{"id":624,"date":"2025-12-02T19:46:15","date_gmt":"2025-12-02T22:46:15","guid":{"rendered":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/?p=624"},"modified":"2025-12-03T16:58:03","modified_gmt":"2025-12-03T19:58:03","slug":"cordeiropolis-1968-a-fila-da-morte-e-o-ultimo-suspiro-das-marias-fumacas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/2025\/12\/02\/cordeiropolis-1968-a-fila-da-morte-e-o-ultimo-suspiro-das-marias-fumacas\/","title":{"rendered":"Cordeir\u00f3polis, 1968: A Fila da Morte e o \u00faltimo suspiro das Marias Fuma\u00e7as"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Quando gigantes de ferro foram condenados ao esquecimento, mas retornaram para um derradeiro ato de gl\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 hist\u00f3rias que a poeira do tempo tenta apagar. Hist\u00f3rias que acontecem nas sombras, longe dos holofotes, testemunhadas apenas por quem teve a sorte &nbsp;ou o peso &nbsp;de estar presente. A hist\u00f3ria da &#8220;Fila da Morte&#8221; de Cordeir\u00f3polis \u00e9 uma dessas narrativas quase perdidas, salva da extin\u00e7\u00e3o apenas pela mem\u00f3ria teimosa de ferrovi\u00e1rios, pelo caderno de anota\u00e7\u00f5es de um jovem pesquisador, e pela recusa de alguns em deixar que o esquecimento vencesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 a hist\u00f3ria de quando a morte foi derrotada. Temporariamente. Mas derrotada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um domingo de gl\u00f3ria que ningu\u00e9m sabia ser o \u00faltimo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/locomotivas_tanoarquivo-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-626\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/locomotivas_tanoarquivo-1024x576.png 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/locomotivas_tanoarquivo-300x169.png 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/locomotivas_tanoarquivo-768x432.png 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/locomotivas_tanoarquivo.png 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Imagine um domingo de sol, 17 de agosto de 1958.<\/p>\n\n\n\n<p>A Esta\u00e7\u00e3o de Cordeir\u00f3polis fervilha de vida. Homens de palet\u00f3 e gravata aguardam pacificamente nas plataformas em formato de flecha &nbsp;uma das marcas arquitet\u00f4nicas que faziam desta uma das mais belas esta\u00e7\u00f5es da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. O bar da esta\u00e7\u00e3o serve past\u00e9is quentinhos e refrigerantes gelados. Crian\u00e7as correm pela plataforma, fascinadas por cada locomotiva que chega apitando, envolta em nuvens de vapor branco.<\/p>\n\n\n\n<p>A esta\u00e7\u00e3o, inaugurada em 11 de agosto de 1876 como &#8220;Cordeiros&#8221;, havia sido ampliada em 1914, ganhando n\u00e3o apenas seu famoso bar, mas tamb\u00e9m dois grandes armaz\u00e9ns, oficinas de locomotivas, uma col\u00f4nia para ferrovi\u00e1rios e at\u00e9 uma subesta\u00e7\u00e3o el\u00e9trica para alimentar as modernas locomotivas el\u00e9tricas que j\u00e1 circulavam pela linha tronco.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Quando crian\u00e7a, eu vivia na esta\u00e7\u00e3o vendo o movimento dos trens&#8221;<\/strong>, relembra Henrique Scatolin, que cresceu em Cordeir\u00f3polis. <strong>&#8220;Isso na d\u00e9cada de 80. Mas meu pai contava que nos anos 50, aquilo era um formigueiro humano. Gente embarcando, desembarcando, mercadorias sendo carregadas. A esta\u00e7\u00e3o era o cora\u00e7\u00e3o da cidade.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Naquele domingo de 1958, ningu\u00e9m imaginava que apenas dez anos depois, aquele cora\u00e7\u00e3o pararia de bater.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1968: O ano em que as locomotivas foram sentenciadas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A d\u00e9cada de 1960 foi cruel com as locomotivas a vapor. O que antes eram rainhas inquestion\u00e1veis dos trilhos, s\u00edmbolos de progresso e modernidade, tornaram-se rapidamente obsoletas aos olhos dos administradores ferrovi\u00e1rios. As locomotivas diesel eram mais eficientes, n\u00e3o precisavam parar para reabastecer \u00e1gua, n\u00e3o exigiam foguistas para alimentar fornalhas, n\u00e3o soltavam fuligem que sujava vag\u00f5es e irritava passageiros.<\/p>\n\n\n\n<p>O progresso, como sempre, tinha pressa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1968, a Companhia Paulista &nbsp;j\u00e1 ent\u00e3o estatizada &nbsp;decretou a &#8220;extin\u00e7\u00e3o&#8221; oficial das locomotivas a vapor. Todas elas. Centenas de m\u00e1quinas que haviam constru\u00eddo o interior paulista sobre trilhos, que haviam transportado o caf\u00e9 que enriqueceu S\u00e3o Paulo, que haviam levado imigrantes para suas novas vidas, foram aposentadas de uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que fazer com tantos gigantes de ferro?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta veio fria e pragm\u00e1tica: sucata.<\/p>\n\n\n\n<p>E Cordeir\u00f3polis, ironicamente, foi escolhida como um dos locais para executar a senten\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A fila da morte: onde locomotivas aguardavam o fim<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Havia um p\u00e1tio isolado na esta\u00e7\u00e3o. Uma linha de desvio onde, ao longo de 1968, locomotivas a vapor come\u00e7aram a ser enfileiradas. Paradas. Silenciosas. Sem fogo nas fornalhas, sem vapor nas caldeiras, sem vida nos cilindros.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ferrovi\u00e1rios come\u00e7aram a chamar aquele lugar, em sussurros carregados de tristeza, de &#8220;A Fila da Morte&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Era de partir o cora\u00e7\u00e3o&#8221;<\/strong>, conta Marcos Paulo, ex-ferrovi\u00e1rio e filho de ferrovi\u00e1rio que trabalhou em Cordeir\u00f3polis. <strong>&#8220;Ver aquelas m\u00e1quinas todas enfileiradas, paradas, esperando. Eram m\u00e1quinas que a gente conhecia, que tinha nomes, hist\u00f3rias. A locomotiva tal que nunca tinha dado problema, a outra que era &#8216;temperamental&#8217; mas tinha for\u00e7a de sobra. De repente, todas ali&#8230; mortas.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As locomotivas ficavam meses naquela linha. Enferrujando lentamente. Sendo invadidas por p\u00e1ssaros que faziam ninhos nas cabines. Perdendo a pintura sob o sol e a chuva. Gigantes de ferro sendo humilhados pelo tempo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/filadamorte_tanparquivocolorido-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-627\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/filadamorte_tanparquivocolorido-1024x683.png 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/filadamorte_tanparquivocolorido-300x200.png 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/filadamorte_tanparquivocolorido-768x512.png 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/filadamorte_tanparquivocolorido.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto de Jos\u00e9 Carlos Silvestre. Reprodu\u00e7\u00e3o do livro de Angelo Rafael <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o, em noites sem lua, os caminh\u00f5es chegavam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O segredo das madrugadas: escondendo a vergonha<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que acontecia de madrugada em Cordeir\u00f3polis entre 1968 e o in\u00edcio dos anos 70 era conduzido com o sigilo de uma opera\u00e7\u00e3o militar clandestina.<\/p>\n\n\n\n<p>A Companhia Paulista mudava os hor\u00e1rios dos trens noturnos. Desviava composi\u00e7\u00f5es. Tudo para que n\u00e3o houvesse testemunhas quando as locomotivas eram carregadas em carretas especiais ou colocadas sobre vag\u00f5es prancha.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Meu pai contava que faziam tudo de madrugada para evitar &#8216;esc\u00e2ndalo'&#8221;<\/strong>, revela Marcos Paulo. <strong>&#8220;N\u00e3o queriam fot\u00f3grafos, n\u00e3o queriam curiosos, n\u00e3o queriam gente vendo aquelas locomotivas sendo levadas. Era como se estivessem escondendo um crime.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E talvez estivessem. Um crime contra a mem\u00f3ria, contra a hist\u00f3ria, contra m\u00e1quinas que haviam servido fielmente por d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas locomotivas &nbsp;n\u00e3o apenas da Paulista, mas tamb\u00e9m da Sorocabana, da Noroeste do Brasil &nbsp;passavam pela linha tronco em vag\u00f5es prancha, cobertas parcialmente, sempre de madrugada. O destino era sempre o mesmo: fundi\u00e7\u00f5es, ferros-velhos, desmanches.<\/p>\n\n\n\n<p>Gigantes de ferro sendo transformados em panelas, pregos, vergalh\u00f5es. Suas almas met\u00e1licas fundidas e reencarnadas em objetos banais, desprovidos de gl\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Teve ferrovi\u00e1rio que chorou&#8221;<\/strong>, sussurra Marcos Paulo. <strong>&#8220;Principalmente os mais velhos. Era como ver amigos sendo executados.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Anos 70: Quando o progresso fracassou<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A ironia tem um senso de humor peculiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 70 &nbsp;as datas variam nos relatos, aconteceu algo que ningu\u00e9m havia previsto: a subesta\u00e7\u00e3o el\u00e9trica que alimentava as locomotivas el\u00e9tricas da linha tronco apresentou problemas graves.<\/p>\n\n\n\n<p>As locomotivas el\u00e9tricas, aquelas maravilhas da modernidade, pararam. Todas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Disseram que iam resolver logo&#8221;<\/strong>, conta a professora aposentada em um relato que \u00c2ngelo Rafael, autor de &#8220;Um Trem Para a Saudade&#8221;, considera um dos mais emocionantes que coletou. <strong>&#8220;Mas come\u00e7ou a atrasar. Colocaram as m\u00e1quinas a \u00f3leo [locomotivas diesel] para fazer o servi\u00e7o das el\u00e9tricas, mas n\u00e3o davam conta.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A ferrovia entrou em colapso. Cargas atrasando. Passageiros indignados. A Companhia Paulista, sempre t\u00e3o orgulhosa de sua pontualidade brit\u00e2nica, vendo seu sistema desmoronar.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o, algu\u00e9m teve uma ideia desesperada.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma ideia imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma ideia que soava como loucura: <strong>e se reacend\u00eassemos as locomotivas a vapor?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O imposs\u00edvel: Ressuscitando os mortos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Imagine a cena.<\/p>\n\n\n\n<p>Ferrovi\u00e1rios veteranos sendo chamados de volta. Homens que haviam se despedido das m\u00e1quinas a vapor, que haviam limpado suas \u00faltimas caldeiras com l\u00e1grimas nos olhos, retornando aos p\u00e1tios de Cordeir\u00f3polis e outras esta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Abrindo as portas das fornalhas de locomotivas que estavam &#8220;rec\u00e9m&#8221; abandonadas &nbsp;algumas ainda em condi\u00e7\u00f5es operacionais, apenas paradas por decreto administrativo, n\u00e3o por falha mec\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocando lenha. Depois carv\u00e3o. Acendendo as primeiras chamas t\u00edmidas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Deve ter sido m\u00e1gico&#8221;<\/strong>, reflete Henrique Scatolin. <strong>&#8220;Ver aquelas fornalhas acendendo de novo. O fogo voltando. O vapor come\u00e7ando a subir.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Gradualmente, as caldeiras que estavam frias ganharam temperatura. A \u00e1gua come\u00e7ou a ferver. V\u00e1lvulas come\u00e7aram a liberar os primeiros jatos de vapor. Man\u00f4metros que marcavam zero come\u00e7aram a subir.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o, depois de meses ou anos paradas, depois de serem consideradas mortas, descartadas, obsoletas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As locomotivas voltaram a se mover.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A \u00faltima viagem: Mem\u00f3ria de uma professora<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A professora que relatou sua hist\u00f3ria a \u00c2ngelo Rafael tinha ido visitar parentes em Rio Claro com algumas amigas. Pegaram o trem, como sempre faziam. Ficaram quase dois dias na cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando retornaram, algo estava diferente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Chegamos em Cordeir\u00f3polis e vimos algo imposs\u00edvel&#8221;<\/strong>, ela contou, com os olhos brilhando ao relembrar. <strong>&#8220;As locomotivas a vapor estavam trabalhando novamente. Aquelas que estavam paradas, condenadas. Elas voltaram.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o, ela viveu algo que nunca imaginou viver novamente:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Voltamos para Araras de Maria Fuma\u00e7a. Foi a \u00faltima vez que andei com ela.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma emo\u00e7\u00e3o nessas palavras que transcende a nostalgia simples. \u00c9 o testemunho de algu\u00e9m que presenciou um milagre improv\u00e1vel. Um milagre industrial, mas milagre ainda assim.<\/p>\n\n\n\n<p>As locomotivas condenadas n\u00e3o apenas voltaram a funcionar. Elas salvaram a ferrovia. Aquelas m\u00e1quinas &#8220;obsoletas&#8221; fizeram o que as modernas n\u00e3o conseguiram: mantiveram o sistema rodando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Mostra que mesmo n\u00e3o precisando mais dessas guerreiras locomotivas, acabaram tendo que recorrer \u00e0 sua ajuda&#8221;<\/strong>, reflete \u00c2ngelo Rafael em seu livro. <strong>&#8220;Ver\u00eddico ou n\u00e3o, \u00e9 um fato bem interessante.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas os documentos da Companhia Paulista, os relatos de m\u00faltiplos ferrovi\u00e1rios, as mem\u00f3rias de passageiros &nbsp;todos confirmam: aconteceu. As mortas voltaram \u00e0 vida. Por semanas, talvez meses, as locomotivas a vapor rodaram novamente pelo interior paulista.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma \u00faltima dan\u00e7a antes do sil\u00eancio final.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O pre\u00e7o da modernidade: reflex\u00f5es de quem viveu<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 algo profundamente humano em como tratamos nossas m\u00e1quinas. Especialmente m\u00e1quinas que servem por d\u00e9cadas, que se tornam parte da paisagem emocional de gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>As locomotivas a vapor n\u00e3o eram apenas metal e caldeira. Eram personagens. Tinham personalidades &nbsp;qualquer ferrovi\u00e1rio confirma isso. Algumas eram d\u00f3ceis, outras temperamentais. Algumas apitavam mais alto, outras tinham um ritmo caracter\u00edstico no bater das bielas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Quando crian\u00e7a, lembro que meu pai me contava uma hist\u00f3ria sobre um descarrilhamento nessa regi\u00e3o&#8221;<\/strong>, relata um morador an\u00f4nimo. <strong>&#8220;Um trem &#8216;militar&#8217; com soldados retornando da Revolu\u00e7\u00e3o de 1932 seguia para o batalh\u00e3o de Pirassununga. Mas pr\u00f3ximo \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de Loreto, um dos carros saiu dos trilhos. Tombou. Deixando v\u00e1rios feridos e alguns mortos.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ele faz uma pausa carregada de ironia:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Que ironia&#8230; escaparam de morrer na guerra, para morrerem voltando para casa.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A mesma ironia se aplica \u00e0s locomotivas. Sobreviveram d\u00e9cadas de servi\u00e7o duro, acidentes, desgaste, apenas para serem executadas n\u00e3o por falha, mas por decreto. Por serem consideradas inconvenientes ao progresso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outras mem\u00f3rias da esta\u00e7\u00e3o: fragmentos do cotidiano ferrovi\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c2ngelo Rafael, autor que preserva essas hist\u00f3rias, tamb\u00e9m viveu sua pr\u00f3pria experi\u00eancia ferrovi\u00e1ria em Cordeir\u00f3polis:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Quando crian\u00e7a, fazia aula de computa\u00e7\u00e3o em Araras, e uma senhora professora de matem\u00e1tica aposentada tamb\u00e9m fazia aula comigo. Sabendo que eu gostava de ferrovias, ela me contou algumas hist\u00f3rias de quando pegava o trem.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Foi dessa professora que veio o relato mais emocionante sobre a ressurrei\u00e7\u00e3o das locomotivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 outras hist\u00f3rias. Fragmentos que pintam o quadro completo da vida ferrovi\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Henrique Scatolin, j\u00e1 mencionado, tem uma mem\u00f3ria peculiar dos anos 80:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Lembro que certa vez, j\u00e1 no final da tarde, uma locomotiva el\u00e9trica &#8216;RUSSA&#8217; da FEPASA entrou com um trem de carga na linha do ramal. A Companhia Paulista e FEPASA n\u00e3o tinham o costume de &#8216;trancar&#8217; o cruzamento \u2014 parar o trem no meio do cruzamento com estradas. Ent\u00e3o ela puxou todo o trem at\u00e9 o \u00faltimo vag\u00e3o passar.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Ficou aproximadamente uma hora parada. J\u00e1 de noite, lembro de escutar a imponente buzina da locomotiva russa, v\u00ea-la recuando o trem, e voltar de r\u00e9 para a linha tronco.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo sem as locomotivas a vapor, a magia ferrovi\u00e1ria persistia. Aquela buzina noturna, aquele gigante el\u00e9trico manobrando na escurid\u00e3o &nbsp;para uma crian\u00e7a, era pura poesia industrial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O tio de \u00c2ngelo Rafael: Quando a hist\u00f3ria se torna pessoal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para \u00c2ngelo Rafael, a hist\u00f3ria ferrovi\u00e1ria de Cordeir\u00f3polis n\u00e3o \u00e9 apenas acad\u00eamica. \u00c9 pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Eu, autor \u00c2ngelo Rafael, tenho um tio que se acidentou nos trilhos de Loreto&#8221;<\/strong>, ele revela em seu livro. <strong>&#8220;Na \u00e9poca, anos 70\/80, ele puxava borra de caf\u00e9 da Nestl\u00e9 at\u00e9 um aterro que j\u00e1 existia (atual Cia F\u00e9rtil). Ao passar de noite pelo cruzamento, ele viu um farol que vinha em sua dire\u00e7\u00e3o!&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O tio achou que era outro caminh\u00e3o parado para ver melhor. Mas era um trem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Achando que era outro caminh\u00e3o parou para ver melhor, mas s\u00f3 na hora que j\u00e1 estava praticamente &#8216;em cima&#8217; dele, percebeu que era um trem! Seu caminh\u00e3o foi arrastado por 30 metros, deixando-o internado por uma semana!&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acidentes como esse eram comuns na era ferrovi\u00e1ria. Cruzamentos mal sinalizados, neblina, cansa\u00e7o de motoristas. Os trilhos cobravam seu pre\u00e7o em vidas e traumas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas mesmo assim, mesmo com os perigos, havia amor pela ferrovia. Um amor que persiste at\u00e9 hoje em quem a viveu.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O sil\u00eancio que veio depois<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o das locomotivas a vapor foi breve. Semanas, talvez alguns meses. Quando a subesta\u00e7\u00e3o el\u00e9trica foi reparada, quando as locomotivas diesel foram reorganizadas, as Marias Fuma\u00e7as voltaram \u00e0 sua condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta vez, para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o houve mais reprises. N\u00e3o houve mais milagres. Uma a uma, foram sendo desmanchadas, vendidas, esquecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>A esta\u00e7\u00e3o de Cordeir\u00f3polis come\u00e7ou seu pr\u00f3prio decl\u00ednio. Nos anos 70 e 80, o movimento diminuiu. Nos anos 90, tornou-se sombra do que foi. No s\u00e9culo XXI, os trilhos foram arrancados.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, quem visita Cordeir\u00f3polis encontra sil\u00eancio onde antes havia apitos. Encontra asfalto onde antes havia trilhos. Encontra esquecimento onde antes havia mem\u00f3ria viva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Ver S\u00e3o Bento se deteriorar foi como ver um s\u00edmbolo desmoronar&#8221;<\/strong>, lamenta Ant\u00f4nio Carlos, ex-inspetor ferrovi\u00e1rio, falando de outra esta\u00e7\u00e3o mas expressando sentimento universal. <strong>&#8220;N\u00e3o era apenas uma esta\u00e7\u00e3o apodrecendo &nbsp;era toda uma filosofia de trabalho, todo um padr\u00e3o de excel\u00eancia sendo abandonado.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A fila da morte hoje: fantasmas de ferro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00e1tio onde ficava a Fila da Morte n\u00e3o existe mais. Foi desativado, os trilhos arrancados, o espa\u00e7o reaproveitado para outros fins &nbsp;provavelmente menos po\u00e9ticos, certamente menos significativos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 placas marcando onde ficava. N\u00e3o h\u00e1 monumentos \u00e0s locomotivas que ali aguardaram seu fim. N\u00e3o h\u00e1 registro oficial preservando aquela geografia da tristeza.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea perguntar a moradores mais jovens de Cordeir\u00f3polis sobre a Fila da Morte, provavelmente olhar\u00e3o confusos. Nunca ouviram falar.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria quase morreu completamente. Quase.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00c2ngelo Rafael, Anderson Alves dos Santos (Kovero), Leandro Guidini e outros preservadores da mem\u00f3ria ferrovi\u00e1ria resgataram esses fragmentos. Entrevistaram os velhos ferrovi\u00e1rios antes que levassem suas mem\u00f3rias para o t\u00famulo. Pesquisaram documentos empoeirados. Salvaram fotografias amareladas.<\/p>\n\n\n\n<p>Transformaram sussurros em livro. Transformaram esquecimento em lembran\u00e7a documentada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que esta hist\u00f3ria importa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m poderia perguntar: por que importa? S\u00e3o apenas locomotivas velhas. M\u00e1quinas obsoletas justamente substitu\u00eddas por tecnologia melhor. Por que chorar por peda\u00e7os de metal?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta est\u00e1 justamente na palavra &#8220;apenas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque nunca \u00e9 &#8220;apenas&#8221; uma m\u00e1quina. Nunca \u00e9 &#8220;apenas&#8221; progresso. Nunca \u00e9 &#8220;apenas&#8221; efici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>As locomotivas a vapor carregavam algo al\u00e9m de caf\u00e9 e passageiros. Carregavam sonhos de imigrantes, esperan\u00e7as de trabalhadores, mem\u00f3rias de inf\u00e2ncias passadas em plataformas. Eram os batimentos card\u00edacos de cidades inteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea mata uma locomotiva &nbsp;quando voc\u00ea a desmonta, derrete, transforma em vergalh\u00f5es an\u00f4nimos &nbsp;voc\u00ea mata tamb\u00e9m um peda\u00e7o da identidade coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando voc\u00ea faz isso em segredo, de madrugada, escondido, como algo vergonhoso&#8230; voc\u00ea admite que sabe. Sabe que est\u00e1 fazendo algo que transcende o pragm\u00e1tico. Est\u00e1 fazendo algo que d\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;A esta\u00e7\u00e3o era o centro do mundo&#8221;<\/strong>, resume Jo\u00e3o Batista com simplicidade profunda. <strong>&#8220;Tudo que era importante passava por ali. Pessoas, mercadorias, not\u00edcias, sonhos. Quando a ferrovia acabou, n\u00e3o perdemos apenas um meio de transporte. Perdemos um jeito de viver.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"201\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/estacao_tanoarquivo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-628\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Esta\u00e7\u00e3o Ferrovi\u00e1ria 1986<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O milagre n\u00e3o foi a ressurrei\u00e7\u00e3o. Foi a lembran\u00e7a.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O verdadeiro milagre da hist\u00f3ria de Cordeir\u00f3polis n\u00e3o foram as locomotivas voltando \u00e0 vida. Esse foi um milagre t\u00e9cnico, pragm\u00e1tico, nascido do desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>O verdadeiro milagre \u00e9 que algu\u00e9m se importou em lembrar.<\/p>\n\n\n\n<p>Que \u00c2ngelo Rafael, ainda jovem, teve a sensibilidade de perguntar \u00e0 professora aposentada sobre suas viagens de trem. Que Marcos Paulo preservou as hist\u00f3rias que seu pai contava. Que Henrique Scatolin n\u00e3o esqueceu a buzina da locomotiva russa ecoando na noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Que pessoas comuns, sem fanfarra ou reconhecimento oficial, decidiram que essas hist\u00f3rias mereciam sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um mundo obcecado com o novo, com o pr\u00f3ximo, com o futuro, h\u00e1 algo profundamente revolucion\u00e1rio em olhar para tr\u00e1s e dizer: <strong>&#8220;Isso importou. Isso merece ser lembrado.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os apitos que ainda ecoam<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, se voc\u00ea fechar os olhos em Cordeir\u00f3polis &nbsp;se conseguir abstrair o barulho dos carros, o burburinho urbano moderno &nbsp;talvez, apenas talvez, voc\u00ea consiga ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p>Um apito distante. Vindo de lugar nenhum e de toda parte ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O fantasma de uma locomotiva que se recusa a morrer completamente. Que insiste em assombrar, n\u00e3o com medo, mas com saudade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ferrovi\u00e1rios aposentados ouvem. Nos seus sonhos, nos seus devaneios, quando passam pelo espa\u00e7o vazio onde antes havia trilhos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Nas mem\u00f3rias de quem viveu, os trens ainda passam&#8221;<\/strong>, escreve \u00c2ngelo Rafael com poesia acidental. <strong>&#8220;Carregados de caf\u00e9, perfumados de chocolate, acompanhados por elefantes que caminham majestosos entre bin\u00e1rios enferrujados.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E ele est\u00e1 certo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma ferrovia que jamais ser\u00e1 desativada. Uma ferrovia que n\u00e3o depende de trilhos f\u00edsicos, de locomotivas de metal, de hor\u00e1rios da Companhia Paulista.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a ferrovia da mem\u00f3ria. E nela, trens ainda correm. Locomotivas ainda apitam. E gigantes de ferro condenados \u00e0 morte&#8230; ainda encontram for\u00e7as para uma \u00faltima viagem triunfante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Notas do autor sobre veracidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c2ngelo Rafael, em seu livro &#8220;Um Trem Para a Saudade&#8221;, \u00e9 honesto sobre as limita\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria oral:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Eu, autor deste livro, particularmente ouvi um relato interessante, por\u00e9m n\u00e3o sei afirmar sua autenticidade. Mas achei esse relato emocionante!&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa honestidade \u00e9 rara e preciosa. Hist\u00f3ria oral \u00e9 sempre assim &nbsp;camadas de mem\u00f3ria, emo\u00e7\u00e3o, tempo, criando narrativas que s\u00e3o verdadeiras no essencial mesmo quando imprecisas nos detalhes.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato documentado: locomotivas a vapor foram de fato reativadas temporariamente quando sistemas mais modernos falharam em v\u00e1rias ferrovias brasileiras nos anos 70. H\u00e1 registros fotogr\u00e1ficos e documenta\u00e7\u00e3o oficial desses eventos.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato emocional: ferrovi\u00e1rios e passageiros vivenciaram isso como milagre, como justi\u00e7a po\u00e9tica, como as velhas guerreiras tendo sua \u00faltima hora de gl\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos os fatos s\u00e3o verdadeiros. Ambos importam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para saber mais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esta hist\u00f3ria e muitas outras est\u00e3o documentadas no livro <strong>&#8220;Um Trem Para a Saudade&#8221;<\/strong>, de <strong>\u00c2ngelo Rafael<\/strong>, resultado de anos de pesquisa sobre o Ramal de Descalvado da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho conta com a colabora\u00e7\u00e3o de <strong>Anderson Alves dos Santos (Kovero)<\/strong> e <strong>Leandro Guidini<\/strong>, al\u00e9m de diversos preservadores da mem\u00f3ria ferrovi\u00e1ria do interior paulista que generosamente compartilharam seus relatos, fotografias e documentos.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o eles que mant\u00eam viva a chama da mem\u00f3ria ferrovi\u00e1ria. S\u00e3o eles que garantem que a Fila da Morte n\u00e3o tenha a \u00faltima palavra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que morre e o que permanece<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As locomotivas morreram. Fisicamente, definitivamente. Foram derretidas e se tornaram outras coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>A ferrovia morreu. Os trilhos foram arrancados. As esta\u00e7\u00f5es viraram museus, reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, ou simplesmente ru\u00ednas.<\/p>\n\n\n\n<p>O modo de vida ferrovi\u00e1rio morreu. N\u00e3o h\u00e1 mais foguistas, maquinistas de vapor, chefes de esta\u00e7\u00e3o com apitos e bandeirinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas algo n\u00e3o morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>A mem\u00f3ria n\u00e3o morreu. A emo\u00e7\u00e3o n\u00e3o morreu. O significado n\u00e3o morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>E enquanto houver pessoas que se importam, que pesquisam, que escrevem, que leem&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Os trens ainda correm. Em algum lugar entre a mem\u00f3ria e a saudade, eternamente apitando, eternamente vivos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Porque algumas hist\u00f3rias n\u00e3o morrem. Elas apenas esperam&#8230; para serem contadas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cr\u00e9ditos:<\/strong> Texto baseado no livro &#8220;Um Trem Para a Saudade&#8221; de \u00c2ngelo Rafael sobre o Ramal de Descalvado da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Pesquisa hist\u00f3rica, levantamento documental e compila\u00e7\u00e3o de relatos por \u00c2ngelo Rafael, com colabora\u00e7\u00e3o de Anderson Alves dos Santos (Kovero), Leandro Guidini e demais preservadores da mem\u00f3ria ferrovi\u00e1ria do interior paulista<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"638\" height=\"709\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/livro.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-629\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/livro.jpg 638w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/livro-270x300.jpg 270w\" sizes=\"(max-width: 638px) 100vw, 638px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assista o v\u00eddeo completo dessa hist\u00f3ria <a href=\"https:\/\/youtu.be\/n9NE9Kylk7w?si=XmgZ98aUgePFxSFU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clicando aqui<\/a> <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Observa\u00e7\u00e3o: As informa\u00e7\u00f5es tanto do livro quanto do v\u00eddeo foram baseados em relatos de parentes e amigos de ferrovi\u00e1rios, podendo haver controv\u00e9rsias nos dados.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando gigantes de ferro foram condenados ao esquecimento, mas retornaram para um derradeiro ato de gl\u00f3ria H\u00e1 hist\u00f3rias que a poeira do tempo tenta apagar. Hist\u00f3rias que acontecem nas sombras, longe dos holofotes, testemunhadas apenas por quem teve a sorte &nbsp;ou o peso &nbsp;de estar presente. A hist\u00f3ria da &#8220;Fila da Morte&#8221; de Cordeir\u00f3polis \u00e9 uma dessas narrativas quase perdidas, salva da extin\u00e7\u00e3o apenas pela mem\u00f3ria teimosa de ferrovi\u00e1rios, pelo caderno de anota\u00e7\u00f5es de um jovem pesquisador, e pela recusa de alguns em deixar que o esquecimento vencesse. Esta \u00e9 a hist\u00f3ria de quando a morte foi derrotada. Temporariamente. Mas derrotada. Um domingo de gl\u00f3ria que ningu\u00e9m sabia ser o \u00faltimo Imagine um domingo de sol, 17 de agosto de 1958. A Esta\u00e7\u00e3o de Cordeir\u00f3polis fervilha de vida. Homens de palet\u00f3 e gravata aguardam pacificamente nas plataformas em formato de flecha &nbsp;uma das marcas arquitet\u00f4nicas que faziam desta uma das mais belas esta\u00e7\u00f5es da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. O bar da esta\u00e7\u00e3o serve past\u00e9is quentinhos e refrigerantes gelados. Crian\u00e7as correm pela plataforma, fascinadas por cada locomotiva que chega apitando, envolta em nuvens de vapor branco. A esta\u00e7\u00e3o, inaugurada em 11 de agosto de 1876 como &#8220;Cordeiros&#8221;, havia sido ampliada em 1914, ganhando n\u00e3o apenas seu famoso bar, mas tamb\u00e9m dois grandes armaz\u00e9ns, oficinas de locomotivas, uma col\u00f4nia para ferrovi\u00e1rios e at\u00e9 uma subesta\u00e7\u00e3o el\u00e9trica para alimentar as modernas locomotivas el\u00e9tricas que j\u00e1 circulavam pela linha tronco. &#8220;Quando crian\u00e7a, eu vivia na esta\u00e7\u00e3o vendo o movimento dos trens&#8221;, relembra Henrique Scatolin, que cresceu em Cordeir\u00f3polis. &#8220;Isso na d\u00e9cada de 80. Mas meu pai contava que nos anos 50, aquilo era um formigueiro humano. Gente embarcando, desembarcando, mercadorias sendo carregadas. A esta\u00e7\u00e3o era o cora\u00e7\u00e3o da cidade.&#8221; Naquele domingo de 1958, ningu\u00e9m imaginava que apenas dez anos depois, aquele cora\u00e7\u00e3o pararia de bater. 1968: O ano em que as locomotivas foram sentenciadas A d\u00e9cada de 1960 foi cruel com as locomotivas a vapor. O que antes eram rainhas inquestion\u00e1veis dos trilhos, s\u00edmbolos de progresso e modernidade, tornaram-se rapidamente obsoletas aos olhos dos administradores ferrovi\u00e1rios. As locomotivas diesel eram mais eficientes, n\u00e3o precisavam parar para reabastecer \u00e1gua, n\u00e3o exigiam foguistas para alimentar fornalhas, n\u00e3o soltavam fuligem que sujava vag\u00f5es e irritava passageiros. O progresso, como sempre, tinha pressa. Em 1968, a Companhia Paulista &nbsp;j\u00e1 ent\u00e3o estatizada &nbsp;decretou a &#8220;extin\u00e7\u00e3o&#8221; oficial das locomotivas a vapor. Todas elas. Centenas de m\u00e1quinas que haviam constru\u00eddo o interior paulista sobre trilhos, que haviam transportado o caf\u00e9 que enriqueceu S\u00e3o Paulo, que haviam levado imigrantes para suas novas vidas, foram aposentadas de uma vez. Mas o que fazer com tantos gigantes de ferro? A resposta veio fria e pragm\u00e1tica: sucata. E Cordeir\u00f3polis, ironicamente, foi escolhida como um dos locais para executar a senten\u00e7a. A fila da morte: onde locomotivas aguardavam o fim Havia um p\u00e1tio isolado na esta\u00e7\u00e3o. Uma linha de desvio onde, ao longo de 1968, locomotivas a vapor come\u00e7aram a ser enfileiradas. Paradas. Silenciosas. Sem fogo nas fornalhas, sem vapor nas caldeiras, sem vida nos cilindros. Os ferrovi\u00e1rios come\u00e7aram a chamar aquele lugar, em sussurros carregados de tristeza, de &#8220;A Fila da Morte&#8221;. &#8220;Era de partir o cora\u00e7\u00e3o&#8221;, conta Marcos Paulo, ex-ferrovi\u00e1rio e filho de ferrovi\u00e1rio que trabalhou em Cordeir\u00f3polis. &#8220;Ver aquelas m\u00e1quinas todas enfileiradas, paradas, esperando. Eram m\u00e1quinas que a gente conhecia, que tinha nomes, hist\u00f3rias. A locomotiva tal que nunca tinha dado problema, a outra que era &#8216;temperamental&#8217; mas tinha for\u00e7a de sobra. De repente, todas ali&#8230; mortas.&#8221; As locomotivas ficavam meses naquela linha. Enferrujando lentamente. Sendo invadidas por p\u00e1ssaros que faziam ninhos nas cabines. Perdendo a pintura sob o sol e a chuva. Gigantes de ferro sendo humilhados pelo tempo. E ent\u00e3o, em noites sem lua, os caminh\u00f5es chegavam. O segredo das madrugadas: escondendo a vergonha O que acontecia de madrugada em Cordeir\u00f3polis entre 1968 e o in\u00edcio dos anos 70 era conduzido com o sigilo de uma opera\u00e7\u00e3o militar clandestina. A Companhia Paulista mudava os hor\u00e1rios dos trens noturnos. Desviava composi\u00e7\u00f5es. Tudo para que n\u00e3o houvesse testemunhas quando as locomotivas eram carregadas em carretas especiais ou colocadas sobre vag\u00f5es prancha. &#8220;Meu pai contava que faziam tudo de madrugada para evitar &#8216;esc\u00e2ndalo&#8217;&#8221;, revela Marcos Paulo. &#8220;N\u00e3o queriam fot\u00f3grafos, n\u00e3o queriam curiosos, n\u00e3o queriam gente vendo aquelas locomotivas sendo levadas. Era como se estivessem escondendo um crime.&#8221; E talvez estivessem. Um crime contra a mem\u00f3ria, contra a hist\u00f3ria, contra m\u00e1quinas que haviam servido fielmente por d\u00e9cadas. Muitas locomotivas &nbsp;n\u00e3o apenas da Paulista, mas tamb\u00e9m da Sorocabana, da Noroeste do Brasil &nbsp;passavam pela linha tronco em vag\u00f5es prancha, cobertas parcialmente, sempre de madrugada. O destino era sempre o mesmo: fundi\u00e7\u00f5es, ferros-velhos, desmanches. Gigantes de ferro sendo transformados em panelas, pregos, vergalh\u00f5es. Suas almas met\u00e1licas fundidas e reencarnadas em objetos banais, desprovidos de gl\u00f3ria. &#8220;Teve ferrovi\u00e1rio que chorou&#8221;, sussurra Marcos Paulo. &#8220;Principalmente os mais velhos. Era como ver amigos sendo executados.&#8221; Anos 70: Quando o progresso fracassou A ironia tem um senso de humor peculiar. Nos anos 70 &nbsp;as datas variam nos relatos, aconteceu algo que ningu\u00e9m havia previsto: a subesta\u00e7\u00e3o el\u00e9trica que alimentava as locomotivas el\u00e9tricas da linha tronco apresentou problemas graves. As locomotivas el\u00e9tricas, aquelas maravilhas da modernidade, pararam. Todas. &#8220;Disseram que iam resolver logo&#8221;, conta a professora aposentada em um relato que \u00c2ngelo Rafael, autor de &#8220;Um Trem Para a Saudade&#8221;, considera um dos mais emocionantes que coletou. &#8220;Mas come\u00e7ou a atrasar. Colocaram as m\u00e1quinas a \u00f3leo [locomotivas diesel] para fazer o servi\u00e7o das el\u00e9tricas, mas n\u00e3o davam conta.&#8221; A ferrovia entrou em colapso. Cargas atrasando. Passageiros indignados. A Companhia Paulista, sempre t\u00e3o orgulhosa de sua pontualidade brit\u00e2nica, vendo seu sistema desmoronar. E ent\u00e3o, algu\u00e9m teve uma ideia desesperada. Uma ideia imposs\u00edvel. Uma ideia que soava como loucura: e se reacend\u00eassemos as locomotivas a vapor? O imposs\u00edvel: Ressuscitando os mortos Imagine a cena. Ferrovi\u00e1rios veteranos sendo chamados de volta. Homens que haviam se despedido das m\u00e1quinas a vapor, que haviam limpado suas \u00faltimas caldeiras com l\u00e1grimas nos olhos, retornando aos p\u00e1tios de Cordeir\u00f3polis e outras esta\u00e7\u00f5es. Abrindo as portas das<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":625,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-624","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/624","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=624"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/624\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":636,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/624\/revisions\/636"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/625"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=624"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=624"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=624"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}