, a memória da estação não se perdeu. Ao contrário, ganhou novo sentido através de um projeto de revitalização que transformou aquele espaço histórico em patrimônio vivo da cidade, preservando sua arquitetura e sua importância simbólica para as futuras gerações. Hoje, o antigo prédio da estação e seu armazém de mercadorias abrigam a Estação Cultural, um vibrante centro de exposições, eventos e atividades culturais. O local reúne o Museu Histórico de Leme, o Arquivo Histórico, a Casa dos Artesãos e o Centro de Atendimento ao Turista, consolidando-se como um dos principais pontos de referência cultural da cidade. A antiga estação continua cumprindo seu papel de conexão, não mais através dos trilhos, mas aproximando a comunidade de sua história, cultura e identidade. Segundo a historiadora Cibele Arle, chefe de Núcleo de Patrimônio Histórico da cidade de Leme, a preservação e revitalização da Estação Manoel Leme representa um compromisso fundamental com a memória coletiva. O trabalho desenvolvido no espaço busca não apenas guardar o passado, mas torná-lo vivo e acessível às novas gerações, reafirmando a importância do patrimônio histórico como elemento formador da identidade lemense.

Quando o céu de Cordeirópolis brilhava com a força das fábricas de fogos

Se hoje os fogos de artifício são lembrados apenas nas grandes festas, houve um tempo em que eles faziam parte da rotina de Cordeirópolis Imagine uma noite qualquer nos anos 1920. Não é véspera de ano novo. Não é dia de festa junina. É apenas uma terça-feira comum. Mas de repente, o céu escuro se ilumina com um estouro colorido que faz as crianças correrem para a rua. Pum! Vermelho. Pum! Verde. Pum! Dourado. Não era show pirotécnico importado. Não era evento especial. Era apenas mais um dia na vida de quem vivia numa cidade que produzia seus próprios fogos de artifício. Entre 1918 e os anos 1940, Cordeirópolis teve quatro fábricas de fogos funcionando ao mesmo tempo. Quatro! Em uma cidade pequena do interior paulista, isso significava que o cheiro de pólvora, o barulho de rojões sendo testados e o brilho repentino no céu faziam parte do cotidiano. Esta é a história de quando o céu de Cordeirópolis brilhava todas as noites. Quatro fábricas, uma cidade em chamas 1918. O Brasil ainda se recuperava da primeira Guerra Mundial. A gripe espanhola aterrorizava o país. Mas em Cordeirópolis, uma nova indústria começava a surgir: a produção artesanal de fogos de artifício. Aos poucos, quatro fábricas se espalharam estrategicamente pela cidade: Fábrica 1: proximidades da atual Escola Jamil Abrahão Saad Localizada na Vila Santo Antônio, essa seria uma das maiores e também uma das mais lembradas, por um motivo trágico que veremos adiante. Fábrica 2: Rua José Moreira Onde hoje funciona uma clínica veterinária, outrora havia barracões onde se manipulava pólvora e se enrolavam estopins. Fábrica 3: Rua Guilherme Krauter Em frente ao prédio da Telefônica, esta fábrica era uma das mais centrais, o que significava que explosões  acidentais ou intencionais eram ouvidas por toda a cidade. Fábrica 4: Futuro prédio da Ramenzoni A última das quatro grandes, essa fábrica operou até meados dos anos 1940, sendo uma das últimas a fechar. Quatro fábricas. Dezenas de trabalhadores. Milhares de foguetes, rojões, bombas e traques Cordeirópolis não era apenas uma cidade que usava fogos, era uma cidade que vivia de fogos.  Um ofício arriscado Trabalhar com pólvora nunca foi para os fracos de coração Imagine entrar todos os dias em um barracão de madeira onde toneladas de material inflamável estão armazenadas. Onde um único descuido, uma faísca, um atrito, um estopim mal cortado  pode transformar tudo em chamas. Era assim o dia a dia nas fábricas de fogos de Cordeirópolis. Os trabalhadores na maioria homens, mas também algumas mulheres corajosas passavam horas: Não havia equipamento de segurança moderno. Não havia extintores automáticos. Não havia seguro de vida robusto. Havia apenas a perícia passada de pai para filho, a coragem de quem precisava do trabalho e a fé de que, naquele dia, nada daria errado. Mas nem sempre dava certo. O dia em que a fábrica virou inferno Um dos episódios mais lembrados pelos mais velhos é o incêndio que destruiu a fábrica próxima à Escola Jamil. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu. Uma faísca? Um estopim que queimou rápido demais? Um descuido? O fato é que, em questão de minutos, o barracão estava em chamas. E quando uma fábrica de fogos pega fogo, não é um incêndio comum. É um espetáculo no pior sentido da palavra. Explosões em cadeia. Rojões subindo em todas as direções. Bombas explodindo no chão. Estopins acesos correndo como cobras de fogo pelo terreno. As pessoas corriam. Algumas para ajudar. Outras para se proteger. Muitas apenas para ver, porque, por mais terrível que fosse, era impossível desviar os olhos. Felizmente, segundo os relatos, não houve mortes. Mas a fábrica foi completamente destruída. E com ela, parte da produção que sustentava famílias inteiras. Outros incêndios menores aconteceram ao longo dos anos. Fazia parte do risco. Fazia parte da profissão. E ainda assim, enquanto havia demanda, as fábricas continuavam operando. O encanto das festas Mas por que alguém arriscaria tanto? A resposta estava no céu. Toda vez que uma festa religiosa se aproximava, e em Cordeirópolis e na região; elas eram muitas , as fábricas trabalhavam em ritmo acelerado. Festa de Santo Antônio (o padroeiro da cidade) era a mais esperada. Durante dias, os preparativos envolviam: E quando a noite da festa chegava… O céu de Cordeirópolis se transformava. Vermelho, verde, dourado, prateado. Explosões que faziam o chão tremer. Luzes que refletiam nos rostos maravilhados das crianças. Não era apenas um show. Era devoção. Era comunidade. Era a cidade inteira celebrando junta. Para os moradores, o estalar dos rojões e o colorido no céu eram sinal de que a vida estava em ordem. De que, apesar das dificuldades, ainda havia motivo para celebrar. Memórias de quem Viu Quem viveu aquela época guarda memórias vívidas. Em 2008, quando foi realizada a reportagem no Jornal Expresso, os depoimentos eram: “Eu era menina, mas lembro do barulho. Todo dia tinha teste de foguete. A gente já sabia: ‘Lá vem bomba!’ E corria pra ver subir. Era bonito demais.” Outros moravam próximos ou teve parentes que trabalharam nas fábricas: “Na festa de Santo Antônio, a gente não dormia. Ficava na janela vendo os fogos. Parecia que o céu inteiro estava pegando fogo. Era lindo e assustador ao mesmo tempo.”  O fim de uma era Como todas as coisas, as fábricas de fogos de Cordeirópolis tiveram seu fim. Os motivos foram vários: 1. Acidentes frequentes Incêndios e explosões tornavam a atividade cada vez mais arriscada  e cara. 2. Modernização das leis de segurança Com o tempo, o Estado começou a regulamentar a produção de fogos. As exigências aumentaram. As pequenas fábricas artesanais não conseguiam se adequar. 3. Concorrência de grandes indústrias Fábricas maiores, de outras regiões, começaram a dominar o mercado. Produziam em escala, com mais segurança e preços competitivos. 4. Mudança cultural As festas religiosas continuaram, mas o uso massivo de fogos começou a diminuir. A tradição foi se perdendo. Até meados dos anos 1940, a produção havia desaparecido completamente de Cordeirópolis. Os barracões foram demolidos ou reaproveitados. O cheiro de pólvora sumiu

Bate-Pau: A origem polêmica do nome de Iracemápolis

Você sabia que Iracemápolis já foi chamada de “Bate-Pau”? E não, não tem nada a ver com briga. Por décadas, gerações de iracemapolenses cresceram ouvindo histórias sobre o apelido da cidade. “Aqui era o Bate-Pau”, diziam os mais velhos com um sorriso no rosto. “O pessoal brigava muito”, brincavam outros. Mas a verdade por trás desse nome é bem diferente  e muito mais emocionante  do que a lenda urbana sugere. A dança que deu nome a uma cidade Final do século XIX. Nas encostas do Morro Azul, um pequeno povoado começava a se formar. Santa Cruz da Boa Vista mal tinha duzentos habitantes, mas já carregava em seu DNA algo que a tornaria única: a memória viva da escravidão e da liberdade. Ali, onde hoje existem ruas asfaltadas e casas de alvenaria, negros recém-libertados se reuniam para manter viva uma tradição que vinha das senzalas. Era a dança do Bate-Pau um ritual poderoso onde homens e mulheres dramatizavam, ao som de estacas de madeira se entrecruzando no ar, as cenas de sofrimento que haviam vivido. Tac, tac, tac. O som das madeiras ecoava pelas noites. Não era apenas uma dança. Era memória transformada em movimento. Era dor virada em arte. Era resistência. O mal-entendido que virou história Com o passar dos anos, novos moradores chegaram  italianos, alemães, portugueses. Muitos não conheciam a origem da dança. Viam os paus se cruzando no ar e pensavam: “Deve ser por causa das brigas”. Nos anos 40 e 50, quando Iracemápolis lutava pela emancipação política e os ânimos esquentavam com Limeira, o apelido ganhou ainda mais força. As partidas de futebol no velho estádio (que existiu até os anos 60) eram marcadas por rivalidades acaloradas. “Lá vem o pessoal do Bate-Pau!”, provocavam os limeirenses. Mas a verdade? Santa Cruz da Boa Vista era um lugarejo tranquilo, de poucas casas e povo pacato. O nome nunca teve relação com violência. Você sabia? A dança do Bate-Pau ainda existe! Ela é conhecida hoje como Maculelê  uma manifestação cultural afro-brasileira que mantém viva a memória dos ancestrais. Os movimentos e o ritmo continuam os mesmos: bastões de madeira se cruzando no ar, simulando lutas e trabalhos forçados, transformando sofrimento em beleza. Quando Iracema virou Iracemápolis Em 1923, o governador Washington Luís elevou o pequeno povoado à categoria de Distrito de Paz. Era hora de um nome oficial, digno. A escolha foi uma homenagem ao Coronel José Levy, proprietário da Fazenda Iracema, em cujas terras nascera a vila. Mas havia poesia na decisão: Nascia Iracemápolis, a cidade Lábios de Mel. O detalhe que ninguém conta Aqui vai uma curiosidade que poucos sabem: tecnicamente, quem nasce em Iracemápolis deveria ser chamado de iracemapolitano, não iracemapolense. Por quê? Porque quando uma palavra termina em “polis” (como Florianópolis, Cosmópolis, Nápolis), o gentílico correto é “politano”: florianopolitano, cosmopolitano, napolitano. Mas não se preocupe, o uso popular consagrou “iracemapolense”, e é assim que nos chamamos com orgulho! Para refletir Quantas histórias da sua cidade você acha que conhece? E quantas, como a do Bate-Pau, foram mal interpretadas ao longo do tempo? A história de Iracemápolis nos lembra que nomes carregam memórias — e que vale a pena desenterrar essas memórias antes que se percam completamente. Das senzalas às ruas Hoje, quando você caminha pelas ruas de Iracemápolis, está pisando em terra sagrada. Ali, nas encostas do Morro Azul, nas margens do Ribeirão Cachoeirinha, homens e mulheres que conheceram a escravidão foram os primeiros a sonhar com liberdade. Eles não tinham muito. Não tinham ruas asfaltadas, luz elétrica ou água encanada. Mas tinham algo poderoso: a memória de quem eram e de onde vieram. E guardavam essa memória do único jeito que sabiam: dançando, batendo madeiras no ar, contando suas histórias. O Bate-Pau não era sobre briga. Era sobre resistência. Era sobre não esquecer.  Fontes históricas Este artigo foi baseado no livro “Iracemápolis: Fatos e Retratos” (2008), do professor José Zanardo, que dedicou três anos de pesquisa para resgatar a memória da cidade. A obra é considerada o registro mais completo sobre as origens de Iracemápolis. E você, q que sabe sobre suas raízes? Sua família tem histórias dos tempos antigos de Iracemápolis? Alguém da sua casa conheceu os pioneiros do Bate-Pau? Ou tem memórias das rivalidades com Limeira nos campos de futebol? Compartilhe nos comentários! A história de uma cidade é feita de histórias de pessoas  e cada relato conta. Próximo artigo da série: “Os Imigrantes que Construíram Iracemápolis: Italianos, Alemães e Portugueses”  Descubra como famílias vindas da Europa transformaram um povoado de duzentas almas na cidade que conhecemos hoje. Tá No Arquivo – Desenterrando histórias que merecem ser contadas.