{"id":431,"date":"2025-10-13T16:03:23","date_gmt":"2025-10-13T19:03:23","guid":{"rendered":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/?p=431"},"modified":"2025-10-13T16:03:24","modified_gmt":"2025-10-13T19:03:24","slug":"quando-o-ceu-de-cordeiropolis-brilhava-com-a-forca-das-fabricas-de-fogos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/2025\/10\/13\/quando-o-ceu-de-cordeiropolis-brilhava-com-a-forca-das-fabricas-de-fogos\/","title":{"rendered":"Quando o c\u00e9u de Cordeir\u00f3polis brilhava com a for\u00e7a das f\u00e1bricas de fogos"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Se hoje os fogos de artif\u00edcio s\u00e3o lembrados apenas nas grandes festas, houve um tempo em que eles faziam parte da rotina de Cordeir\u00f3polis<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/fabriasfogosartificio_cordeiropolis_tanoarquivo-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-432\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/fabriasfogosartificio_cordeiropolis_tanoarquivo-1024x683.png 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/fabriasfogosartificio_cordeiropolis_tanoarquivo-300x200.png 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/fabriasfogosartificio_cordeiropolis_tanoarquivo-768x512.png 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/fabriasfogosartificio_cordeiropolis_tanoarquivo.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o IA<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Imagine uma noite qualquer nos anos 1920. N\u00e3o \u00e9 v\u00e9spera de ano novo. N\u00e3o \u00e9 dia de festa junina. \u00c9 apenas uma ter\u00e7a-feira comum. Mas de repente, o c\u00e9u escuro se ilumina com um estouro colorido que faz as crian\u00e7as correrem para a rua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pum!<\/strong> Vermelho. <strong>Pum!<\/strong> Verde. <strong>Pum!<\/strong> Dourado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era show pirot\u00e9cnico importado. N\u00e3o era evento especial. Era apenas mais um dia na vida de quem vivia numa cidade que produzia seus pr\u00f3prios fogos de artif\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1918 e os anos 1940, Cordeir\u00f3polis teve <strong>quatro f\u00e1bricas de fogos funcionando ao mesmo tempo<\/strong>. Quatro! Em uma cidade pequena do interior paulista, isso significava que o cheiro de p\u00f3lvora, o barulho de roj\u00f5es sendo testados e o brilho repentino no c\u00e9u faziam parte do cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 a hist\u00f3ria de quando o c\u00e9u de Cordeir\u00f3polis brilhava todas as noites.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quatro f\u00e1bricas, uma cidade em chamas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1918.<\/strong> O Brasil ainda se recuperava da primeira Guerra Mundial. A gripe espanhola aterrorizava o pa\u00eds. Mas em Cordeir\u00f3polis, uma nova ind\u00fastria come\u00e7ava a surgir: a produ\u00e7\u00e3o artesanal de fogos de artif\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos, quatro f\u00e1bricas se espalharam estrategicamente pela cidade:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00e1brica 1: proximidades da atual Escola Jamil Abrah\u00e3o Saad<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Localizada na Vila Santo Ant\u00f4nio, essa seria uma das maiores e tamb\u00e9m uma das mais lembradas, por um motivo tr\u00e1gico que veremos adiante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00e1brica 2: Rua Jos\u00e9 Moreira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Onde hoje funciona uma cl\u00ednica veterin\u00e1ria, outrora havia barrac\u00f5es onde se manipulava p\u00f3lvora e se enrolavam estopins.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00e1brica 3: Rua Guilherme Krauter<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em frente ao pr\u00e9dio da Telef\u00f4nica, esta f\u00e1brica era uma das mais centrais, o que significava que explos\u00f5es &nbsp;acidentais ou intencionais eram ouvidas por toda a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>F\u00e1brica 4: Futuro pr\u00e9dio da Ramenzoni<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima das quatro grandes, essa f\u00e1brica operou at\u00e9 meados dos anos 1940, sendo uma das \u00faltimas a fechar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quatro f\u00e1bricas. Dezenas de trabalhadores. Milhares de foguetes, roj\u00f5es, bombas e traques<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cordeir\u00f3polis n\u00e3o era apenas uma cidade que usava fogos, era uma cidade que <strong>vivia<\/strong> de fogos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Um of\u00edcio arriscado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhar com p\u00f3lvora nunca foi para os fracos de cora\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Imagine entrar todos os dias em um barrac\u00e3o de madeira onde toneladas de material inflam\u00e1vel est\u00e3o armazenadas. Onde um \u00fanico descuido, uma fa\u00edsca, um atrito, um estopim mal cortado &nbsp;pode transformar tudo em chamas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Era assim o dia a dia nas f\u00e1bricas de fogos de Cordeir\u00f3polis.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os trabalhadores na maioria homens, mas tamb\u00e9m algumas mulheres corajosas passavam horas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Misturando p\u00f3lvora<\/li>\n\n\n\n<li>Enrolando pap\u00e9is ao redor de tubos de bambu<\/li>\n\n\n\n<li>Cortando estopins na medida exata<\/li>\n\n\n\n<li>Enchendo bombas com misturas qu\u00edmicas<\/li>\n\n\n\n<li>Testando roj\u00f5es nos fundos das f\u00e1bricas<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o havia equipamento de seguran\u00e7a moderno.<\/strong> N\u00e3o havia extintores autom\u00e1ticos. N\u00e3o havia seguro de vida robusto.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia apenas a per\u00edcia passada de pai para filho, a coragem de quem precisava do trabalho e a f\u00e9 de que, naquele dia, nada daria errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nem sempre dava certo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O dia em que a f\u00e1brica virou inferno<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos epis\u00f3dios mais lembrados pelos mais velhos \u00e9 o <strong>inc\u00eandio que destruiu a f\u00e1brica pr\u00f3xima \u00e0 Escola Jamil<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m sabe exatamente o que aconteceu. Uma fa\u00edsca? Um estopim que queimou r\u00e1pido demais? Um descuido?<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que, em quest\u00e3o de minutos, o barrac\u00e3o estava em chamas.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando uma f\u00e1brica de fogos pega fogo, n\u00e3o \u00e9 um inc\u00eandio comum. \u00c9 um espet\u00e1culo no pior sentido da palavra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Explos\u00f5es em cadeia.<\/strong> Roj\u00f5es subindo em todas as dire\u00e7\u00f5es. Bombas explodindo no ch\u00e3o. Estopins acesos correndo como cobras de fogo pelo terreno.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas corriam. Algumas para ajudar. Outras para se proteger. Muitas apenas para ver, porque, por mais terr\u00edvel que fosse, era imposs\u00edvel desviar os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, segundo os relatos, n\u00e3o houve mortes. Mas a f\u00e1brica foi completamente destru\u00edda. E com ela, parte da produ\u00e7\u00e3o que sustentava fam\u00edlias inteiras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outros inc\u00eandios menores aconteceram ao longo dos anos.<\/strong> Fazia parte do risco. Fazia parte da profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E ainda assim, enquanto havia demanda, as f\u00e1bricas continuavam operando.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O encanto das festas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas por que algu\u00e9m arriscaria tanto?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta estava no c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda vez que uma festa religiosa se aproximava, e em Cordeir\u00f3polis e na regi\u00e3o; elas eram muitas , as f\u00e1bricas trabalhavam em ritmo acelerado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Festa de Santo Ant\u00f4nio<\/strong> (o padroeiro da cidade) era a mais esperada. Durante dias, os preparativos envolviam:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Centenas de foguetes<\/li>\n\n\n\n<li>Dezenas de bombas<\/li>\n\n\n\n<li>Traques que explodiam em sequ\u00eancia<\/li>\n\n\n\n<li>Roj\u00f5es coloridos<\/li>\n\n\n\n<li>Gir\u00e2ndolas que rodavam no ar<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>E quando a noite da festa chegava&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O c\u00e9u de Cordeir\u00f3polis se transformava.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vermelho, verde, dourado, prateado. Explos\u00f5es que faziam o ch\u00e3o tremer. Luzes que refletiam nos rostos maravilhados das crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o era apenas um show.<\/strong> Era devo\u00e7\u00e3o. Era comunidade. Era a cidade inteira celebrando junta.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os moradores, o estalar dos roj\u00f5es e o colorido no c\u00e9u eram sinal de que a vida estava em ordem. De que, apesar das dificuldades, ainda havia motivo para celebrar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mem\u00f3rias de quem Viu<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quem viveu aquela \u00e9poca guarda mem\u00f3rias v\u00edvidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2008, quando foi realizada a reportagem no Jornal Expresso, os depoimentos eram:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu era menina, mas lembro do barulho. Todo dia tinha teste de foguete. A gente j\u00e1 sabia: &#8216;L\u00e1 vem bomba!&#8217; E corria pra ver subir. Era bonito demais.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Outros moravam pr\u00f3ximos ou teve parentes que trabalharam nas f\u00e1bricas:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Na festa de Santo Ant\u00f4nio, a gente n\u00e3o dormia. Ficava na janela vendo os fogos. Parecia que o c\u00e9u inteiro estava pegando fogo. Era lindo e assustador ao mesmo tempo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;O fim de uma era<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como todas as coisas, as f\u00e1bricas de fogos de Cordeir\u00f3polis tiveram seu fim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os motivos foram v\u00e1rios:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Acidentes frequentes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Inc\u00eandios e explos\u00f5es tornavam a atividade cada vez mais arriscada &nbsp;e cara.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Moderniza\u00e7\u00e3o das leis de seguran\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, o Estado come\u00e7ou a regulamentar a produ\u00e7\u00e3o de fogos. As exig\u00eancias aumentaram. As pequenas f\u00e1bricas artesanais n\u00e3o conseguiam se adequar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Concorr\u00eancia de grandes ind\u00fastrias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>F\u00e1bricas maiores, de outras regi\u00f5es, come\u00e7aram a dominar o mercado. Produziam em escala, com mais seguran\u00e7a e pre\u00e7os competitivos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. Mudan\u00e7a cultural<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As festas religiosas continuaram, mas o uso massivo de fogos come\u00e7ou a diminuir. A tradi\u00e7\u00e3o foi se perdendo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>At\u00e9 meados dos anos 1940, a produ\u00e7\u00e3o havia desaparecido completamente de Cordeir\u00f3polis.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os barrac\u00f5es foram demolidos ou reaproveitados. O cheiro de p\u00f3lvora sumiu das ruas. O c\u00e9u voltou a ser apenas c\u00e9u, escuro, silencioso, sem surpresas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;O que ficou<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mais de 80 anos depois, n\u00e3o restam mais f\u00e1bricas. N\u00e3o restam foguetes feitos \u00e0 m\u00e3o. N\u00e3o resta o barulho cotidiano dos roj\u00f5es sendo testados.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas resta a mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A mem\u00f3ria de quem viu o c\u00e9u explodir em cores.<\/strong><br><strong>A mem\u00f3ria de quem correu para se proteger de um inc\u00eandio.<\/strong><br><strong>A mem\u00f3ria de quem trabalhou com p\u00f3lvora nas m\u00e3os e f\u00e9 no cora\u00e7\u00e3o.<\/strong><br><strong>A mem\u00f3ria de quem era crian\u00e7a e achava que aquilo nunca ia acabar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As f\u00e1bricas de fogos de Cordeir\u00f3polis foram mais do que ind\u00fastrias. Foram parte da identidade da cidade. Foram fonte de renda, de orgulho, de celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E quando olhamos para o c\u00e9u em uma noite de festa e vemos fogos subindo, podemos lembrar:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Houve um tempo em que tudo isso era feito aqui. Por nossas m\u00e3os. Para nossos c\u00e9us.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Voc\u00ea tem hist\u00f3rias?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Este artigo faz parte da s\u00e9rie &#8220;Retratos do Passado&#8221;, do jornal Expresso de 2008.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea tem:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>\u00a0Fotos antigas das f\u00e1bricas<\/li>\n\n\n\n<li>Lembran\u00e7as de quem trabalhou nelas<\/li>\n\n\n\n<li>\u00a0Hist\u00f3rias sobre as festas e os fogos<\/li>\n\n\n\n<li>\u00a0Documentos, recortes de jornal, qualquer registro<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Mande para o T\u00e1 no Arquivo!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cada mem\u00f3ria ajuda a iluminar ainda mais esse cap\u00edtulo da hist\u00f3ria de Cordeir\u00f3polis.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;Fonte Hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo foi desenvolvido com base em relatos orais de moradores antigos de Cordeir\u00f3polis, preservados em entrevistas e depoimentos. O texto aqui apresentado \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o narrativa do blog T\u00e1 no Arquivo, mantendo a fidelidade aos fatos hist\u00f3ricos relatados pela comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gostou dessa hist\u00f3ria?<\/strong> Compartilhe com amigos e familiares de Cordeir\u00f3polis. Algu\u00e9m certamente vai se lembrar do tempo em que o c\u00e9u brilhava todas as noites.<\/p>\n\n\n\n<p><em>T\u00e1 No Arquivo &#8211; Desenterrando hist\u00f3rias que merecem ser contadas<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se hoje os fogos de artif\u00edcio s\u00e3o lembrados apenas nas grandes festas, houve um tempo em que eles faziam parte da rotina de Cordeir\u00f3polis Imagine uma noite qualquer nos anos 1920. N\u00e3o \u00e9 v\u00e9spera de ano novo. N\u00e3o \u00e9 dia de festa junina. \u00c9 apenas uma ter\u00e7a-feira comum. Mas de repente, o c\u00e9u escuro se ilumina com um estouro colorido que faz as crian\u00e7as correrem para a rua. Pum! Vermelho. Pum! Verde. Pum! Dourado. N\u00e3o era show pirot\u00e9cnico importado. N\u00e3o era evento especial. Era apenas mais um dia na vida de quem vivia numa cidade que produzia seus pr\u00f3prios fogos de artif\u00edcio. Entre 1918 e os anos 1940, Cordeir\u00f3polis teve quatro f\u00e1bricas de fogos funcionando ao mesmo tempo. Quatro! Em uma cidade pequena do interior paulista, isso significava que o cheiro de p\u00f3lvora, o barulho de roj\u00f5es sendo testados e o brilho repentino no c\u00e9u faziam parte do cotidiano. Esta \u00e9 a hist\u00f3ria de quando o c\u00e9u de Cordeir\u00f3polis brilhava todas as noites. Quatro f\u00e1bricas, uma cidade em chamas 1918. O Brasil ainda se recuperava da primeira Guerra Mundial. A gripe espanhola aterrorizava o pa\u00eds. Mas em Cordeir\u00f3polis, uma nova ind\u00fastria come\u00e7ava a surgir: a produ\u00e7\u00e3o artesanal de fogos de artif\u00edcio. Aos poucos, quatro f\u00e1bricas se espalharam estrategicamente pela cidade: F\u00e1brica 1: proximidades da atual Escola Jamil Abrah\u00e3o Saad Localizada na Vila Santo Ant\u00f4nio, essa seria uma das maiores e tamb\u00e9m uma das mais lembradas, por um motivo tr\u00e1gico que veremos adiante. F\u00e1brica 2: Rua Jos\u00e9 Moreira Onde hoje funciona uma cl\u00ednica veterin\u00e1ria, outrora havia barrac\u00f5es onde se manipulava p\u00f3lvora e se enrolavam estopins. F\u00e1brica 3: Rua Guilherme Krauter Em frente ao pr\u00e9dio da Telef\u00f4nica, esta f\u00e1brica era uma das mais centrais, o que significava que explos\u00f5es &nbsp;acidentais ou intencionais eram ouvidas por toda a cidade. F\u00e1brica 4: Futuro pr\u00e9dio da Ramenzoni A \u00faltima das quatro grandes, essa f\u00e1brica operou at\u00e9 meados dos anos 1940, sendo uma das \u00faltimas a fechar. Quatro f\u00e1bricas. Dezenas de trabalhadores. Milhares de foguetes, roj\u00f5es, bombas e traques Cordeir\u00f3polis n\u00e3o era apenas uma cidade que usava fogos, era uma cidade que vivia de fogos. &nbsp;Um of\u00edcio arriscado Trabalhar com p\u00f3lvora nunca foi para os fracos de cora\u00e7\u00e3o Imagine entrar todos os dias em um barrac\u00e3o de madeira onde toneladas de material inflam\u00e1vel est\u00e3o armazenadas. Onde um \u00fanico descuido, uma fa\u00edsca, um atrito, um estopim mal cortado &nbsp;pode transformar tudo em chamas. Era assim o dia a dia nas f\u00e1bricas de fogos de Cordeir\u00f3polis. Os trabalhadores na maioria homens, mas tamb\u00e9m algumas mulheres corajosas passavam horas: N\u00e3o havia equipamento de seguran\u00e7a moderno. N\u00e3o havia extintores autom\u00e1ticos. N\u00e3o havia seguro de vida robusto. Havia apenas a per\u00edcia passada de pai para filho, a coragem de quem precisava do trabalho e a f\u00e9 de que, naquele dia, nada daria errado. Mas nem sempre dava certo. O dia em que a f\u00e1brica virou inferno Um dos epis\u00f3dios mais lembrados pelos mais velhos \u00e9 o inc\u00eandio que destruiu a f\u00e1brica pr\u00f3xima \u00e0 Escola Jamil. Ningu\u00e9m sabe exatamente o que aconteceu. Uma fa\u00edsca? Um estopim que queimou r\u00e1pido demais? Um descuido? O fato \u00e9 que, em quest\u00e3o de minutos, o barrac\u00e3o estava em chamas. E quando uma f\u00e1brica de fogos pega fogo, n\u00e3o \u00e9 um inc\u00eandio comum. \u00c9 um espet\u00e1culo no pior sentido da palavra. Explos\u00f5es em cadeia. Roj\u00f5es subindo em todas as dire\u00e7\u00f5es. Bombas explodindo no ch\u00e3o. Estopins acesos correndo como cobras de fogo pelo terreno. As pessoas corriam. Algumas para ajudar. Outras para se proteger. Muitas apenas para ver, porque, por mais terr\u00edvel que fosse, era imposs\u00edvel desviar os olhos. Felizmente, segundo os relatos, n\u00e3o houve mortes. Mas a f\u00e1brica foi completamente destru\u00edda. E com ela, parte da produ\u00e7\u00e3o que sustentava fam\u00edlias inteiras. Outros inc\u00eandios menores aconteceram ao longo dos anos. Fazia parte do risco. Fazia parte da profiss\u00e3o. E ainda assim, enquanto havia demanda, as f\u00e1bricas continuavam operando. O encanto das festas Mas por que algu\u00e9m arriscaria tanto? A resposta estava no c\u00e9u. Toda vez que uma festa religiosa se aproximava, e em Cordeir\u00f3polis e na regi\u00e3o; elas eram muitas , as f\u00e1bricas trabalhavam em ritmo acelerado. Festa de Santo Ant\u00f4nio (o padroeiro da cidade) era a mais esperada. Durante dias, os preparativos envolviam: E quando a noite da festa chegava&#8230; O c\u00e9u de Cordeir\u00f3polis se transformava. Vermelho, verde, dourado, prateado. Explos\u00f5es que faziam o ch\u00e3o tremer. Luzes que refletiam nos rostos maravilhados das crian\u00e7as. N\u00e3o era apenas um show. Era devo\u00e7\u00e3o. Era comunidade. Era a cidade inteira celebrando junta. Para os moradores, o estalar dos roj\u00f5es e o colorido no c\u00e9u eram sinal de que a vida estava em ordem. De que, apesar das dificuldades, ainda havia motivo para celebrar. Mem\u00f3rias de quem Viu Quem viveu aquela \u00e9poca guarda mem\u00f3rias v\u00edvidas. Em 2008, quando foi realizada a reportagem no Jornal Expresso, os depoimentos eram: &#8220;Eu era menina, mas lembro do barulho. Todo dia tinha teste de foguete. A gente j\u00e1 sabia: &#8216;L\u00e1 vem bomba!&#8217; E corria pra ver subir. Era bonito demais.&#8221; Outros moravam pr\u00f3ximos ou teve parentes que trabalharam nas f\u00e1bricas: &#8220;Na festa de Santo Ant\u00f4nio, a gente n\u00e3o dormia. Ficava na janela vendo os fogos. Parecia que o c\u00e9u inteiro estava pegando fogo. Era lindo e assustador ao mesmo tempo.&#8221; &nbsp;O fim de uma era Como todas as coisas, as f\u00e1bricas de fogos de Cordeir\u00f3polis tiveram seu fim. Os motivos foram v\u00e1rios: 1. Acidentes frequentes Inc\u00eandios e explos\u00f5es tornavam a atividade cada vez mais arriscada &nbsp;e cara. 2. Moderniza\u00e7\u00e3o das leis de seguran\u00e7a Com o tempo, o Estado come\u00e7ou a regulamentar a produ\u00e7\u00e3o de fogos. As exig\u00eancias aumentaram. As pequenas f\u00e1bricas artesanais n\u00e3o conseguiam se adequar. 3. Concorr\u00eancia de grandes ind\u00fastrias F\u00e1bricas maiores, de outras regi\u00f5es, come\u00e7aram a dominar o mercado. Produziam em escala, com mais seguran\u00e7a e pre\u00e7os competitivos. 4. Mudan\u00e7a cultural As festas religiosas continuaram, mas o uso massivo de fogos come\u00e7ou a diminuir. A tradi\u00e7\u00e3o foi se perdendo. At\u00e9 meados dos anos 1940, a produ\u00e7\u00e3o havia desaparecido completamente de Cordeir\u00f3polis. Os barrac\u00f5es foram demolidos ou reaproveitados. 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