{"id":564,"date":"2025-11-07T16:27:14","date_gmt":"2025-11-07T19:27:14","guid":{"rendered":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/?p=564"},"modified":"2025-11-07T16:27:17","modified_gmt":"2025-11-07T19:27:17","slug":"os-exorcismos-de-cascalho-as-historias-que-ninguem-esqueceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/2025\/11\/07\/os-exorcismos-de-cascalho-as-historias-que-ninguem-esqueceu\/","title":{"rendered":"Os exorcismos de Cascalho: As hist\u00f3rias que ningu\u00e9m esqueceu"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>&#8220;Chegava romeiro dentro de um caminh\u00e3o, assim, acorrentado.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esta frase n\u00e3o vem de um filme de terror. Vem da mem\u00f3ria de Sr. Guilherme, morador de Cascalho, descrevendo o que acontecia aos finais de semana na pequena col\u00f4nia italiana.<\/p>\n\n\n\n<p>No artigo anterior, conhecemos padre Luis Stefanello, o mission\u00e1rio que chegou em 1911 para cuidar dos imigrantes italianos e acabou se tornando uma lenda. Vimos como sua fama se espalhou. Como pessoas vinham de estados inteiros procur\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ainda n\u00e3o respondemos \u00e0 pergunta que todos fazem: <strong>o que realmente acontecia em Cascalho?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, vamos mergulhar nos relatos. Nas hist\u00f3rias que at\u00e9 hoje fazem os mais velhos baixarem a voz. Nos casos que transformaram um simples padre em &#8220;o exorcista mais poderoso do interior de S\u00e3o Paulo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/padrestefanello_tanarquivo-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-565\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/padrestefanello_tanarquivo-1024x683.png 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/padrestefanello_tanarquivo-300x200.png 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/padrestefanello_tanarquivo-768x512.png 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/padrestefanello_tanarquivo.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto reproduzida por IA\n<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Prepare-se. Algumas dessas hist\u00f3rias v\u00e3o te arrepiar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Como vinha gente&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Domingo de manh\u00e3 em Cascalho. Anos 1930, 1940, 1950.<\/p>\n\n\n\n<p>A rotina era sempre a mesma: a partir de s\u00e1bado \u00e0 noite, come\u00e7avam a chegar os caminh\u00f5es. Vinham de Limeira, Piracicaba, Cordeir\u00f3polis. Mas tamb\u00e9m de mais longe, Minas Gerais, Paran\u00e1, at\u00e9 Goi\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Vinham tudo de fora. Vinham de longe. At\u00e9 do Paran\u00e1.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O movimento era t\u00e3o intenso que transformou a economia local. O <strong>Hotel Viaduto<\/strong> vivia lotado de peregrinos que precisavam pernoitar. O <strong>Bar do Rosolem<\/strong> preparava almo\u00e7os para dezenas de fam\u00edlias. Havia at\u00e9 uma linha informal de <strong>carros de pra\u00e7a<\/strong> fazendo o trajeto Cordeir\u00f3polis-Cascalho exclusivamente para levar gente ao padre.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Em Cordeir\u00f3polis a Cascalho tinha os autom\u00f3veis, que tinha aquele senhor Rocha e o Romano. Eles viviam s\u00f3 de trazer gente aqui&#8221;<\/strong>, &nbsp;lembrava Sr. Guilherme.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que essas pessoas vinham buscar?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Liberta\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O homem que tinha o diabo<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos come\u00e7ar com uma das hist\u00f3rias mais detalhadas, contada por Sr. Jo\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Gente l\u00e1 de Minas, do fundo de Minas, de caminh\u00e3o coberto e encerrado, aparecia cheio de gente. S\u00f3 que ele tinha posto uma lei: que ele s\u00f3 dava ben\u00e7\u00e3o a uma hora da manh\u00e3, antes e depois ele n\u00e3o atendia ningu\u00e9m mais, porque era demais, por causa do servi\u00e7o dele de atender os doentes.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Imagine a cena. Uma hora da madrugada. A igreja \u00e0s escuras. Uma multid\u00e3o esperando em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o o padre chegava.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Ele dizia que era o diabo: &#8220;Voc\u00ea t\u00e1 com o diabo, mas vai melhorar&#8221;. Ele dava a ben\u00e7\u00e3o, o homem, \u00e0s vezes, se jogava no ch\u00e3o&#8230;. e o padre ia l\u00e1 colocava as vestes da missa e ia rezar a missa e o homem ali ningu\u00e9m punha a m\u00e3o.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pessoa que estava sendo exorcizada se contorcia, gritava, tentava fugir. Mas ningu\u00e9m podia tocar nela. Era o momento do confronto direto entre o padre e o que ele acreditava ser o esp\u00edrito maligno.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/fotopadrestefanello_tanoarquivp-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-531\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/fotopadrestefanello_tanoarquivp-1024x683.png 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/fotopadrestefanello_tanoarquivp-300x200.png 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/fotopadrestefanello_tanoarquivp-768x512.png 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/fotopadrestefanello_tanoarquivp.png 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto reproduzida por IA a partir da foto original<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;O homem, \u00e0s vezes, se jogava no ch\u00e3o, \u00e0s vezes, queria fazer&#8230;, passava aquilo.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Passava.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise terminava. A pessoa ficava quieta. E muitos diziam estar curados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alexandre: O jovem que vivia com o padre<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos casos mais emblem\u00e1ticos foi o de Alexandre.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Sr. Fausto Stefanello (sobrinho do padre), Alexandre era um jovem que morava com Pe. Luiz. Tinha crises violentas, convuls\u00f5es, gritos, comportamento agressivo. Hoje, provavelmente seria diagnosticado com epilepsia. Na \u00e9poca, acreditava-se que era possess\u00e3o demon\u00edaca.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas aqui est\u00e1 o detalhe que humaniza tudo:<\/strong> Padre Stefanello n\u00e3o abandonou o rapaz. Ao contr\u00e1rio. Acolheu-o em sua pr\u00f3pria casa. Cuidava dele. Tentava cur\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>As tentativas de exorcismo foram muitas. O padre insistia, mesmo quando parecia n\u00e3o haver resultado. At\u00e9 que, segundo os relatos, Alexandre foi morar em outra cidade e teve uma vida relativamente normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Curou-se? Foi a f\u00e9? Foi o tempo? Foi a medica\u00e7\u00e3o que eventualmente conseguiu?<\/p>\n\n\n\n<p>O povo de Cascalho prefere acreditar que foi o padre. E talvez, de certa forma, tenha sido, &nbsp;n\u00e3o necessariamente por expulsar um dem\u00f4nio, mas por oferecer acolhida, cuidado e esperan\u00e7a quando ningu\u00e9m mais sabia o que fazer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As irm\u00e3s: Sete noites de terror<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9, sem d\u00favida, uma das hist\u00f3rias mais impressionantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas irm\u00e3s da fam\u00edlia Coletta, vindas de Araras, come\u00e7aram a ter comportamentos estranhos. Segundo os relatos, <strong>cada uma delas estava possu\u00edda por sete esp\u00edritos<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sete.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dona Em\u00edlia contava que Padre Stefanello teve que trabalhar durante <strong>sete noites consecutivas<\/strong> para expulsar os dem\u00f4nios.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, a primeira vez que tirou, que veio ali, foi umas mo\u00e7as do Coletta, duas irm\u00e3s que moravam em Araras. Diz que elas tinham 7 esp\u00edritos cada uma. Elas vieram a\u00ed 7 noites. Toda a noite enchia a igreja de gente, porque a primeira vez, elas &#8216;trepavam&#8217; pra parede.  Ele trocava, ele molhava de novo. Ele lutou tanto, mas tanto pra tirar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Leia de novo essa passagem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Trepavam na parede.&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As mo\u00e7as, durante o exorcismo, subiam pelas paredes da igreja. A camisa do padre ficava ensopada de suor, ele precisava trocar e continuar. A luta era f\u00edsica, mental, espiritual.<\/p>\n\n\n\n<p>E a igreja? <strong>Lotada.<\/strong> A comunidade inteira acompanhava, noite ap\u00f3s noite, para ver o desfecho.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de sete noites, segundo Dona Em\u00edlia, as irm\u00e3s foram libertadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A mulher que subia em \u00e1rvore<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea acha que a hist\u00f3ria anterior foi dif\u00edcil de acreditar, espere por esta.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Augusta contava sobre uma mulher que, quando estava em crise, <strong>subia em \u00e1rvores<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E depois, o homem levou embora a mulher. Ela tinha cinco filhos. Dizia que ela subia em \u00e1rvore, parecia um macaco. J\u00e1 pensou uma mulher subir em \u00e1rvore? Pra ver que n\u00e3o tem ju\u00edzo nenhum. Ele falou que tinha ainda cinco filhos em casa.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher foi levada ao padre. Ele a exorcizou. Segundo o relato, ela melhorou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que era aquilo? Surto psic\u00f3tico? Histeria? Transtorno dissociativo? Ou, como acreditava o povo, possess\u00e3o demon\u00edaca?<\/p>\n\n\n\n<p>Imposs\u00edvel saber com certeza. Mas uma coisa \u00e9 certa: <strong>aquela fam\u00edlia n\u00e3o tinha mais para onde ir<\/strong>. E padre Stefanello acolheu. Tentou ajudar. Fez o que estava ao seu alcance.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O ritual: Como funcionava um exorcismo em Cascalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dona Santa, uma das testemunhas descreveu detalhadamente como padre Stefanello conduzia os exorcismos:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. A \u00e1gua benta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O crucifixo era grande, e ele dizia: &#8216;-Eu te bato com o crucifixo se voc\u00ea n\u00e3o vai embora dessa pessoa a\u00ed&#8217;. Ent\u00e3o, disse que sa\u00eda desse homem um esp\u00edrito, mas ningu\u00e9m de n\u00f3s via, mas ele, eu acho que via. E a\u00ed, ele dava a ben\u00e7\u00e3o, tudo, em nome de Jesus, e tudo ficavam bom.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e1gua benta n\u00e3o era apenas simb\u00f3lica. Era, segundo a cren\u00e7a, uma arma espiritual.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Yolanda lembrava:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O crucifixo, a \u00e1gua benta, e jogava em cima da pessoa que estava&#8230; \u00e0s vezes, ele come\u00e7ava a falar, \u00e0s vezes uma pessoa l\u00e1 do fundo (da igreja) tamb\u00e9m ficava ruim, ent\u00e3o vinha na frente. O padre dava a ben\u00e7\u00e3o, com crucifixo e a \u00e1gua benta, e melhorava.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas havia um detalhe importante:<\/strong> a \u00e1gua benta queimava.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fisicamente, ningu\u00e9m tinha queimaduras reais. Mas as pessoas possu\u00eddas <strong>sentiam<\/strong> como se queimasse. Sr. Paulo lembrava:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A \u00e1gua benta queimava que nem brasa pra ele, pro diabo. A \u00e1gua benta queimava.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Era um sinal. Quanto mais a pessoa gritava ao contato com a \u00e1gua benta, mais certo estava Pe. Stefanello de que estava diante de uma possess\u00e3o real.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. O crucifixo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O padre n\u00e3o usava apenas \u00e1gua benta. Usava o <strong>crucifixo<\/strong> como instrumento de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Batia, batia, batia at\u00e9 o esp\u00edrito sair e ele ficava bom&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma luta f\u00edsica. O padre <strong>batia<\/strong> no possu\u00eddo com o crucifixo, n\u00e3o para machuc\u00e1-lo, mas para &#8220;bater no dem\u00f4nio&#8221;. A pessoa n\u00e3o sentia dor f\u00edsica (segundo os relatos), mas o esp\u00edrito maligno sim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. As ora\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Durante todo o processo, Pe. Stefanello rezava sem parar. Usava ora\u00e7\u00f5es do <strong>Ritual Romano de 1880<\/strong>, &nbsp;o manual oficial da Igreja Cat\u00f3lica para exorcismos.<\/p>\n\n\n\n<p>As ora\u00e7\u00f5es eram em latim, poderosas, e invocavam a autoridade de Jesus Cristo sobre os dem\u00f4nios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. A ajuda da comunidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os exorcismos n\u00e3o eram solit\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a pessoa entrava em crise se debatendo, gritando, tentando fugir, era necess\u00e1rio que outras pessoas a segurassem. Dona Em\u00edlia lembrava:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E da\u00ed, quando a gente tava na igreja e, \u00e0s vezes, quase s\u00f3 tinha gente de fora. Mas, na segunda missa, j\u00e1 tinha mais gente, quase s\u00f3 gente de fora, porque vinha tomar a ben\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, \u00e0s vezes, a gente tava assim e n\u00e3o sabia o que tinham, porque estavam quietos; quando o padre dava a ben\u00e7\u00e3o, come\u00e7avam a levantar e gritar.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade tinha um papel: segurar, orar junto, dar suporte. Era uma a\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5. O momento delicado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O exorcismo tinha fases. A mais delicada era quando o padre precisava <strong>ter certeza<\/strong> de que a pessoa estava realmente livre.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Aparecida descrevia:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O padre gritava, batia, xingava: &#8216;-Voc\u00ea n\u00e3o vai sair?&#8217; e o padre perguntava o porqu\u00ea. E ele respondia: &#8216;-N\u00e3o, porque eu t\u00f4 bem aqui&#8217;. D\u00e1 medo, viu? Dava medo de ver. Mas tirava. Gritava, batia, mas a pessoa n\u00e3o sentia nada, n\u00e3o sentia nada.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O &#8220;diabo&#8221; respondia. Dialogava. Recusava-se a sair.<\/p>\n\n\n\n<p>E era a\u00ed que Pe. Stefanello intensificava. Batia mais. Gritava mais. Orava mais.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 que, finalmente, a pessoa <strong>desmaiava<\/strong> ou <strong>ficava tranquila<\/strong>. Era o sinal de que o esp\u00edrito havia sa\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas fizeram mal ao padre?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma pergunta curiosa surge: se Pe. Stefanello enfrentava dem\u00f4nios t\u00e3o poderosos, ele pr\u00f3prio n\u00e3o corria perigo?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta, segundo Dona Em\u00edlia, era n\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Mas fizeram mal pra ele numa fruta&#8230; Tem neg\u00f3cio de namoro&#8230; Ele comeu. Ent\u00e3o, aquilo, cada vez que o padre tirava o esp\u00edrito, ele vomitava aquilo, mas ele n\u00e3o largava dele, porque ele comeu aquele mal e, comendo, \u00e9 mais dif\u00edcil de livrar. Ent\u00e3o, ele vomitava, coisava, depois voltava de novo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Intrigante, n\u00e3o? Havia uma cren\u00e7a de que algu\u00e9m, por ci\u00fame ou inveja (provavelmente relacionado a &#8220;namoro&#8221;), tentou enfeiti\u00e7ar o padre colocando algo numa fruta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas mesmo isso n\u00e3o o parou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O mal podia voltar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outra quest\u00e3o importante: as pessoas ficavam curadas permanentemente?<\/p>\n\n\n\n<p>Nem sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Rosa lembrava de um caso:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E veio um mo\u00e7o do Paran\u00e1 que vivia sempre doente. Achava que ele tinha um esp\u00edrito mal e coisa e outra. E ficou morando bastante tempo com o padre Luiz. Depois, quando o padre Luiz foi embora, eu acho que ele foi morrer l\u00e1 no Paran\u00e1. Eu sei que ele morou bastante  a\u00ed, com ele. De vez em quando ele ficava ruim, esse mo\u00e7o. Eu sei que o padre Luiz dava a ben\u00e7\u00e3o nele, mas nem assim. De vez em quando ele ficava ruim.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja: <strong>havia reca\u00eddas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Por qu\u00ea? Para os que acreditavam em possess\u00e3o, era porque o dem\u00f4nio voltava. Para os c\u00e9ticos, era porque a doen\u00e7a mental ou neurol\u00f3gica persistia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Pe. Stefanello n\u00e3o desistia. Continuava tentando. Continuava acolhendo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os c\u00e9ticos de Cascalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nem todo mundo acreditava.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Rosa, em sua sinceridade, admitia:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ah, eu acredito, n\u00e9? Porque eu via as pessoas ficar bem melhor, muita gente doente ficava boa, e eu era nova, mas eu acredito. E depois, ele fez o meu casamento tamb\u00e9m. Ele ficou aqui 42 anos, o padre Luiz.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu acredito&#8221;. Mas note o tom: ela viu, mas n\u00e3o tem certeza absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros eram mais diretos. Algumas pessoas achavam que <strong>n\u00e3o era o dem\u00f4nio, mas uma doen\u00e7a<\/strong>, &nbsp;um &#8220;mo\u00e7o&#8221; epil\u00e9tico, como chamavam.<\/p>\n\n\n\n<p>E havia quem achasse que era tudo <strong>teatro<\/strong>. Dona Santa, por exemplo, via com ceticismo:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Claro que ele batia. Ele batia, mas diz que o corpo da pessoa n\u00e3o sentia nada, porque ele tava batendo no dem\u00f4nio. Era o dem\u00f4nio que tava sentindo. Ele tinha um poder que s\u00f3 vendo. Todos os padres t\u00eam esse poder, s\u00f3 que precisa ter for\u00e7a. E ele tirava mesmo, mas vinha gente de longe, e ele curava.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Diz que&#8221;. Note a escolha de palavras. Ela conta o que ouviu, mas n\u00e3o necessariamente acredita completamente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00e9 ou ci\u00eancia? A pergunta que n\u00e3o cala<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos ao ponto mais delicado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que realmente acontecia em Cascalho?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vamos ser honestos: \u00e9 imposs\u00edvel ter certeza. Mas podemos analisar as possibilidades:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hip\u00f3tese 1: Doen\u00e7as mentais e neurol\u00f3gicas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muitos dos sintomas descritos correspondem a:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Epilepsia<\/strong> (convuls\u00f5es, perda de consci\u00eancia)<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Esquizofrenia<\/strong> (vozes, comportamento bizarro)<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Transtornos dissociativos<\/strong> (m\u00faltiplas personalidades)<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Histeria coletiva<\/strong> (cont\u00e1gio emocional)<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>No interior dos anos 1910-1950, <strong>n\u00e3o havia psiquiatras<\/strong>. N\u00e3o havia medica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia diagn\u00f3sticos. Uma pessoa com epilepsia era vista como possu\u00edda. Uma pessoa com surto psic\u00f3tico era considerada endemoniada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hip\u00f3tese 2: efeito placebo e poder da f\u00e9<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estudos modernos mostram que <strong>a f\u00e9 pode curar<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o no sentido sobrenatural, mas no sentido de que acreditar profundamente em algo pode:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Reduzir estresse<\/li>\n\n\n\n<li>Melhorar sintomas psicossom\u00e1ticos<\/li>\n\n\n\n<li>Dar esperan\u00e7a que mobiliza o corpo<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Pe. Stefanello oferecia algo poderoso: <strong>certeza<\/strong>. Ele n\u00e3o duvidava. E quando algu\u00e9m acredita totalmente que vai ser curado, muitas vezes melhora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hip\u00f3tese 3: possess\u00e3o demon\u00edaca real<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para quem tem f\u00e9, esta \u00e9 uma possibilidade real.<\/p>\n\n\n\n<p>A igreja cat\u00f3lica at\u00e9 hoje reconhece a exist\u00eancia de dem\u00f4nios e mant\u00e9m exorcistas oficiais. O Ritual Romano continua sendo usado.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem somos n\u00f3s para dizer que milhares de pessoas ao longo de d\u00e9cadas estavam todas enganadas?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A resposta honesta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o sabemos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E talvez n\u00e3o seja necess\u00e1rio saber.<\/p>\n\n\n\n<p>O que importa \u00e9 que <strong>Pe. Stefanello oferecia algo que ningu\u00e9m mais oferecia<\/strong>: acolhida, esperan\u00e7a, cuidado. Para pessoas marginalizadas, doentes, desesperadas, ele era a \u00faltima chance.<\/p>\n\n\n\n<p>E para muitas delas, <strong>funcionou<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O legado: quando Cascalho perdeu seu exorcista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1953, Pe. Luis Stefanello foi embora.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarenta e dois anos ap\u00f3s chegar, ele partiu. E Cascalho ficou \u00f3rf\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o terminou a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele faleceu em 1964 em \u00c1guas de Santa B\u00e1rbara, onde ele tamb\u00e9m havia trabalhado por pouco mais de 10 anos.  A comunidade de Cascalho ficou desolada. <strong>Queriam o padre de volta<\/strong>. Iniciou-se uma luta. Uma mobiliza\u00e7\u00e3o. D\u00e9cadas de peti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 que, finalmente, seus restos mortais foram trazidos de volta. Hoje, est\u00e3o no <strong>Altar do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus<\/strong> na par\u00f3quia de Cascalho, munic\u00edpio de Cordeir\u00f3polis, o seu bra\u00e7o direito.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali, os fi\u00e9is ainda v\u00e3o. Ainda rezam. Ainda acendem velas. Ainda pedem ajuda. No cemit\u00e9rio de Cascalho est\u00e1 parte do seu p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque para eles, Pe. Stefanello nunca morreu de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A mem\u00f3ria que n\u00e3o se apaga<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2003, a comunidade italiana de Cascalho celebrou 110 anos da chegada dos imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que fizeram? Organizaram um <strong>Encontro de Fam\u00edlias<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>As fam\u00edlias se reuniram. Trouxeram fotos antigas. Documentos. Objetos. Receitas. Hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>E, claro, <strong>falaram de Pe. Stefanello<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>As hist\u00f3rias foram contadas de novo. Os mais velhos relembraram. Os mais novos ouviram boquiabertos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sr. Paulo, em entrevista realizada em 2003, resumiu tudo:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O senhor n\u00e3o viu? Eu j\u00e1 falei hoje cedo. O lugar mais bonito do que esse que n\u00f3s vimos hoje aqui, s\u00f3 no c\u00e9u. Essa palavra eu j\u00e1 falei umas duas ou tr\u00eas vezes.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele estava falando da <strong>festa da padroeira<\/strong>. Mas poderia estar falando de algo maior: a mem\u00f3ria, a tradi\u00e7\u00e3o, a identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Cascalho hoje \u00e9 parte de Cordeir\u00f3polis. Muita gente nem sabe que o bairro existe. Mas l\u00e1, nas casas antigas, nas festas das fam\u00edlias, nas conversas dos mais velhos, <strong>Pe. Stefanello ainda vive<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O padre Luis Botteon continuou  o legado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quem cuidou por anos da par\u00f3quia foi <strong>Pe. Luis Botteon<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>E ele conhece a hist\u00f3ria. Respeita a mem\u00f3ria. E, segundo Sr. Fausto, continuou fazendo algo importante:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O padre Luis Stefanello tamb\u00e9m foi baluarte. Foi uma pena que ele saiu daqui, mas o bra\u00e7o dele t\u00e1 a\u00ed (se referindo ao altar do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus onde est\u00e1 depositado parte de padre Stefanello).&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho de Padre Stefanello nunca terminou. Seu bra\u00e7o direito, que aben\u00e7oou milhares, permanece no altar da igreja de Cascalho representando as b\u00ean\u00e7\u00e3os que distribuiu por 42 anos. E parte de seus restos mortais, o p\u00e9, descansa no cemit\u00e9rio, vigiando a comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reflex\u00e3o final: O que podemos aprender?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea chegou at\u00e9 aqui. Leu as hist\u00f3rias. Conheceu os casos. Talvez tenha se arrepiado. Talvez tenha duvidado. Talvez tenha acreditado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas independentemente da sua posi\u00e7\u00e3o sobre o sobrenatural, h\u00e1 li\u00e7\u00f5es universais nessa hist\u00f3ria:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. A import\u00e2ncia da Comunidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pe. Stefanello n\u00e3o trabalhava sozinho. A comunidade inteira participava dos exorcismos, das festas, da vida religiosa. Havia um senso de pertencimento, de cuidado m\u00fatuo, que hoje raramente vemos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. O poder da esperan\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas desesperadas, sem recursos, sem m\u00e9dicos, sem psic\u00f3logos, encontraram em Pe. Stefanello uma \u00faltima esperan\u00e7a. E para muitas, <strong>isso bastou<\/strong>. A esperan\u00e7a, em si, j\u00e1 \u00e9 terap\u00eautica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. A preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As fam\u00edlias de Cascalho fazem algo admir\u00e1vel: <strong>guardam suas hist\u00f3rias<\/strong>. Festas de fam\u00edlia viram reposit\u00f3rios de mem\u00f3ria. Fotos antigas s\u00e3o preservadas. Relatos s\u00e3o recontados.<\/p>\n\n\n\n<p>Num mundo cada vez mais individualista e amn\u00e9sico, eles nos ensinam que <strong>lembrar \u00e9 resistir<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. O respeito pela f\u00e9 alheia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea pode n\u00e3o acreditar em dem\u00f4nios. Pode achar que tudo era doen\u00e7a mental. Mas aquelas pessoas <strong>acreditavam<\/strong>. E essa f\u00e9 deu sentido, consolo e cura para suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Zombar disso \u00e9 zombar da dor e da esperan\u00e7a humanas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos ao fim desta jornada por Cascalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Conhecemos o padre. Ouvimos os casos. Vimos os rituais. Refletimos sobre f\u00e9, ci\u00eancia e mist\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, a pergunta \u00e9: <strong>e voc\u00ea, o que acha?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Acredita que eram possess\u00f5es reais?<\/li>\n\n\n\n<li>Acha que eram doen\u00e7as mal diagnosticadas?<\/li>\n\n\n\n<li>Acredita no poder da f\u00e9 de curar?<\/li>\n\n\n\n<li>Tem hist\u00f3rias parecidas na sua fam\u00edlia?<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Queremos ouvir voc\u00ea!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Fonte Hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo foi baseado no estudo acad\u00eamico <strong>&#8220;A mem\u00f3ria de um padre exorcista: relatos da col\u00f4nia de Cascalho&#8221;<\/strong>, de Marcio Luiz Fernandes (Pontificia Universit\u00e1 Lateranense Italia) e Marina Massimi,(Universidade de S\u00e3o Paulo &#8211; Brasil)  publicado <em>Memorandum<\/em> (2004). <\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa utilizou entrevistas com moradores antigos de Cascalho (atual Cordeir\u00f3polis) realizadas em 1999 e 2003, al\u00e9m de documentos da Par\u00f3quia de Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o e do Arquivo Geral da Congrega\u00e7\u00e3o Escalabriana em Roma. O texto aqui apresentado \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o narrativa do site T\u00e1 no Arquivo, mantendo os relatos documentados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Entrevistados citados:<\/strong> Dona Rosa, Dona Augusta, Dona Santa, Dona Em\u00edlia, Dona Yolanda, Dona Aparecida, Sr. Paulo, Sr. Guilherme, Sr. Jo\u00e3o, Sr. Fausto Stefanello (sobrinho do padre).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/2025\/10\/31\/o-padre-que-veio-da-italia-e-mudou-cascalho-para-sempre\/\"><strong>Leia tamb\u00e9m o primeiro artigo que conta a hist\u00f3ria da chegada do padre Luiz Stefanello a Cascalho, clicando aqui.<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Compartilhe sua hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sua fam\u00edlia tem hist\u00f3rias de f\u00e9 que atravessaram gera\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Conheceu algu\u00e9m que foi benzido por Pe. Stefanello? Tem mem\u00f3rias de exorcismos, benzedeiras, ou outros padres que marcaram sua regi\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mande para n\u00f3s!<\/strong> Cada hist\u00f3ria ajuda a preservar a mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>\ud83d\udce7 Email: tanoarquivo10@gmail.com<br>\ud83d\udcac DM no Instagram: @tano_arquivo<br>\ud83d\udcf1 WhatsApp: 19 9 9749-4199<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gostou dessa s\u00e9rie?<\/strong> Compartilhe com amigos e familiares de Cordeir\u00f3polis. Essa hist\u00f3ria merece ser conhecida.<\/p>\n\n\n\n<p><em>T\u00e1 No Arquivo &#8211; Desenterrando hist\u00f3rias que merecem ser contadas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Fique atento aqui na p\u00e1gina, pois mais hist\u00f3rias est\u00e3o sendo produzidas baseados nos relatos do padre Luiz Stefanello. O pr\u00f3ximo ser\u00e1 sua trajet\u00f3ria em \u00c1guas de Santa B\u00e1rbara.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Os exorcismos de Cascalho - As hist\u00f3rias que ningu\u00e9m esqueceu  \" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GhdOcFhd3P4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Chegava romeiro dentro de um caminh\u00e3o, assim, acorrentado.&#8221; Esta frase n\u00e3o vem de um filme de terror. Vem da mem\u00f3ria de Sr. Guilherme, morador de Cascalho, descrevendo o que acontecia aos finais de semana na pequena col\u00f4nia italiana. No artigo anterior, conhecemos padre Luis Stefanello, o mission\u00e1rio que chegou em 1911 para cuidar dos imigrantes italianos e acabou se tornando uma lenda. Vimos como sua fama se espalhou. Como pessoas vinham de estados inteiros procur\u00e1-lo. Mas ainda n\u00e3o respondemos \u00e0 pergunta que todos fazem: o que realmente acontecia em Cascalho? Hoje, vamos mergulhar nos relatos. Nas hist\u00f3rias que at\u00e9 hoje fazem os mais velhos baixarem a voz. Nos casos que transformaram um simples padre em &#8220;o exorcista mais poderoso do interior de S\u00e3o Paulo&#8221;. Prepare-se. Algumas dessas hist\u00f3rias v\u00e3o te arrepiar. &#8220;Como vinha gente&#8221; Domingo de manh\u00e3 em Cascalho. Anos 1930, 1940, 1950. A rotina era sempre a mesma: a partir de s\u00e1bado \u00e0 noite, come\u00e7avam a chegar os caminh\u00f5es. Vinham de Limeira, Piracicaba, Cordeir\u00f3polis. Mas tamb\u00e9m de mais longe, Minas Gerais, Paran\u00e1, at\u00e9 Goi\u00e1s. &#8220;Vinham tudo de fora. Vinham de longe. At\u00e9 do Paran\u00e1.&#8221; O movimento era t\u00e3o intenso que transformou a economia local. O Hotel Viaduto vivia lotado de peregrinos que precisavam pernoitar. O Bar do Rosolem preparava almo\u00e7os para dezenas de fam\u00edlias. Havia at\u00e9 uma linha informal de carros de pra\u00e7a fazendo o trajeto Cordeir\u00f3polis-Cascalho exclusivamente para levar gente ao padre. &#8220;Em Cordeir\u00f3polis a Cascalho tinha os autom\u00f3veis, que tinha aquele senhor Rocha e o Romano. Eles viviam s\u00f3 de trazer gente aqui&#8221;, &nbsp;lembrava Sr. Guilherme. Mas o que essas pessoas vinham buscar? Liberta\u00e7\u00e3o. O homem que tinha o diabo. Vamos come\u00e7ar com uma das hist\u00f3rias mais detalhadas, contada por Sr. Jo\u00e3o: &#8220;Gente l\u00e1 de Minas, do fundo de Minas, de caminh\u00e3o coberto e encerrado, aparecia cheio de gente. S\u00f3 que ele tinha posto uma lei: que ele s\u00f3 dava ben\u00e7\u00e3o a uma hora da manh\u00e3, antes e depois ele n\u00e3o atendia ningu\u00e9m mais, porque era demais, por causa do servi\u00e7o dele de atender os doentes.&#8221; Imagine a cena. Uma hora da madrugada. A igreja \u00e0s escuras. Uma multid\u00e3o esperando em sil\u00eancio. E ent\u00e3o o padre chegava. &#8220;Ele dizia que era o diabo: &#8220;Voc\u00ea t\u00e1 com o diabo, mas vai melhorar&#8221;. Ele dava a ben\u00e7\u00e3o, o homem, \u00e0s vezes, se jogava no ch\u00e3o&#8230;. e o padre ia l\u00e1 colocava as vestes da missa e ia rezar a missa e o homem ali ningu\u00e9m punha a m\u00e3o.&#8221; A pessoa que estava sendo exorcizada se contorcia, gritava, tentava fugir. Mas ningu\u00e9m podia tocar nela. Era o momento do confronto direto entre o padre e o que ele acreditava ser o esp\u00edrito maligno. E ent\u00e3o? &#8220;O homem, \u00e0s vezes, se jogava no ch\u00e3o, \u00e0s vezes, queria fazer&#8230;, passava aquilo.&#8221; Passava. A crise terminava. A pessoa ficava quieta. E muitos diziam estar curados. Alexandre: O jovem que vivia com o padre Um dos casos mais emblem\u00e1ticos foi o de Alexandre. Segundo Sr. Fausto Stefanello (sobrinho do padre), Alexandre era um jovem que morava com Pe. Luiz. Tinha crises violentas, convuls\u00f5es, gritos, comportamento agressivo. Hoje, provavelmente seria diagnosticado com epilepsia. Na \u00e9poca, acreditava-se que era possess\u00e3o demon\u00edaca. Mas aqui est\u00e1 o detalhe que humaniza tudo: Padre Stefanello n\u00e3o abandonou o rapaz. Ao contr\u00e1rio. Acolheu-o em sua pr\u00f3pria casa. Cuidava dele. Tentava cur\u00e1-lo. As tentativas de exorcismo foram muitas. O padre insistia, mesmo quando parecia n\u00e3o haver resultado. At\u00e9 que, segundo os relatos, Alexandre foi morar em outra cidade e teve uma vida relativamente normal. Curou-se? Foi a f\u00e9? Foi o tempo? Foi a medica\u00e7\u00e3o que eventualmente conseguiu? O povo de Cascalho prefere acreditar que foi o padre. E talvez, de certa forma, tenha sido, &nbsp;n\u00e3o necessariamente por expulsar um dem\u00f4nio, mas por oferecer acolhida, cuidado e esperan\u00e7a quando ningu\u00e9m mais sabia o que fazer. As irm\u00e3s: Sete noites de terror Esta \u00e9, sem d\u00favida, uma das hist\u00f3rias mais impressionantes. Duas irm\u00e3s da fam\u00edlia Coletta, vindas de Araras, come\u00e7aram a ter comportamentos estranhos. Segundo os relatos, cada uma delas estava possu\u00edda por sete esp\u00edritos. Sete. Dona Em\u00edlia contava que Padre Stefanello teve que trabalhar durante sete noites consecutivas para expulsar os dem\u00f4nios. &#8220;Ent\u00e3o, a primeira vez que tirou, que veio ali, foi umas mo\u00e7as do Coletta, duas irm\u00e3s que moravam em Araras. Diz que elas tinham 7 esp\u00edritos cada uma. Elas vieram a\u00ed 7 noites. Toda a noite enchia a igreja de gente, porque a primeira vez, elas &#8216;trepavam&#8217; pra parede. Ele trocava, ele molhava de novo. Ele lutou tanto, mas tanto pra tirar&#8221;. Leia de novo essa passagem. &#8220;Trepavam na parede.&#8221; As mo\u00e7as, durante o exorcismo, subiam pelas paredes da igreja. A camisa do padre ficava ensopada de suor, ele precisava trocar e continuar. A luta era f\u00edsica, mental, espiritual. E a igreja? Lotada. A comunidade inteira acompanhava, noite ap\u00f3s noite, para ver o desfecho. Depois de sete noites, segundo Dona Em\u00edlia, as irm\u00e3s foram libertadas. A mulher que subia em \u00e1rvore Se voc\u00ea acha que a hist\u00f3ria anterior foi dif\u00edcil de acreditar, espere por esta. Dona Augusta contava sobre uma mulher que, quando estava em crise, subia em \u00e1rvores. &#8220;E depois, o homem levou embora a mulher. Ela tinha cinco filhos. Dizia que ela subia em \u00e1rvore, parecia um macaco. J\u00e1 pensou uma mulher subir em \u00e1rvore? Pra ver que n\u00e3o tem ju\u00edzo nenhum. Ele falou que tinha ainda cinco filhos em casa.&#8221; A mulher foi levada ao padre. Ele a exorcizou. Segundo o relato, ela melhorou. Mas o que era aquilo? Surto psic\u00f3tico? Histeria? Transtorno dissociativo? Ou, como acreditava o povo, possess\u00e3o demon\u00edaca? Imposs\u00edvel saber com certeza. Mas uma coisa \u00e9 certa: aquela fam\u00edlia n\u00e3o tinha mais para onde ir. E padre Stefanello acolheu. Tentou ajudar. Fez o que estava ao seu alcance. O ritual: Como funcionava um exorcismo em Cascalho Dona Santa, uma das testemunhas descreveu detalhadamente como padre Stefanello conduzia os exorcismos: 1. A \u00e1gua benta &#8220;O crucifixo era grande, e ele dizia: &#8216;-Eu te bato com o crucifixo se voc\u00ea n\u00e3o vai embora dessa pessoa a\u00ed&#8217;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":565,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-564","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/564","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=564"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/564\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":567,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/564\/revisions\/567"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/565"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=564"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=564"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=564"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}