A pequena Estação que inspirou Villa-Lobos
No interior paulista, entre Araras e Cordeirópolis, existiu uma pequena estação ferroviária que poucos conheceram, mas que desempenhou um papel fundamental na história cultural do Brasil. A Estação Loreto, inaugurada em 1899, foi palco de uma das mais belas inspirações da música brasileira: o “Trenzinho Caipira” de Heitor Villa-Lobos.
Os primeiros anos: Uma Estação discreta
Inaugurada no final do século XIX, a Estação de Loreto não recebeu praticamente nenhuma citação nos relatórios da Companhia Paulista de Estradas de Ferro em seus primeiros anos. Era uma parada modesta, que inicialmente funcionou apenas com seu prédio principal, sem armazém incorporado à estação. Somente entre as décadas de 1910 e 1920 ganhou seu armazém próprio.

Próximo à estação, destacava-se o famoso horto de Loreto, pertencente à Companhia Paulista de Estradas de Ferro, adquirido pela empresa em 1911. Este horto tinha uma função estratégica: era utilizado para o plantio de eucaliptos, cuja madeira servia para a fabricação de dormentes e lenhas para abastecer as locomotivas que circulavam pela região.
Villa-Lobos e a Magia de Loreto
Foi na década de 1920 que Loreto ganhou seu lugar de destaque na história cultural brasileira. O grande maestro e compositor Heitor Villa-Lobos visitava frequentemente a Fazenda Santo Antônio, localizada em Araras, e fazia questão de desembarcar em Loreto durante suas viagens.
Ao adentrar o ramal após Cordeirópolis, onde o trem seguia mais “lento” no tronco da linha, Villa-Lobos observava atentamente os sons da ferrovia. O bater rítmico das rodas nos trilhos, o apito da locomotiva a vapor, os belos cafezais que davam um ar poético à paisagem tudo isso formava uma sinfonia involuntária que chegava até a doce estação de Loreto.
Considerada uma das estações mais emblemáticas da região, a pequena Loreto serviu de inspiração para uma das maiores obras de arte da música brasileira. Foi a partir dessas experiências que Villa-Lobos compôs sua obra-prima: “Trenzinho Caipira”, tendo como referência suas viagens até Loreto.
A letra da música captura perfeitamente essa essência poética:
“Lavai o trem com o menino, lavai a vida a rodar, lavai ciranda e destino, cidade noite a girar! Lavai o trem sem destino, pro dia novo encontrar! Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar! Correndo entre as estrelas do luar!”
Tragédias nos Trilhos
Nem tudo em Loreto foram momentos de inspiração poética. A estação também testemunhou tragédias que marcaram profundamente a comunidade local.
Uma das histórias mais dramáticas envolve um descarrilhamento ocorrido próximo à estação. Um trem “militar” transportava soldados que retornavam da sangrenta Revolução de 1932, seguindo em direção ao batalhão de Pirassununga. Próximo à Estação de Loreto, alguns metros à frente, um dos carros saiu fora dos trilhos, tombando e deixando vários feridos e alguns mortos. A ironia era cruel: haviam escapado da guerra, apenas para morrerem no caminho de volta para casa.
Outro acidente marcante envolveu Ângelo Rafael, cujo tio sofreu um grave incidente nos trilhos de Loreto. Na década de 1970 ou 1980, enquanto transportava borra de café da Nestlé até um aterro (atual Cia Fértil), ao passar de noite pelo cruzamento ferroviário, avistou um farol que vinha em sua direção. Achando que era outro caminhão, parou para observar melhor. Somente quando estava praticamente em cima dele percebeu que era um trem. O caminhão foi arrastado por 30 metros, deixando-o internado por uma semana.
O mistério do filme desaparecido
Em 1949, Loreto viveu um momento especial: foram gravadas algumas cenas do filme “Luar do Sertão” na estação e também na vizinha Fazenda Santo Antônio. Era um acontecimento raro para a pequena localidade a chegada do cinema às terras ararenses.
Até então, esta é a única filmagem de trens em terras ararenses de que se tem conhecimento. Plínio da Silva Telles, que teve a honra de fazer um dos últimos (senão o último) registros de locomotiva a vapor neste ramal, próximo a Loreto, conta sua experiência:
“Em um dia de rotina, eu estava indo ao centro de Araras para fazer compras! Saía da sede da fazenda, e por um pedaço do caminho, a estrada seguia ao lado da linha! Estava em um jipe, e ouvi o apito da locomotiva, na hora já identifiquei sendo a vapor! Por sorte, estava com minha câmera fotográfica, e consegui fazer o registro do trem vindo da estação de Araras e indo para Loreto!”

Essa fotografia, hoje preservada nos acervos históricos, representa um testemunho precioso de uma época que se encerrava o fim da era das locomotivas a vapor naquela região.
Mas o filme “Luar do Sertão” permanece um mistério não resolvido. O filme “sumiu” sem deixar vestígio algum, não sendo possível encontrá-lo em lugar nenhum até o momento. Pode ser que um dia ele “apareça”, mas por enquanto é um dos mistérios que intrigam pesquisadores e entusiastas da ferrovia. Sabemos que ele existe, mas onde?

O Registro Final de uma Era
No final da década de 1960, Plínio Silva Telles retornou à estação, agora já sem funcionamento, e fez uma última fotografia do local. Aquela imagem melancólica capturou o fim de uma era — os trilhos silenciosos, a estação abandonada, o tempo que não volta.
A Viagem Continua
Para quem passava por Loreto nos tempos áureos da ferrovia, a experiência era memorável. Ao partir da estação, o trem dava uma forte buzinada anunciando sua partida. Alguns metros à frente, os passageiros atravessavam um grande pontilhão de aço sobre o Ribeirão das Araras, de onde ainda era possível avistar a sede do horto de Loreto.
A partir dali, a locomotiva precisava encarar uma pequena rampa até chegar à próxima estação, fazendo uso de quase toda sua força. O som do motor ecoava por toda a mata — para os apaixonados pela ferrovia, aquilo era música para os ouvidos.

O Legado de Loreto
Hoje, a Estação Loreto permanece como testemunha silenciosa de tempos passados. Onde antes locomotivas a vapor apitavam e Villa-Lobos encontrava sua inspiração musical, agora restaram apenas as lembranças. Pessoas ainda caminham em direção à capela de Nossa Senhora de Loreto para assistir à missa.
A vida segue, simples e tranquila, mas sem os trilhos da companhia paulista. Mas para aqueles que conhecem sua história, cada centímetro daquele chão guarda memórias preciosas: a genialidade de Villa-Lobos transformando sons ferroviários em arte sublime, as tragédias que marcaram famílias, o mistério de um filme perdido no tempo, e os últimos suspiros das locomotivas a vapor registrados por olhos atentos.
Loreto não era apenas uma pequena estação esquecida nos relatórios oficiais. Era, e continua sendo, um lugar onde os trilhos viraram música, onde a simplicidade do cotidiano ferroviário se transformou em patrimônio cultural brasileiro.
E se você se emocionou com a história da Estação Loreto… saiba que esta é apenas uma das muitas histórias que os trilhos paulistas guardam.

Ângelo Rafael, autor e pesquisador apaixonado pela ferrovia, já está com a segunda edição do seu livro “Um Trem Para a Saudade” no forno.
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E você… qual história da ferrovia brasileira gostaria de ver no próximo episódio? Deixe nos comentários!
Estação Loreto: pequena, discreta, eterna. Guardando em seus trilhos a memória viva de quando o Brasil andava de trem e a poesia nascia do apito das locomotiva.
Créditos: Texto baseado no livro “Um Trem Para a Saudade” de Ângelo Rafael sobre o Ramal de Descalvado da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Pesquisa histórica, levantamento documental e compilação de relatos por Ângelo Rafael, com colaboração de Anderson Alves dos Santos (Kovero), Leandro Guidini e demais preservadores da memória ferroviária do interior paulista.
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Observação: As informações tanto do livro quanto do vídeo foram baseados em relatos de parentes e amigos de ferroviários, podendo haver controvérsias nos dados.