Imagine um lugar onde palhaços não fazem rir, mas perseguem; onde monstros são estrelas; e onde uma linguiça embebida em cerveja pode pousar nos seus lábios quando você menos espera. Não, você não está em um pesadelo surrealista você está no Carnaval de Máscaras da Fazenda Cresciumal, da cidade de Leme-SP; uma celebração centenária que transforma o interior paulista em um palco de mistérios, criatividade e tradição pura.
Quando imigrantes trouxeram mais Que Café
No início do século XX, imigrantes italianos e alemães desembarcaram na região de Leme carregando enxadas, esperanças e algo ainda mais precioso: uma bagagem cultural repleta de mitos, alegorias e celebrações que atravessariam o Atlântico para fincar raízes em solo brasileiro. A Fazenda Cresciumal, fundada no século XIX pelo Barão de Souza Queiroz, tornou-se o lar desses trabalhadores, que ali plantaram muito mais que café plantaram memórias que floresceriam por gerações.
Há pelo menos um século, segundo estimativas da historiadora Cibele Arle, Chefe de Núcleo de Patrimônio Histórico de Leme, esse carnaval rural acontece de forma quase ininterrupta, passando de avós para pais, de pais para filhos, numa corrente viva de quatro gerações. Mas o que torna essa festa verdadeiramente especial não são apenas os anos acumulados é o segredo que pulsa no coração de cada fantasia.
O mistério guardado a sete chaves
Aqui, as máscaras não são apenas acessórios. São obras de arte clandestinas, confeccionadas em sigilo absoluto. Nem maridos sabiam o que as esposas criavam. Nem irmãos espiavam o trabalho uns dos outros. Cada folião guardava seu personagem como um tesouro, revelando-o apenas no grande dia. Era e ainda é a magia do desconhecido que alimenta a expectativa: quem será o monstro por trás daquela máscara assustadora? Que vizinho se esconde sob aquele traje de palhaço?
Com o tempo, a festa ganhou identidade própria, distanciando-se das raízes europeias. As fantasias evoluíram, incorporando a criatividade brasileira e transformando o carnaval em um espetáculo coreográfico único, protagonizado por monstros que dançam com realismo impressionante e palhaços que espalham o caos.
A arte da reciclagem surrealista
Na confecção das máscaras, nada era desperdiçado. Roupas velhas, chapéus esquecidos, cascas de árvore, folhas de bananeira, palhas e cordas desfiadas tudo o que a fazenda oferecia virava matéria-prima para a imaginação. Hoje, algumas fantasias modernas recorrem à fibra de vidro para maior durabilidade, mas o espírito de reaproveitamento permanece intacto. É sustentabilidade antes mesmo de a palavra virar moda.
Monstros e palhaços: uma inversão de papéis
No Carnaval da Cresciumal, os papéis se invertem de forma curiosa:
Os monstros são as estrelas criaturas impressionantes que desfilam e dançam, arrancando aplausos e admiração. Quanto mais assustador, melhor.
Os palhaços, por outro lado, abandonam a imagem alegre que carregam em outros contextos. Aqui, eles são agentes do caos: perseguem foliões, assustam crianças e adultos, e garantem que ninguém fique parado por muito tempo.
A pancadaria e a linguiça da surpresa
Entre as brincadeiras mais tradicionais está a “pancadaria” o arremesso de bexigas de boi infladas nas costas dos participantes, uma herança direta dos imigrantes. Os bexigueiros saem em perseguição a quem os provoca, transformando a correria em diversão coletiva. É adrenalina pura misturada com gargalhadas.
E então há o “linguiceiro”, personagem que se tornou lenda viva: um palhaço que carrega uma linguiça calabresa embebida em cerveja e, com timing impecável, passa-a nos lábios dos desatentos. A reação? Uma mistura de surpresa, nojo e, inevitavelmente, risos.
O silêncio que quase calou a festa
Em 2006, a tradição quase foi interrompida. Parte da fazenda especificamente a usina de açúcar Cresciumal foi vendida a uma empresa francesa, resultando na demissão de muitos moradores da colônia, incluindo os mestres artesãos das fantasias. O desfile ficou suspenso. A festa, silenciada.
Mas a paixão falou mais alto. Em 2011, como explica Cibele Arle, os foliões decidiram que a tradição não morreria ali. O carnaval voltou a acontecer no pátio da colônia, aberto ao público na terça-feira de Carnaval. No ano seguinte, 2012, a festa conquistou as ruas do centro de Leme e foi oficialmente integrada ao calendário municipal, sendo reconhecida como patrimônio imaterial da cidade.
Uma celebração que atravessa o tempo
Hoje, o Carnaval de Máscaras da Cresciumal continua a encantar moradores e visitantes. Monstros dançam, palhaços assustam, bexigas voam e linguiças embebidas em cerveja surpreendem os incautos. Tudo isso enquanto fantasias feitas com materiais recicláveis provam que criatividade e consciência ecológica podem andar lado a lado.
Mais que uma festa, como ressalta a historiadora Cibele Arle, o Carnaval da Cresciumal é um testemunho vivo de como tradição e imaginação podem atravessar gerações, mantendo viva a identidade de um povo que soube reciclar materiais, ideias e histórias para celebrar a vida.
É a prova de que, às vezes, os melhores segredos são aqueles que, mesmo revelados, continuam a nos surpreender ano após ano.
Pesquisa: Cibele Arle, Historiadora
📍 Leme, São Paulo | Patrimônio Imaterial
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