Quando o Futsal venceu o Cinema: A história emocionante do Bossa Nova em Santa Gertrudes

Havia um tempo em Santa Gertrudes em que as noites pertenciam ao cinema. As pessoas se reuniam nas sessões, comentavam os filmes, criavam seus rituais. Mas em 1960, algo mudou para sempre o ritmo da cidade. E não foi uma revolução barulhenta , foi uma quadra de futsal sendo erguida tijolo por tijolo, com as mãos calejadas de quem acreditava que o esporte podia unir mais do que qualquer telona.

O Dinda e o sonho de uma quadra

Tudo começou com o Dinda, o introdutor do futebol de salão em Santa Gertrudes. Não era um homem rico, não tinha grandes recursos. Mas tinha visão. Em 1960, na rua 04, esquina com a avenida 03, começou a ser construída uma quadra que mudaria a história do esporte na cidade.

O terreno foi doado pela família Buschinelli,  gente simples que entendia o valor de um espaço para a juventude se encontrar. Os tijolos vieram das mãos generosas da família Pascon. E quando a noite caía e era preciso iluminar aquele sonho em construção, lá estava o sr. Armando Craveiro D’Almeida, garantindo que a luz não faltasse.

A quadra passou a se chamar quadra do UCA – Unidos Clube Atlético. Hoje, quem passa por ali vê apenas uma casa. Mas as paredes ainda guardam a memória dos gritos de “gol”, das disputas acirradas, do suor que molhou aquele chão de cimento.

A guerra entre o cinema e a bola

Na época, houve um conflito que parecia bobo, mas revelava algo muito humano: a resistência à mudança. O cinema local estava acostumado com suas sessões lotadas, com o ritual sagrado das noites de filme. De repente, aparecia ali uma quadra, com jogos realizados à noite, roubando a atenção  e a população.

As pessoas deixaram de frequentar o cinema. Preferiam o calor da torcida, a imprevisibilidade da bola quicando, a emoção de torcer pelos vizinhos, pelos amigos, pelos filhos. O cinema reclamou. Houve debates. Tensão no ar.

Cinema Recreio

Mas sabe como é: quando o povo escolhe, não há argumento que convença. E o povo de Santa Gertrudes escolheu o futsal.

Logo se chegou a um consenso sensato e tipicamente brasileiro: os jogos passaram a ser realizados nos dias em que não havia sessão no cinema. Problema resolvido. Cinema e esporte aprenderam a dividir o mesmo céu estrelado de Santa Gertrudes.

O E.C. Bossa Nova: muito mais que um nome

Este fato foi relatado por uma pessoa da época, alguém que viveu aqueles dias, sentiu aquela emoção, viu a cidade se transformar. O time da foto é de 1960, montado pelo italiano Italo Pagni, e se chamava E.C. Bossa Nova.

Que nome! Bossa Nova. A mesma época em que o Brasil inteiro se rendia aos acordes de João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Santa Gertrudes tinha seu próprio Bossa Nova, não de violão e voz suave, mas de chuteiras, suor e garra.

Os craques que fizeram história

Olhamos para aquela foto de 1960 e vejo mais do que jogadores. Vejo histórias. Da esquerda para a direita, em pé:

Faisca – que nome para um atacante! Devia ser rápido como um raio.

Chicão Miranda – sobrenome conhecido em Santa Gertrudes, família de raiz.

Duca Tonon – o “Duca”, apelido carinhoso que só quem é querido na cidade ganha.

Italo Pagni – o italiano que montou o time, o visionário que transformou sonho em realidade.

Zezão Scatolin – o grandalhão, certamente era o “paredão” da defesa.

Agachados, mais próximos do chão, mais próximos da humildade que caracterizava aqueles homens:

Eca dos Santos – nome popular, gente simples, coração gigante.

Adilson Valvassori – sobrenome que ainda ecoa pelas ruas da cidade.

Lelo Seneme – cada nome desses carrega uma família, uma história, um legado.

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O que aquela quadra qepresentava

Não era só um lugar para jogar bola. Era onde os jovens se encontravam depois do trabalho na cerâmica. Era onde os pais levavam os filhos para ensinar que se ganha com humildade e se perde com dignidade. Era onde namoros começavam, nas arquibancadas improvisadas, com a desculpa de “vim torcer pelo meu time”.

A iluminação do sr. Armando não apenas clareava a quadra,  iluminava vidas. Os tijolos da família Pascon não apenas sustentavam paredes – sustentavam sonhos. O terreno dos Buschinelli não era apenas um pedaço de chão, era um pedaço de futuro sendo plantado.

Local onde era a quadra. Hoje casa paroquial
Hoje é a casa paroquial

Quando o esporte une mais que separa

Aquele conflito inicial entre cinema e futsal nos ensina algo bonito: às vezes precisamos criar espaços para que coisas diferentes coexistam. O cinema não morreu. O futsal não foi proibido. Ambos encontraram seu lugar.

E Santa Gertrudes cresceu com isso. Aprendeu que a cidade é grande o bastante para comportar diferentes paixões, diferentes formas de se reunir, diferentes jeitos de ser feliz.

O legado que permanece

Hoje, quando vemos meninos e meninas jogando futsal em Santa Gertrudes, pensemos no Dinda. Pensemos no Italo Pagni reunindo aqueles homens. Pensemos nas famílias que doaram tijolo, terreno e luz para que um sonho se concretizasse.

A quadra do UCA não existe mais fisicamente. Virou casa, virou passado. Mas o espírito daquela época permanece cada vez que uma bola quica em qualquer quadra da cidade.

O E.C. Bossa Nova pode ter ficado apenas na fotografia amarelada de 1960. Mas a bossa, a habilidade, o jeitinho, a arte de jogar bonito,  essa continuou. Passou de geração em geração, de pai para filho, de avô para neto.

Uma homenagem necessária

Esta história precisa ser contada. Precisa ser lembrada. Porque quando esquecemos de onde viemos, perdemos a noção de para onde vamos.

O Dinda trouxe o futsal. As famílias Buschinelli, Pascon e o sr. Armando Craveiro D’Almeida deram as condições. O Italo Pagni montou o time. Os jogadores deram o sangue em quadra. E a população deu o mais importante: o apoio, a presença, o amor incondicional.

Ao Faisca, ao Chicão Miranda, ao Duca Tonon, ao Zezão Scatolin, ao Eca dos Santos, ao Adilson Valvassori, ao Lelo Seneme, onde quer que estejam hoje, a família gertrudense agradece dizendo: muito obrigado. Vocês não apenas jogaram futsal. Vocês construíram memória.

E à cidade de Santa Gertrudes, que soube escolher o esporte sem abandonar o cinema, que soube crescer sem perder a essência, que soube valorizar os homens simples que fazem história sem aparecer nos holofotes.

Nota final

Enquanto escrevemos estas linhas, vamos imaginar aquela quadra iluminada em 1960. Imagina o barulho da bola batendo no chão de cimento, os gritos da torcida, o apito do juiz. Imagina o cheiro de suor misturado com a brisa da noite. Imagina a felicidade estampada no rosto daqueles homens.

E com certeza você sorriu.

Porque essa história, a história gertrudense do futsal, merece ser contada. Merece ser guardada. Merece ser passada adiante.

Santa Gertrudes, terra de gente boa, de esporte verdadeiro, de histórias que merecem ser lembradas.

José Milani, o Gancho
Historiador esportivo e gertrudense nato
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