{"id":780,"date":"2026-07-09T15:18:01","date_gmt":"2026-07-09T18:18:01","guid":{"rendered":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/?p=780"},"modified":"2026-07-09T15:24:12","modified_gmt":"2026-07-09T18:24:12","slug":"o-clube-que-a-comunidade-negra-de-cordeiropolis-construiu-com-as-proprias-maos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/2026\/07\/09\/o-clube-que-a-comunidade-negra-de-cordeiropolis-construiu-com-as-proprias-maos\/","title":{"rendered":"O clube que a comunidade negra de Cordeir\u00f3polis construiu com as pr\u00f3prias m\u00e3os"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Existe um lugar em Cordeir\u00f3polis que quase ningu\u00e9m conhece. Um clube fundado n\u00e3o por pol\u00edticos, n\u00e3o por fazendeiros, n\u00e3o por nenhuma institui\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico, mas por uma comunidade que decidiu, com recursos pr\u00f3prios e muita determina\u00e7\u00e3o, criar um espa\u00e7o que fosse seu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Esse lugar se chama Princesa Izabel. E a hist\u00f3ria que ele guarda \u00e9 uma das mais importantes que Cordeir\u00f3polis j\u00e1 produziu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Hoje\u2026 ela t\u00e1 no Arquivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Uma cidade que crescia, mas nem para todos do mesmo jeito<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Cordeir\u00f3polis nas d\u00e9cadas de 1930, 40 e 50 era uma cidade em forma\u00e7\u00e3o. Poucas ruas, poucos carros, pouca coisa al\u00e9m da pra\u00e7a central, da igreja e do trabalho duro que estruturava o dia de quase todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A vida social girava em torno de poucos espa\u00e7os. O Cordeiro Clube, fundado em 1937 onde hoje \u00e9 o Bradesco, era o ponto de encontro da sociedade local, um r\u00e1dio no canto, m\u00fasicas tocando, casais dan\u00e7ando. Para aquela gera\u00e7\u00e3o, era o m\u00e1ximo que a modernidade podia oferecer numa cidade pequena do interior paulista.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"655\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/antiga-sede-do-Cordeiro-Clube-onde-hoje-e-o-Banco-Bradesco-1024x655.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-781\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/antiga-sede-do-Cordeiro-Clube-onde-hoje-e-o-Banco-Bradesco-1024x655.jpg 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/antiga-sede-do-Cordeiro-Clube-onde-hoje-e-o-Banco-Bradesco-300x192.jpg 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/antiga-sede-do-Cordeiro-Clube-onde-hoje-e-o-Banco-Bradesco-768x491.jpg 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/antiga-sede-do-Cordeiro-Clube-onde-hoje-e-o-Banco-Bradesco.jpg 1388w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Onde iniciou o Cordeiro Clube. Hoje \u00e9 o Banco Bradesco, Rua Toledo Barros esquina com o Sete de Setembro.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Mas havia uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que olhava para aquele espa\u00e7o e sabia, sem que ningu\u00e9m precisasse dizer em voz alta, que aquele lugar n\u00e3o havia sido pensado para ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A comunidade afro-brasileira de Cordeir\u00f3polis n\u00e3o esperou uma porta ser aberta. Ela foi l\u00e1 e construiu a pr\u00f3pria porta. Isso foi em 1964.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>O terreno, a mulher e a decis\u00e3o que mudou tudo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria do Princesa Izabel come\u00e7a com uma mulher cujo nome merece ser dito com respeito: Dona In\u00eas Cassiano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Ela e o marido, Jos\u00e9 Cassiano, tomaram uma decis\u00e3o que parece simples de longe, mas que exigiu vis\u00e3o, generosidade e coragem para quem vivia naquele contexto: venderam parte do terreno que possu\u00edam para que o clube pudesse ser constru\u00eddo. Mais do que isso, &nbsp;Dona In\u00eas foi uma das primeiras volunt\u00e1rias a se engajar em tudo que envolvia erguer aquele espa\u00e7o do zero.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"689\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/donaignescassianoclubeprincesaizabel-689x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-783\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/donaignescassianoclubeprincesaizabel-689x1024.png 689w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/donaignescassianoclubeprincesaizabel-202x300.png 202w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/donaignescassianoclubeprincesaizabel-768x1141.png 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/donaignescassianoclubeprincesaizabel.png 1029w\" sizes=\"(max-width: 689px) 100vw, 689px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Dona Ign\u00eas Cassiano. Uso de IA para restaurar foto original.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O terreno havia sido adquirido do loteador da Vila L\u00eddia. N\u00e3o foi doado, n\u00e3o foi concedido, foi comprado pela pr\u00f3pria entidade, com recursos da comunidade. Essa distin\u00e7\u00e3o importa. Significa que desde o primeiro tijolo, o Princesa Izabel nasceu como uma conquista, n\u00e3o como uma concess\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A base que moveu tudo isso era formada, em grande parte, por ferrovi\u00e1rios. Trabalhadores das estradas de ferro que moravam naquela regi\u00e3o da cidade e que, segundo o historiador Paulo Tamiazo, fonte deste artigo, tinham um perfil diferenciado: um n\u00edvel cultural maior, uma renda mais est\u00e1vel, e uma capacidade de pensar de forma organizada e coletiva que a estrutura ferrovi\u00e1ria, curiosamente, ajudava a cultivar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u2014 <em>A base l\u00e1 do Princesa Izabel era a maioria ferrovi\u00e1rio<\/em>, contou Tamiazo. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Foi essa comunidade, a Dona In\u00eas, Jos\u00e9 Cassiano, os ferrovi\u00e1rios, os s\u00f3cios fundadores &nbsp;que transformou um terreno da Vila L\u00eddia num espa\u00e7o de identidade, de pertencimento e de festa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>O sal\u00e3o, a pista e as noites que ficaram na mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O Princesa Izabel tinha um detalhe arquitet\u00f4nico que quem frequentou nunca esqueceu: a pista de dan\u00e7a era rebaixada. Alguns degraus separavam as mesas das bordas do sal\u00e3o e o espa\u00e7o central onde os casais dan\u00e7avam.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pisocordeiroclube-e-princesa-isabel-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-782\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pisocordeiroclube-e-princesa-isabel-1024x683.png 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pisocordeiroclube-e-princesa-isabel-300x200.png 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pisocordeiroclube-e-princesa-isabel-768x512.png 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pisocordeiroclube-e-princesa-isabel.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Uso de IA para ilustrar o piso do antigo Cordeiro Clube com a pista de dan\u00e7a rebaixada. O clube Princesa Izabel tamb\u00e9m seguiu mesmo padr\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Parece um detalhe pequeno. Mas quem viveu aquelas noites sabe o que aquilo representava. Voc\u00ea estava sentado, conversando, olhando e a hora que decidia entrar na pista, descia aqueles degraus e entrava em outro mundo. A dan\u00e7a tinha um territ\u00f3rio pr\u00f3prio, delimitado, sagrado \u00e0 sua maneira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Os eventos eram o cora\u00e7\u00e3o do clube. Bailes, encontros, festas de carnaval \u2014 tudo acontecia ali, num espa\u00e7o que a pr\u00f3pria comunidade havia constru\u00eddo e que, portanto, sentia como seu de uma forma que nenhum outro lugar na cidade poderia oferecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o era apenas divers\u00e3o. Era afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>O nome que quase foi proibido<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Nem tudo correu sem obst\u00e1culos. Em algum momento entre o fim da d\u00e9cada de 1960 e o in\u00edcio dos anos 1970, o Tribunal de Contas do Estado passou a julgar as subven\u00e7\u00f5es que as prefeituras concediam a entidades civis &nbsp;e o Princesa Izabel recebia esse tipo de apoio da Prefeitura de Cordeir\u00f3polis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Foi quando chegou o problema: o nome oficial da entidade era Sociedade Dan\u00e7ante e Recreativa Princesa Izabel. E o Tribunal foi direto ao ponto, n\u00e3o era poss\u00edvel subvencionar uma entidade &#8220;dan\u00e7ante&#8221;. A palavra, no entendimento dos auditores, n\u00e3o configurava finalidade social suficiente para justificar recurso p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">A solu\u00e7\u00e3o foi simples, mas reveladora de como a comunidade sabia navegar dentro das regras quando precisava: mudaram o nome. Passou a ser Sociedade Beneficente Recreativa Princesa Izabel. Uma palavra diferente &nbsp;e a subven\u00e7\u00e3o p\u00f4de continuar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u2014 <em>Isso foi feito entre 69 e 70<\/em>, explica o historiador Paulo. <em>Nessa \u00e9poca o Tribunal passou a julgar as contas e subven\u00e7\u00f5es do munic\u00edpio. Ent\u00e3o agora voc\u00ea tinha que vir com tudo certinho<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">O epis\u00f3dio pode parecer burocr\u00e1tico. Mas guarda uma li\u00e7\u00e3o sobre resist\u00eancia que vai al\u00e9m das festas e das pistas de dan\u00e7a: a comunidade que construiu o Princesa Isabel tamb\u00e9m sabia se adaptar, se reorganizar e continuar de p\u00e9 quando o sistema tentava criar obst\u00e1culos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>O que o Brasil ainda n\u00e3o contou sobre o Princesa Izabel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">H\u00e1 algo que o historiador Paulo ressalta com uma mistura de orgulho e frustra\u00e7\u00e3o: a hist\u00f3ria do Princesa Izabel de Cordeir\u00f3polis praticamente n\u00e3o existe na historiografia afro-brasileira. N\u00e3o porque n\u00e3o seja relevante, mas porque as pesquisas tendem a olhar apenas para as grandes cidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u2014 <em>Olhem para as cidades pequenas. L\u00e1 tamb\u00e9m existiam essas coisas<\/em> \u2014 diz ele. \u2014 <em>N\u00e3o \u00e9 qualquer local que houve essa mobiliza\u00e7\u00e3o da comunidade afro-brasileira para criar um espa\u00e7o pr\u00f3prio. Isso aqui tinha que estar no meio de todas as experi\u00eancias na hist\u00f3ria afro-brasileira sobre sociabilidade, clube, essas coisas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Em cidades como Rio Claro havia o Clube Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio e o Tamoio. Em Jundia\u00ed, o 28 de Setembro. Em Piracicaba, o 13 de Maio. Em Limeira, o Clube Recreativo Limeirense. Cada cidade com sua vers\u00e3o de uma mesma hist\u00f3ria: comunidades negras que, diante de um mundo que n\u00e3o as inclu\u00eda plenamente, constru\u00edram os pr\u00f3prios espa\u00e7os de dignidade e pertencimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Cordeir\u00f3polis fez o mesmo. E o Princesa Izabel \u00e9 a prova disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>O clube que ainda est\u00e1 de p\u00e9<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Enquanto o Cordeiro Clube perdeu ao longo das d\u00e9cadas a \u201csociedade que o animava\u201d restando hoje apenas o pr\u00e9dio pertencente \u00e0 prefeitura, o Princesa Isabel ainda at\u00e9 poucos meses atr\u00e1s realizava os seus bailes. Movido por volunt\u00e1rios que carregam, junto com o clube, a mem\u00f3ria de tudo que ele representa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Em tempos em que clubes sociais por todo o Brasil enfrentam o esvaziamento, a concorr\u00eancia dos centros de lazer p\u00fablicos, a mudan\u00e7a de h\u00e1bitos, a dispers\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es, manter vivo um espa\u00e7o como o Princesa Izabel \u00e9 um ato de resist\u00eancia t\u00e3o leg\u00edtimo quanto o que motivou sua funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u2014 <em>Ainda tem a raiz<\/em> \u2014 observa o historiador Paulo. \u2014 <em>O Princesa Izabel existe ainda<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">E enquanto existir, existe tamb\u00e9m a mem\u00f3ria de Dona In\u00eas Cassiano, dos ferrovi\u00e1rios da Vila L\u00eddia, dos s\u00f3cios que compraram t\u00edtulos, dos casais que desceram aqueles degraus para dan\u00e7ar numa pista que era, acima de tudo, sua.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"382\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/clube-princesa-izabel-1024x382.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-784\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/clube-princesa-izabel-1024x382.png 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/clube-princesa-izabel-300x112.png 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/clube-princesa-izabel-768x287.png 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/clube-princesa-izabel-1536x573.png 1536w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/clube-princesa-izabel-2048x764.png 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Clube Princesa Izabel em Cordeir\u00f3polis<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Uma comunidade que n\u00e3o esperou permiss\u00e3o para existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Que construiu com as pr\u00f3prias m\u00e3os o espa\u00e7o que merecia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">E que, mais de meio s\u00e9culo depois, ainda est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\">Porque se \u00e9 hist\u00f3ria boa\u2026 t\u00e1 no Arquivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>Este artigo \u00e9 baseado em entrevista concedida pelo historiador Paulo Tamiazo \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Italiana de Cordeir\u00f3polis, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=JkcafoYBuQY&amp;t=1823s\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Trevisani Nel Mondo.<\/a> O T\u00e1 no Arquivo, reconhecendo o valor hist\u00f3rico desse registro, selecionou e organizou os principais pontos do relato para preservar e ampliar o alcance dessa mem\u00f3ria. Todos os fatos, datas e nomes aqui presentes s\u00e3o fi\u00e9is ao depoimento original.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um lugar em Cordeir\u00f3polis que quase ningu\u00e9m conhece. Um clube fundado n\u00e3o por pol\u00edticos, n\u00e3o por fazendeiros, n\u00e3o por nenhuma institui\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico, mas por uma comunidade que decidiu, com recursos pr\u00f3prios e muita determina\u00e7\u00e3o, criar um espa\u00e7o que fosse seu. Esse lugar se chama Princesa Izabel. E a hist\u00f3ria que ele guarda \u00e9 uma das mais importantes que Cordeir\u00f3polis j\u00e1 produziu. Hoje\u2026 ela t\u00e1 no Arquivo. Uma cidade que crescia, mas nem para todos do mesmo jeito Cordeir\u00f3polis nas d\u00e9cadas de 1930, 40 e 50 era uma cidade em forma\u00e7\u00e3o. Poucas ruas, poucos carros, pouca coisa al\u00e9m da pra\u00e7a central, da igreja e do trabalho duro que estruturava o dia de quase todo mundo. A vida social girava em torno de poucos espa\u00e7os. O Cordeiro Clube, fundado em 1937 onde hoje \u00e9 o Bradesco, era o ponto de encontro da sociedade local, um r\u00e1dio no canto, m\u00fasicas tocando, casais dan\u00e7ando. Para aquela gera\u00e7\u00e3o, era o m\u00e1ximo que a modernidade podia oferecer numa cidade pequena do interior paulista. Mas havia uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que olhava para aquele espa\u00e7o e sabia, sem que ningu\u00e9m precisasse dizer em voz alta, que aquele lugar n\u00e3o havia sido pensado para ela. A comunidade afro-brasileira de Cordeir\u00f3polis n\u00e3o esperou uma porta ser aberta. Ela foi l\u00e1 e construiu a pr\u00f3pria porta. Isso foi em 1964. O terreno, a mulher e a decis\u00e3o que mudou tudo A hist\u00f3ria do Princesa Izabel come\u00e7a com uma mulher cujo nome merece ser dito com respeito: Dona In\u00eas Cassiano. Ela e o marido, Jos\u00e9 Cassiano, tomaram uma decis\u00e3o que parece simples de longe, mas que exigiu vis\u00e3o, generosidade e coragem para quem vivia naquele contexto: venderam parte do terreno que possu\u00edam para que o clube pudesse ser constru\u00eddo. Mais do que isso, &nbsp;Dona In\u00eas foi uma das primeiras volunt\u00e1rias a se engajar em tudo que envolvia erguer aquele espa\u00e7o do zero. O terreno havia sido adquirido do loteador da Vila L\u00eddia. N\u00e3o foi doado, n\u00e3o foi concedido, foi comprado pela pr\u00f3pria entidade, com recursos da comunidade. Essa distin\u00e7\u00e3o importa. Significa que desde o primeiro tijolo, o Princesa Izabel nasceu como uma conquista, n\u00e3o como uma concess\u00e3o. A base que moveu tudo isso era formada, em grande parte, por ferrovi\u00e1rios. Trabalhadores das estradas de ferro que moravam naquela regi\u00e3o da cidade e que, segundo o historiador Paulo Tamiazo, fonte deste artigo, tinham um perfil diferenciado: um n\u00edvel cultural maior, uma renda mais est\u00e1vel, e uma capacidade de pensar de forma organizada e coletiva que a estrutura ferrovi\u00e1ria, curiosamente, ajudava a cultivar. \u2014 A base l\u00e1 do Princesa Izabel era a maioria ferrovi\u00e1rio, contou Tamiazo. &nbsp; Foi essa comunidade, a Dona In\u00eas, Jos\u00e9 Cassiano, os ferrovi\u00e1rios, os s\u00f3cios fundadores &nbsp;que transformou um terreno da Vila L\u00eddia num espa\u00e7o de identidade, de pertencimento e de festa. O sal\u00e3o, a pista e as noites que ficaram na mem\u00f3ria O Princesa Izabel tinha um detalhe arquitet\u00f4nico que quem frequentou nunca esqueceu: a pista de dan\u00e7a era rebaixada. Alguns degraus separavam as mesas das bordas do sal\u00e3o e o espa\u00e7o central onde os casais dan\u00e7avam. Parece um detalhe pequeno. Mas quem viveu aquelas noites sabe o que aquilo representava. Voc\u00ea estava sentado, conversando, olhando e a hora que decidia entrar na pista, descia aqueles degraus e entrava em outro mundo. A dan\u00e7a tinha um territ\u00f3rio pr\u00f3prio, delimitado, sagrado \u00e0 sua maneira. Os eventos eram o cora\u00e7\u00e3o do clube. Bailes, encontros, festas de carnaval \u2014 tudo acontecia ali, num espa\u00e7o que a pr\u00f3pria comunidade havia constru\u00eddo e que, portanto, sentia como seu de uma forma que nenhum outro lugar na cidade poderia oferecer. N\u00e3o era apenas divers\u00e3o. Era afirma\u00e7\u00e3o. O nome que quase foi proibido Nem tudo correu sem obst\u00e1culos. Em algum momento entre o fim da d\u00e9cada de 1960 e o in\u00edcio dos anos 1970, o Tribunal de Contas do Estado passou a julgar as subven\u00e7\u00f5es que as prefeituras concediam a entidades civis &nbsp;e o Princesa Izabel recebia esse tipo de apoio da Prefeitura de Cordeir\u00f3polis. Foi quando chegou o problema: o nome oficial da entidade era Sociedade Dan\u00e7ante e Recreativa Princesa Izabel. E o Tribunal foi direto ao ponto, n\u00e3o era poss\u00edvel subvencionar uma entidade &#8220;dan\u00e7ante&#8221;. A palavra, no entendimento dos auditores, n\u00e3o configurava finalidade social suficiente para justificar recurso p\u00fablico. A solu\u00e7\u00e3o foi simples, mas reveladora de como a comunidade sabia navegar dentro das regras quando precisava: mudaram o nome. Passou a ser Sociedade Beneficente Recreativa Princesa Izabel. Uma palavra diferente &nbsp;e a subven\u00e7\u00e3o p\u00f4de continuar. \u2014 Isso foi feito entre 69 e 70, explica o historiador Paulo. Nessa \u00e9poca o Tribunal passou a julgar as contas e subven\u00e7\u00f5es do munic\u00edpio. Ent\u00e3o agora voc\u00ea tinha que vir com tudo certinho. O epis\u00f3dio pode parecer burocr\u00e1tico. Mas guarda uma li\u00e7\u00e3o sobre resist\u00eancia que vai al\u00e9m das festas e das pistas de dan\u00e7a: a comunidade que construiu o Princesa Isabel tamb\u00e9m sabia se adaptar, se reorganizar e continuar de p\u00e9 quando o sistema tentava criar obst\u00e1culos. O que o Brasil ainda n\u00e3o contou sobre o Princesa Izabel H\u00e1 algo que o historiador Paulo ressalta com uma mistura de orgulho e frustra\u00e7\u00e3o: a hist\u00f3ria do Princesa Izabel de Cordeir\u00f3polis praticamente n\u00e3o existe na historiografia afro-brasileira. N\u00e3o porque n\u00e3o seja relevante, mas porque as pesquisas tendem a olhar apenas para as grandes cidades. \u2014 Olhem para as cidades pequenas. L\u00e1 tamb\u00e9m existiam essas coisas \u2014 diz ele. \u2014 N\u00e3o \u00e9 qualquer local que houve essa mobiliza\u00e7\u00e3o da comunidade afro-brasileira para criar um espa\u00e7o pr\u00f3prio. Isso aqui tinha que estar no meio de todas as experi\u00eancias na hist\u00f3ria afro-brasileira sobre sociabilidade, clube, essas coisas. Em cidades como Rio Claro havia o Clube Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio e o Tamoio. Em Jundia\u00ed, o 28 de Setembro. Em Piracicaba, o 13 de Maio. Em Limeira, o Clube Recreativo Limeirense. Cada cidade com sua vers\u00e3o de uma mesma hist\u00f3ria: comunidades negras que, diante de um mundo que n\u00e3o as inclu\u00eda plenamente, constru\u00edram os pr\u00f3prios espa\u00e7os de dignidade e pertencimento. Cordeir\u00f3polis fez o mesmo. 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