{"id":448,"date":"2025-10-15T16:18:00","date_gmt":"2025-10-15T19:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/?p=448"},"modified":"2025-10-15T16:18:01","modified_gmt":"2025-10-15T19:18:01","slug":"os-imigrantes-que-construiram-iracemapolis-italianos-alemaes-e-portugueses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/2025\/10\/15\/os-imigrantes-que-construiram-iracemapolis-italianos-alemaes-e-portugueses\/","title":{"rendered":"Os imigrantes que constru\u00edram Iracem\u00e1polis: italianos, alem\u00e3es e portugueses"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A hist\u00f3ria de Iracem\u00e1polis n\u00e3o come\u00e7a em Iracem\u00e1polis. Ela come\u00e7a na It\u00e1lia, em Portugal, na Alemanha e na Su\u00ed\u00e7a.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Imagine deixar tudo para tr\u00e1s. Sua casa, sua l\u00edngua, seus mortos enterrados na terra dos seus antepassados. Agora imagine fazer isso em 1850, embarcando em um navio superlotado, dormindo em camas-treliche na terceira classe, sem saber se chegaria vivo do outro lado do oceano.<\/p>\n\n\n\n<p>Era isso que os imigrantes enfrentavam quando partiam para o Brasil. E muitos deles, centenas, milhares&nbsp; escolheram as terras que hoje conhecemos como Iracem\u00e1polis para recome\u00e7ar a vida.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/iracemapolis_tanoarquivo-3-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-450\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/iracemapolis_tanoarquivo-3-1024x683.png 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/iracemapolis_tanoarquivo-3-300x200.png 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/iracemapolis_tanoarquivo-3-768x512.png 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/iracemapolis_tanoarquivo-3.png 1536w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Vista a\u00e9rea da cidade &#8211; esquina da Pra\u00e7a da Matriz com a Rua Pedro Chinellato. Ao fundo est\u00e1 o campo de futebol arborizado com eucaliptos, onde hoje \u00e9 a EE \u201cCesarino Borba\u201d. Foto reporuzida com uso de IA<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>A viagem que mudou tudo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sessenta dias. \u00c0s vezes setenta e cinco. Era o tempo que um navio a vela levava para cruzar o Atl\u00e2ntico entre a Europa e o Porto de Santos. Depois, com a inven\u00e7\u00e3o do navio a vapor, o trajeto caiu para trinta dias, mas isso n\u00e3o tornava a viagem menos brutal.<\/p>\n\n\n\n<p>Na terceira classe, fam\u00edlias inteiras se apertavam em beliches apertados. A comida era escassa. A c\u00f3lera atacava sem avisar. Quando algu\u00e9m morria; e muitos morriam, o corpo era simplesmente atirado ao mar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que algu\u00e9m se sujeitaria a isso? A resposta \u00e9 simples: fome.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A crise econ\u00f4mica de 1846 devastou a Europa. N\u00e3o havia trabalho. Os sal\u00e1rios despencaram. Fam\u00edlias inteiras passavam necessidade. O Brasil, com suas terras f\u00e9rteis e promessas de trabalho, parecia a salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os portugueses: Os primeiros a chegar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9cada de 1840. Antes mesmo dos italianos e alem\u00e3es, foram os portugueses que come\u00e7aram a chegar \u00e0 regi\u00e3o do Morro Azul.<\/p>\n\n\n\n<p>Vinham sob o comando do Senador Vergueiro, um vision\u00e1rio que acreditava nas vantagens de substituir o trabalho escravo pelo trabalho livre. N\u00e3o era mais escravid\u00e3o, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era liberdade plena, era um sistema de parceria, onde os imigrantes trabalhavam sob controle r\u00edgido.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns conseguiram prosperar. Com economia e trabalho duro, juntavam at\u00e9 700 mil r\u00e9is, uma fortuna para a \u00e9poca. Com esse dinheiro, compravam suas pr\u00f3prias terras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sobrenomes que chegaram nessa \u00e9poca e fincaram ra\u00edzes:<\/strong> Ferreira das Neves, Ferreira dos Santos, Pinto Ribeiro, Mesquita, Fonseca, Cunha, Silva, Vieira, Gomes, Nunes, Rodrigues, Carvalho Mendon\u00e7a, Queiroz, Pereira, Lopes.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea tem um desses sobrenomes, suas ra\u00edzes em Iracem\u00e1polis s\u00e3o profundas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alem\u00e3es e Su\u00ed\u00e7os: A disciplina que veio dos Alpes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1852 e 1872, uma nova leva de imigrantes come\u00e7ou a chegar: alem\u00e3es e su\u00ed\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles se espalharam pelas fazendas Ibicaba, Ang\u00e9lica, Santa Gertrudes, S\u00e3o Jer\u00f4nimo, Morro Azul e Tatu. Trouxeram consigo n\u00e3o apenas for\u00e7a de trabalho, mas algo mais valioso: conhecimento t\u00e9cnico, disciplina e m\u00e9todos agr\u00edcolas avan\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sobrenomes que moldaram a regi\u00e3o:<\/strong> Bush, Kloss, Scherrer, Blumer, Schneider, Levy, Roland, Hartung, Killer, Sass, Meyer, K\u00fcll, M\u00fcller, Wenzel, Asbahr, Dibbern, Hardt.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram eles que introduziram t\u00e9cnicas de plantio mais eficientes e ajudaram a modernizar a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola da regi\u00e3o. Muitos prosperaram e se tornaram propriet\u00e1rios de terras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os italianos: A maior onda migrat\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi entre 1887 e 1897 que a grande transforma\u00e7\u00e3o aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse per\u00edodo, cerca de <strong>790 mil italianos<\/strong> desembarcaram no Brasil. E uma parte significativa deles escolheu o interior de S\u00e3o Paulo, incluindo as terras que se tornariam Iracem\u00e1polis.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles vinham do norte da It\u00e1lia, principalmente do V\u00eaneto. Fugiam da mis\u00e9ria, da falta de perspectiva, da fome. Aqui, encontraram sol escaldante, terra vermelha e trabalho de sol a sol nas fazendas de caf\u00e9 e cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas encontraram tamb\u00e9m algo que n\u00e3o tinham na It\u00e1lia: <strong>oportunidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O legado italiano que vive at\u00e9 hoje<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Olhe ao seu redor em Iracem\u00e1polis. Quantos sobrenomes italianos voc\u00ea reconhece?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A lista \u00e9 extensa:<\/strong> Batiston, Buzolin, Bottion, Bertanha, Batistela, Bonin, Boscheiro, Bortolan, Brugnaro, Cavinatto, Chinellato, De Gaspari, Demarchi, Ducatti, Ferrari, Furlan, Gazetta, Giacon, Giusti, Guarino, Lucato, Magaldi, Marrafon, Massari, Olivatto, Olivieri, Ometto, Paggiaro, Parronchi, Pazelli, Pecin, Picinini, Pilon, Pincelli, Polatto, Pomp\u00e9o, Prada, Zambuzi, Zaros.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o nomes que viraram ruas, escolas, com\u00e9rcios. S\u00e3o fam\u00edlias que constru\u00edram a cidade tijolo por tijolo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A comida que nos une<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os imigrantes trouxeram algo mais precioso que ouro: suas receitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos, a culin\u00e1ria europeia se misturou aos costumes brasileiros de subsist\u00eancia, arroz, feij\u00e3o, mandioca, milho. Embora muitos italianos rejeitassem o feij\u00e3o no in\u00edcio, acabaram se adaptando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Receitas que atravessaram o oceano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rabanadas:<\/strong> Fatias de p\u00e3o amanhecido banhadas em mistura de ovos batidos, leite, vinho e a\u00e7\u00facar, fritas e polvilhadas com canela e noz-moscada. At\u00e9 hoje um cl\u00e1ssico das festas de fim de ano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cr\u00fcstles:<\/strong> Frituras com massa de pastel, crocantes, polvilhadas com canela e a\u00e7\u00facar. Pura nostalgia em forma de doce.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Macrum:<\/strong> Bolinhos de massa de trigo com gergelim e erva-doce, servidos em calda grossa de \u00e1gua de flor-de-laranjeira. Uma receita que poucos ainda sabem fazer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P\u00e3o-de-l\u00f3 gigante:<\/strong> Alguns chegavam a pesar 600 gramas! Feitos em formas grandes, eram o orgulho das festas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Polenta:<\/strong> Ah, a polenta! Com frango, com lingui\u00e7a, com molho&#8230; At\u00e9 hoje \u00e9 sin\u00f4nimo de fam\u00edlia reunida \u00e0 mesa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Polenta com serralha:<\/strong> Esta era mais r\u00fastica, a serralha era colhida nas planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9. Uma receita de quem sabia tirar alimento at\u00e9 do mato.<\/p>\n\n\n\n<p>E os embutidos? Lingui\u00e7as, salames, mortadelas caseiras. Cada fam\u00edlia tinha sua receita secreta, passada de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O jogo que veio na bagagem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os italianos trouxeram tamb\u00e9m o jogo de bocha.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, j\u00e1 havia campos r\u00fasticos em Iracem\u00e1polis, um no pr\u00f3prio povoado e outro no Bairro do Marrafon. N\u00e3o tinham os requintes da cidade grande, mas cumpriam seu papel: reunir os homens aos domingos para jogar, conversar e matar a saudade da terra natal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>De imigrantes a construtores de uma cidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muitos dos que chegaram n\u00e3o passaram de trabalhadores rurais a vida toda. Mas outros \u2014 atrav\u00e9s de muito trabalho, economia e determina\u00e7\u00e3o, sa\u00edram da ro\u00e7a e se tornaram comerciantes, fazendeiros, industriais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A fam\u00edlia Ometto<\/strong> \u00e9 o exemplo mais emblem\u00e1tico. Chegaram em 1918, ano de forte geada que destruiu cafezais inteiros. Compraram a Fazenda Aparecida (antiga Fazenda Ang\u00e9lica) e, em 1932, fundaram a Usina Boa Vista. Quatro anos depois, criaram a Usina Iracema.<\/p>\n\n\n\n<p>Geraram empregos. Trouxeram energia el\u00e9trica. Ajudaram a pavimentar ruas. Constru\u00edram ambulat\u00f3rios. Financiaram festas. Tornaram-se parte indissoci\u00e1vel da hist\u00f3ria da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eles n\u00e3o foram os \u00fanicos. Dezenas de fam\u00edlias italianas, alem\u00e3es e portuguesas prosperaram e moldaram Iracem\u00e1polis.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A for\u00e7a est\u00e1 no sangue misturado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que faz de Iracem\u00e1polis o que ela \u00e9 hoje n\u00e3o \u00e9 apenas a geografia, a cana-de-a\u00e7\u00facar ou a ind\u00fastria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o sangue misturado de portugueses que chegaram em 1840, de alem\u00e3es e su\u00ed\u00e7os que trouxeram disciplina nos anos 1850, de italianos que chegaram aos milhares em 1890, de negros libertos que fundaram o primeiro povoado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a rabanada da Nonna no Natal. \u00c9 a bocha jogada no domingo. \u00c9 o sotaque que ainda se escuta nos mais velhos. \u00c9 o sobrenome que carrega hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo foi baseado no livro <strong>&#8220;Iracem\u00e1polis: Fatos e Retratos&#8221;<\/strong> (2008), do professor Jos\u00e9 Zanardo, uma obra resultado de tr\u00eas anos de pesquisas dedicadas ao resgate da mem\u00f3ria hist\u00f3rica da cidade. O texto aqui apresentado \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o narrativa do blog T\u00e1 No Arquivo, mantendo a fidelidade aos fatos hist\u00f3ricos documentados<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E a sua hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sua fam\u00edlia veio de onde? De qual navio? Por qual porto? Quem foi o primeiro a pisar nessa terra vermelha?<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea tem sobrenome italiano, alem\u00e3o ou portugu\u00eas, sua hist\u00f3ria come\u00e7a muito antes de voc\u00ea nascer, come\u00e7a em um navio atravessando o Atl\u00e2ntico, em um porto desconhecido, em uma fazenda de cana onde seus bisav\u00f3s trabalharam de sol a sol.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Compartilhe a hist\u00f3ria da sua fam\u00edlia nos coment\u00e1rios.<\/strong> Quantas gera\u00e7\u00f5es moram em Iracem\u00e1polis? Algu\u00e9m ainda tem fotos antigas? Receitas da Nonna guardadas em cadernos amarelados?<\/p>\n\n\n\n<p>Essas hist\u00f3rias merecem ser contadas. Merecem ser lembradas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pr\u00f3ximo artigo da s\u00e9rie:<\/strong> <em>&#8220;Dona Margarida Macota: A Parteira que Trouxe Iracem\u00e1polis ao Mundo&#8221;<\/em> &nbsp;A mulher que, entre 1920 e 1960, foi respons\u00e1vel pelo nascimento de boa parte da popula\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>T\u00e1 No Arquivo &#8211; Desenterrando hist\u00f3rias que merecem ser contadas<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria de Iracem\u00e1polis n\u00e3o come\u00e7a em Iracem\u00e1polis. Ela come\u00e7a na It\u00e1lia, em Portugal, na Alemanha e na Su\u00ed\u00e7a. Imagine deixar tudo para tr\u00e1s. Sua casa, sua l\u00edngua, seus mortos enterrados na terra dos seus antepassados. Agora imagine fazer isso em 1850, embarcando em um navio superlotado, dormindo em camas-treliche na terceira classe, sem saber se chegaria vivo do outro lado do oceano. Era isso que os imigrantes enfrentavam quando partiam para o Brasil. E muitos deles, centenas, milhares&nbsp; escolheram as terras que hoje conhecemos como Iracem\u00e1polis para recome\u00e7ar a vida. A viagem que mudou tudo Sessenta dias. \u00c0s vezes setenta e cinco. Era o tempo que um navio a vela levava para cruzar o Atl\u00e2ntico entre a Europa e o Porto de Santos. Depois, com a inven\u00e7\u00e3o do navio a vapor, o trajeto caiu para trinta dias, mas isso n\u00e3o tornava a viagem menos brutal. Na terceira classe, fam\u00edlias inteiras se apertavam em beliches apertados. A comida era escassa. A c\u00f3lera atacava sem avisar. Quando algu\u00e9m morria; e muitos morriam, o corpo era simplesmente atirado ao mar. Por que algu\u00e9m se sujeitaria a isso? A resposta \u00e9 simples: fome. A crise econ\u00f4mica de 1846 devastou a Europa. N\u00e3o havia trabalho. Os sal\u00e1rios despencaram. Fam\u00edlias inteiras passavam necessidade. O Brasil, com suas terras f\u00e9rteis e promessas de trabalho, parecia a salva\u00e7\u00e3o. Os portugueses: Os primeiros a chegar D\u00e9cada de 1840. Antes mesmo dos italianos e alem\u00e3es, foram os portugueses que come\u00e7aram a chegar \u00e0 regi\u00e3o do Morro Azul. Vinham sob o comando do Senador Vergueiro, um vision\u00e1rio que acreditava nas vantagens de substituir o trabalho escravo pelo trabalho livre. N\u00e3o era mais escravid\u00e3o, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era liberdade plena, era um sistema de parceria, onde os imigrantes trabalhavam sob controle r\u00edgido. Alguns conseguiram prosperar. Com economia e trabalho duro, juntavam at\u00e9 700 mil r\u00e9is, uma fortuna para a \u00e9poca. Com esse dinheiro, compravam suas pr\u00f3prias terras. Sobrenomes que chegaram nessa \u00e9poca e fincaram ra\u00edzes: Ferreira das Neves, Ferreira dos Santos, Pinto Ribeiro, Mesquita, Fonseca, Cunha, Silva, Vieira, Gomes, Nunes, Rodrigues, Carvalho Mendon\u00e7a, Queiroz, Pereira, Lopes. Se voc\u00ea tem um desses sobrenomes, suas ra\u00edzes em Iracem\u00e1polis s\u00e3o profundas. Alem\u00e3es e Su\u00ed\u00e7os: A disciplina que veio dos Alpes Entre 1852 e 1872, uma nova leva de imigrantes come\u00e7ou a chegar: alem\u00e3es e su\u00ed\u00e7os. Eles se espalharam pelas fazendas Ibicaba, Ang\u00e9lica, Santa Gertrudes, S\u00e3o Jer\u00f4nimo, Morro Azul e Tatu. Trouxeram consigo n\u00e3o apenas for\u00e7a de trabalho, mas algo mais valioso: conhecimento t\u00e9cnico, disciplina e m\u00e9todos agr\u00edcolas avan\u00e7ados. Sobrenomes que moldaram a regi\u00e3o: Bush, Kloss, Scherrer, Blumer, Schneider, Levy, Roland, Hartung, Killer, Sass, Meyer, K\u00fcll, M\u00fcller, Wenzel, Asbahr, Dibbern, Hardt. Foram eles que introduziram t\u00e9cnicas de plantio mais eficientes e ajudaram a modernizar a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola da regi\u00e3o. Muitos prosperaram e se tornaram propriet\u00e1rios de terras. Os italianos: A maior onda migrat\u00f3ria Mas foi entre 1887 e 1897 que a grande transforma\u00e7\u00e3o aconteceu. Nesse per\u00edodo, cerca de 790 mil italianos desembarcaram no Brasil. E uma parte significativa deles escolheu o interior de S\u00e3o Paulo, incluindo as terras que se tornariam Iracem\u00e1polis. Eles vinham do norte da It\u00e1lia, principalmente do V\u00eaneto. Fugiam da mis\u00e9ria, da falta de perspectiva, da fome. Aqui, encontraram sol escaldante, terra vermelha e trabalho de sol a sol nas fazendas de caf\u00e9 e cana-de-a\u00e7\u00facar. Mas encontraram tamb\u00e9m algo que n\u00e3o tinham na It\u00e1lia: oportunidade. O legado italiano que vive at\u00e9 hoje Olhe ao seu redor em Iracem\u00e1polis. Quantos sobrenomes italianos voc\u00ea reconhece? A lista \u00e9 extensa: Batiston, Buzolin, Bottion, Bertanha, Batistela, Bonin, Boscheiro, Bortolan, Brugnaro, Cavinatto, Chinellato, De Gaspari, Demarchi, Ducatti, Ferrari, Furlan, Gazetta, Giacon, Giusti, Guarino, Lucato, Magaldi, Marrafon, Massari, Olivatto, Olivieri, Ometto, Paggiaro, Parronchi, Pazelli, Pecin, Picinini, Pilon, Pincelli, Polatto, Pomp\u00e9o, Prada, Zambuzi, Zaros. S\u00e3o nomes que viraram ruas, escolas, com\u00e9rcios. S\u00e3o fam\u00edlias que constru\u00edram a cidade tijolo por tijolo. A comida que nos une Os imigrantes trouxeram algo mais precioso que ouro: suas receitas. Aos poucos, a culin\u00e1ria europeia se misturou aos costumes brasileiros de subsist\u00eancia, arroz, feij\u00e3o, mandioca, milho. Embora muitos italianos rejeitassem o feij\u00e3o no in\u00edcio, acabaram se adaptando. Receitas que atravessaram o oceano Rabanadas: Fatias de p\u00e3o amanhecido banhadas em mistura de ovos batidos, leite, vinho e a\u00e7\u00facar, fritas e polvilhadas com canela e noz-moscada. At\u00e9 hoje um cl\u00e1ssico das festas de fim de ano. Cr\u00fcstles: Frituras com massa de pastel, crocantes, polvilhadas com canela e a\u00e7\u00facar. Pura nostalgia em forma de doce. Macrum: Bolinhos de massa de trigo com gergelim e erva-doce, servidos em calda grossa de \u00e1gua de flor-de-laranjeira. Uma receita que poucos ainda sabem fazer. P\u00e3o-de-l\u00f3 gigante: Alguns chegavam a pesar 600 gramas! Feitos em formas grandes, eram o orgulho das festas. Polenta: Ah, a polenta! Com frango, com lingui\u00e7a, com molho&#8230; At\u00e9 hoje \u00e9 sin\u00f4nimo de fam\u00edlia reunida \u00e0 mesa. Polenta com serralha: Esta era mais r\u00fastica, a serralha era colhida nas planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9. Uma receita de quem sabia tirar alimento at\u00e9 do mato. E os embutidos? Lingui\u00e7as, salames, mortadelas caseiras. Cada fam\u00edlia tinha sua receita secreta, passada de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. O jogo que veio na bagagem Os italianos trouxeram tamb\u00e9m o jogo de bocha. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, j\u00e1 havia campos r\u00fasticos em Iracem\u00e1polis, um no pr\u00f3prio povoado e outro no Bairro do Marrafon. N\u00e3o tinham os requintes da cidade grande, mas cumpriam seu papel: reunir os homens aos domingos para jogar, conversar e matar a saudade da terra natal. De imigrantes a construtores de uma cidade Muitos dos que chegaram n\u00e3o passaram de trabalhadores rurais a vida toda. Mas outros \u2014 atrav\u00e9s de muito trabalho, economia e determina\u00e7\u00e3o, sa\u00edram da ro\u00e7a e se tornaram comerciantes, fazendeiros, industriais. A fam\u00edlia Ometto \u00e9 o exemplo mais emblem\u00e1tico. Chegaram em 1918, ano de forte geada que destruiu cafezais inteiros. Compraram a Fazenda Aparecida (antiga Fazenda Ang\u00e9lica) e, em 1932, fundaram a Usina Boa Vista. Quatro anos depois, criaram a Usina Iracema. Geraram empregos. Trouxeram energia el\u00e9trica. Ajudaram a pavimentar ruas. Constru\u00edram ambulat\u00f3rios. Financiaram festas. Tornaram-se parte indissoci\u00e1vel da hist\u00f3ria da cidade. Mas eles n\u00e3o foram os \u00fanicos. Dezenas<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":449,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-448","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=448"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/448\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":452,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/448\/revisions\/452"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/449"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}