{"id":472,"date":"2025-10-22T17:59:07","date_gmt":"2025-10-22T20:59:07","guid":{"rendered":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/?p=472"},"modified":"2025-10-22T17:59:08","modified_gmt":"2025-10-22T20:59:08","slug":"dona-margarida-macota-a-parteira-que-trouxe-iracemapolis-ao-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/2025\/10\/22\/dona-margarida-macota-a-parteira-que-trouxe-iracemapolis-ao-mundo\/","title":{"rendered":"Dona Margarida Macota: A parteira que trouxe Iracem\u00e1polis ao mundo"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A mulher que, entre 1920 e 1960, foi respons\u00e1vel pelo nascimento de boa parte da popula\u00e7\u00e3o da cidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em uma \u00e9poca em que hospitais eram raros e o parto domiciliar era a norma, uma mulher se destacou em Iracem\u00e1polis por sua dedica\u00e7\u00e3o, habilidade e amor ao pr\u00f3ximo. Dona Margarida Macota, (Margarida Maria da Rocha) parteira pr\u00e1tica que atuou entre as d\u00e9cadas de 1920 e 1960, foi respons\u00e1vel por trazer ao mundo centenas, talvez milhares de iracemapolenses, deixando um legado imensur\u00e1vel na hist\u00f3ria da cidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/margarida-macota_tanoarquivo-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-473\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/margarida-macota_tanoarquivo-1024x683.png 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/margarida-macota_tanoarquivo-300x200.png 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/margarida-macota_tanoarquivo-768x512.png 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/margarida-macota_tanoarquivo.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto reproduzida por IA<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>As m\u00e3os que acolhiam a vida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dona Margarida n\u00e3o possu\u00eda diploma universit\u00e1rio, mas carregava algo mais valioso: o dom de cuidar e a sabedoria transmitida de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Como parteira pr\u00e1tica, ela dominava t\u00e9cnicas ancestrais de assist\u00eancia ao parto, combinando conhecimento emp\u00edrico com uma sensibilidade \u00fanica para lidar com as gestantes e suas fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua casa era conhecida por todos. A qualquer hora do dia ou da noite, Dona Margarida estava pronta para atender ao chamado de uma fam\u00edlia que aguardava a chegada de um novo membro. Munida de sua maleta com os instrumentos b\u00e1sicos, panos limpos e suas m\u00e3os experientes, ela percorria as ruas de terra de Iracem\u00e1polis, muitas vezes a p\u00e9 ou de carro\u00e7a, para chegar \u00e0s resid\u00eancias onde era esperada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mais que uma parteira: Uma figura materna<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho de Dona Margarida ia muito al\u00e9m de auxiliar no momento do parto. Ela acompanhava as gestantes durante a gravidez, oferecia conselhos sobre cuidados com o beb\u00ea, preparava ch\u00e1s medicinais e ficava ao lado das m\u00e3es nos primeiros dias ap\u00f3s o nascimento. Em uma \u00e9poca sem recursos m\u00e9dicos sofisticados, sua presen\u00e7a transmitia seguran\u00e7a e confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas fam\u00edlias de Iracem\u00e1polis t\u00eam hist\u00f3rias para contar sobre Dona Margarida. Relatos passados de pais para filhos falam de sua paci\u00eancia infinita, de suas palavras de conforto nos momentos de dor, e de sua alegria genu\u00edna ao anunciar: &#8220;\u00c9 menino!&#8221; ou &#8220;\u00c9 menina!&#8221;. Para muitas mulheres daquela \u00e9poca, ter Dona Margarida ao lado durante o parto era como ter uma m\u00e3e presente no momento mais importante de suas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O contexto hist\u00f3rico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1920 e 1960, o Brasil ainda era predominantemente rural, e Iracem\u00e1polis n\u00e3o era exce\u00e7\u00e3o. O acesso a hospitais e m\u00e9dicos era limitado, especialmente para as fam\u00edlias mais humildes. Nesse contexto, as parteiras pr\u00e1ticas como Dona Margarida desempenhavam um papel fundamental na sa\u00fade p\u00fablica, sendo muitas vezes a \u00fanica assist\u00eancia dispon\u00edvel para as gestantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A profiss\u00e3o de parteira era reconhecida e respeitada. Essas mulheres eram pilares de suas comunidades, guardi\u00e3s de conhecimentos tradicionais sobre gesta\u00e7\u00e3o, parto e cuidados com o rec\u00e9m-nascido. Dona Margarida representava essa tradi\u00e7\u00e3o em Iracem\u00e1polis, sendo procurada por fam\u00edlias de todas as classes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um legado que atravessa gera\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estima-se que Dona Margarida tenha assistido ao nascimento de boa parte da popula\u00e7\u00e3o de Iracem\u00e1polis nascida entre 1920 e 1960. Isso significa que muitos dos av\u00f3s e bisav\u00f3s das fam\u00edlias atuais da cidade vieram ao mundo pelas suas m\u00e3os. Seu legado est\u00e1 literalmente presente em cada gera\u00e7\u00e3o de iracemapolenses.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos nascimentos, Dona Margarida ajudou a formar uma rede de solidariedade feminina na cidade. As mulheres que ela assistia muitas vezes se tornavam suas amigas e confidentes, criando la\u00e7os que fortaleciam o tecido social de Iracem\u00e1polis. Sua casa era um ponto de encontro onde gestantes trocavam experi\u00eancias, receitas e conselhos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/margarida_iracemapolis_tanoarquivo-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-474\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/margarida_iracemapolis_tanoarquivo-1024x683.png 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/margarida_iracemapolis_tanoarquivo-300x200.png 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/margarida_iracemapolis_tanoarquivo-768x512.png 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/margarida_iracemapolis_tanoarquivo.png 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto reproduzida por IA<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O fim de uma era e o in\u00edcio da mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com o passar dos anos e a moderniza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de sa\u00fade, os partos domiciliares foram gradualmente substitu\u00eddos pelos hospitalares. A d\u00e9cada de 1960 marcou uma transi\u00e7\u00e3o importante na assist\u00eancia obst\u00e9trica brasileira, com a crescente medicaliza\u00e7\u00e3o do parto. Dona Margarida, como muitas parteiras de sua gera\u00e7\u00e3o, viu seu trabalho diminuir \u00e0 medida que hospitais e maternidades se tornavam mais acess\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, sua contribui\u00e7\u00e3o para Iracem\u00e1polis permanece viva na mem\u00f3ria coletiva da cidade. Muitos de seus &#8220;filhos&#8221; como ela carinhosamente chamava aqueles que ajudou a nascer, ainda lembram de sua figura com carinho e gratid\u00e3o. Algumas fam\u00edlias guardam fotografias antigas onde ela aparece segurando rec\u00e9m-nascidos, documentos preciosos de uma \u00e9poca em que a vida comunit\u00e1ria era mais pr\u00f3xima e as rela\u00e7\u00f5es humanas mais estreitas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora n\u00e3o existam registros oficiais completos de todos os partos que Dona Margarida realizou, sua hist\u00f3ria merece ser contada e celebrada. Ela representa milhares de parteiras brasileiras que, com dedica\u00e7\u00e3o e coragem, garantiram que incont\u00e1veis vidas chegassem ao mundo com seguran\u00e7a, mesmo em condi\u00e7\u00f5es adversas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, quando falamos sobre humaniza\u00e7\u00e3o do parto e resgate de pr\u00e1ticas tradicionais, \u00e9 importante lembrar de mulheres como Dona Margarida Macota. Elas foram pioneiras em entender que o nascimento \u00e9 um momento que exige n\u00e3o apenas t\u00e9cnica, mas tamb\u00e9m acolhimento, respeito e amor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Epidemias e o medo invis\u00edvel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria tamb\u00e9m guarda p\u00e1ginas tristes.<br>Por volta de <strong>1892<\/strong>, a febre amarela assolou a regi\u00e3o. Como lembra o livro de Zanardo, \u201ca maioria dos defuntos eram enterrados apenas num len\u00e7ol&#8230; e at\u00e9 m\u00e9dicos e coveiros foram ceifados pela morte\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os rem\u00e9dios eram escassos. Quinino e antipirina eram usados contra a febre, mas muitos preferiam recorrer \u00e0 <strong>medicina caseira<\/strong>, ch\u00e1s de flor-de-laranjeira, compressas e ora\u00e7\u00f5es. O desespero era combatido com f\u00e9, e o tempo era o \u00fanico aliado da cura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Os rem\u00e9dios da terra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na falta de farm\u00e1cias, a sabedoria popular fazia milagre.<br>Os ch\u00e1s eram quase sagrados: hortel\u00e3 para dor de barriga, arruda para o mau-olhado, mel com lim\u00e3o para tosse e benzedeiras que sopravam palavras sobre as feridas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os m\u00e9dicos, quando apareciam, eram figuras de respeito. Suas visitas eram caras, e o pre\u00e7o dependia da dist\u00e2ncia, <strong>de 15 a 20 mil r\u00e9is<\/strong> por atendimento, segundo Zanardo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dona Margarida Macota n\u00e3o foi apenas uma parteira; ela foi uma das construtoras da comunidade de Iracem\u00e1polis. Cada vida que ela ajudou a trazer ao mundo contribuiu para o crescimento e desenvolvimento da cidade. Seu legado transcende estat\u00edsticas e n\u00fameros, est\u00e1 presente no calor humano, na solidariedade e na mem\u00f3ria afetiva de gera\u00e7\u00f5es de iracemapolenses.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao relembrarmos sua hist\u00f3ria, prestamos uma homenagem n\u00e3o s\u00f3 a ela, mas a todas as parteiras que, com suas m\u00e3os s\u00e1bias e cora\u00e7\u00f5es generosos, foram verdadeiras guardi\u00e3s da vida. Que a mem\u00f3ria de Dona Margarida Macota continue inspirando respeito pela tradi\u00e7\u00e3o, valoriza\u00e7\u00e3o do conhecimento feminino e reconhecimento da import\u00e2ncia do cuidado humanizado em todos os momentos da vida.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;As m\u00e3os que recebem uma vida ao nascer deixam marcas eternas no cora\u00e7\u00e3o de uma comunidade.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo foi baseado no livro &#8220;Iracem\u00e1polis: Fatos e Retratos&#8221; (2008), do professor Jos\u00e9 Zanardo, uma obra resultado de tr\u00eas anos de pesquisas dedicadas ao resgate da mem\u00f3ria hist\u00f3rica da cidade. O texto aqui apresentado \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o narrativa do blog T\u00e1 No Arquivo, mantendo os fatos hist\u00f3ricos documentados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E a sua hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dona Margarida trouxe voc\u00ea ao mundo? Ou seu pai? Sua av\u00f3? Seu bisav\u00f4?<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea nasceu em Iracem\u00e1polis entre 1920 e 1960 (ou sua fam\u00edlia), \u00e9 bem prov\u00e1vel que as m\u00e3os de Dona Margarida tenham sido as primeiras a te recepcionar neste mundo. Quantas gera\u00e7\u00f5es da sua fam\u00edlia ela ajudou a nascer?<\/p>\n\n\n\n<p>Sua fam\u00edlia guarda alguma hist\u00f3ria com ela? Alguma foto antiga? Algum relato da sua av\u00f3 sobre o dia que deu \u00e0 luz com Dona Margarida ao lado?<\/p>\n\n\n\n<p>Compartilhe nos coment\u00e1rios. Essas hist\u00f3rias merecem ser contadas. Merecem ser lembradas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mulher que, entre 1920 e 1960, foi respons\u00e1vel pelo nascimento de boa parte da popula\u00e7\u00e3o da cidade Em uma \u00e9poca em que hospitais eram raros e o parto domiciliar era a norma, uma mulher se destacou em Iracem\u00e1polis por sua dedica\u00e7\u00e3o, habilidade e amor ao pr\u00f3ximo. 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