{"id":418,"date":"2025-10-06T14:54:40","date_gmt":"2025-10-06T17:54:40","guid":{"rendered":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/?p=418"},"modified":"2025-10-07T09:15:06","modified_gmt":"2025-10-07T12:15:06","slug":"groselha-de-cordeiropolis-quando-uma-garrafinha-viajava-ate-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/2025\/10\/06\/groselha-de-cordeiropolis-quando-uma-garrafinha-viajava-ate-brasilia\/","title":{"rendered":"Groselha de Cordeir\u00f3polis: Quando uma garrafinha viajava at\u00e9 Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Tlin, tlin, tlin.<\/strong> O som das ca\u00e7ulinhas batendo umas nas outras no engradado era m\u00fasica para os ouvidos de qualquer crian\u00e7a dos anos 50.<\/p>\n\n\n\n<p>Tarde quente em Cordeir\u00f3polis. O sol castiga o ch\u00e3o de terra batida da rua do Com\u00e9rcio( hoje atual rua Toledo Barros). Um menino corre at\u00e9 a venda com algumas moedas na m\u00e3o. &#8220;Seu Jo\u00e3o, me v\u00ea uma groselha bem gelada!&#8221; A garrafinha sai da caixa de gelo, respingando \u00e1gua fria. O lacre estala. O primeiro gole \u00e9 pura felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa cena se repetiu milhares de vezes entre 1952 e 1962, quando Cordeir\u00f3polis tinha sua pr\u00f3pria f\u00e1brica de refrescos. E o mais impressionante? Aquelas garrafinhas viajavam muito mais longe do que qualquer um imaginaria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O homem por tr\u00e1s das garrafinhas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Miguel Rodrigues de Oliveira n\u00e3o era um grande industrial. Era um homem simples que viu uma oportunidade e decidiu arriscar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1952, instalou sua pequena f\u00e1brica na esquina da rua Toledo Barros com a Sete de Setembro, um endere\u00e7o que somente os mais velhos chamam de &#8220;Rua do Com\u00e9rcio&#8221;. As instala\u00e7\u00f5es eram modestas, mas o que faltava em tamanho sobrava em dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali, Miguel e sua equipe produziam artesanalmente os refrescos que ado\u00e7ariam a vida de muitas fam\u00edlias. Cada garrafa era enchida \u00e0 m\u00e3o, lacrada com cuidado e embalada em engradados de madeira.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era Coca-Cola. N\u00e3o era Guaran\u00e1 Antarctica. Era <strong>refresco de Cordeir\u00f3polis<\/strong> e isso bastava.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Mario-Oliveira-trabalhou-com-seu-pai-Miguel-na-fabrica-de-refresco-1024x768.jpg\" alt=\"M\u00e1rio Oliveira trabalhou com seu pai Miguel na f\u00e1brica de refresco. Reportagem do ano de 2008 pelo Jornal Expresso\" class=\"wp-image-420\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Mario-Oliveira-trabalhou-com-seu-pai-Miguel-na-fabrica-de-refresco-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Mario-Oliveira-trabalhou-com-seu-pai-Miguel-na-fabrica-de-refresco-300x225.jpg 300w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Mario-Oliveira-trabalhou-com-seu-pai-Miguel-na-fabrica-de-refresco-768x576.jpg 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Mario-Oliveira-trabalhou-com-seu-pai-Miguel-na-fabrica-de-refresco-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Mario-Oliveira-trabalhou-com-seu-pai-Miguel-na-fabrica-de-refresco-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fl\u00e1vio Oliveira trabalhou com seu pai Miguel na f\u00e1brica de refresco. Reportagem do ano de 2008 pelo Jornal Expresso<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Groselha e Quinado: Os sabores da cidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dois sabores dominavam a produ\u00e7\u00e3o: <strong>groselha<\/strong> e <strong>quinado<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A groselha era a favorita das crian\u00e7as, doce, vermelha, refrescante. O quinado tinha gosto mais marcante, meio amargo, e fazia sucesso entre os adultos que acreditavam em suas propriedades &#8220;fortificantes&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>As garrafinhas eram chamadas de <strong>ca\u00e7ulinhas<\/strong>, pequenas, de vidro grosso, com tampa de metal que precisava ser aberta com abridor. Geladas, ent\u00e3o, eram irresist\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas festas de anivers\u00e1rio, nos almo\u00e7os de domingo, nas tardes quentes de ver\u00e3o, l\u00e1 estavam elas. Cada ca\u00e7ulinha aberta era um evento. Cada gole era saboreado devagar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>De Cordeir\u00f3polis para o Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui \u00e9 onde a hist\u00f3ria fica surpreendente.<\/p>\n\n\n\n<p>Fl\u00e1vio Rodrigues de Oliveira, filho de Miguel, guarda mem\u00f3rias v\u00edvidas daqueles tempos:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Vend\u00edamos muito bem em toda a regi\u00e3o, inclusive at\u00e9 para Goi\u00e1s e no comecinho de Bras\u00edlia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Pense nisso. Estamos falando de uma cidadezinha do interior paulista, com uma f\u00e1brica artesanal, despachando refrescos para <strong>Goi\u00e1s<\/strong> e para <strong>Bras\u00edlia<\/strong>, a capital federal que estava sendo constru\u00edda!<\/p>\n\n\n\n<p>Como isso acontecia? O Brasil dos anos 50 era um pa\u00eds em transforma\u00e7\u00e3o. Bras\u00edlia come\u00e7ou a ser constru\u00edda em 1956. Milhares de trabalhadores, os candangos, vinham de todos os cantos do pa\u00eds para erguer a nova capital. E precisavam de comida, bebida, mantimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os refrescos de Cordeir\u00f3polis chegavam l\u00e1. Em caminh\u00f5es que enfrentavam estradas de terra, poeira e sol escaldante, as ca\u00e7ulinhas viajavam centenas de quil\u00f4metros.<\/p>\n\n\n\n<p>Era o interior paulista levando seu sabor para o cora\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A era de ouro dos refrescos artesanais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para entender o sucesso da f\u00e1brica de Miguel Rodrigues, \u00e9 preciso voltar no tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 50, refrigerantes industrializados ainda eram artigo de luxo no Brasil. A Coca-Cola havia chegado em 1942, mas sua distribui\u00e7\u00e3o era limitada \u00e0s grandes cidades. O Guaran\u00e1 Antarctica existia desde 1921, mas tamb\u00e9m n\u00e3o chegava a todos os cantos.<\/p>\n\n\n\n<p>No interior, a solu\u00e7\u00e3o eram as <strong>f\u00e1bricas locais de refrescos<\/strong>. Praticamente toda cidade de m\u00e9dio porte tinha a sua. Eram neg\u00f3cios familiares, artesanais, que atendiam a demanda regional.<\/p>\n\n\n\n<p>Cordeir\u00f3polis n\u00e3o era exce\u00e7\u00e3o, mas tinha um diferencial: <strong>qualidade e alcance<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto muitas f\u00e1bricas se limitavam \u00e0 cidade e vizinhan\u00e7a, os refrescos de Miguel Rodrigues atravessavam estados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O dia em que as m\u00e1quinas pararam<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1962, dez anos ap\u00f3s o in\u00edcio, a f\u00e1brica fechou suas portas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por qu\u00ea? As raz\u00f5es s\u00e3o v\u00e1rias:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Concorr\u00eancia das grandes marcas<\/strong> que come\u00e7avam a se expandir pelo interior<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Custos crescentes<\/strong> de produ\u00e7\u00e3o e transporte<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Dificuldades log\u00edsticas<\/strong> &#8211; manter qualidade em longas dist\u00e2ncias era cada vez mais dif\u00edcil<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Mudan\u00e7a nos h\u00e1bitos de consumo<\/strong> &#8211; os refrigerantes industrializados viravam sin\u00f4nimo de modernidade<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Miguel Rodrigues teve que tomar a dif\u00edcil decis\u00e3o de encerrar o neg\u00f3cio. As m\u00e1quinas pararam. As ca\u00e7ulinhas deixaram de ser enchidas. O som do engradado tilintando na porta da venda virou apenas mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas que mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um sabor que atravessa gera\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quem provou os refrescos de Cordeir\u00f3polis nunca esqueceu.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era s\u00f3 o gosto. Era o ritual. Era a garrafa gelada nas m\u00e3os num dia quente. Era o lacre estalando. Era dividir com o irm\u00e3o, com o primo, com o amigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Era aquela sensa\u00e7\u00e3o de que o mundo estava bem quando voc\u00ea tinha uma ca\u00e7ulinha de groselha na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, mais de 60 anos depois, n\u00e3o existem mais as garrafas. N\u00e3o existe mais a f\u00e1brica. Mas existe a mem\u00f3ria &nbsp;viva, forte, doce como groselha.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O legado al\u00e9m do sabor<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A f\u00e1brica de refrescos foi mais um cap\u00edtulo na hist\u00f3ria empreendedora de Cordeir\u00f3polis.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como as <strong>f\u00e1bricas de cer\u00e2mica<\/strong> e as <strong>tecelagens<\/strong> que marcaram \u00e9poca, a ind\u00fastria de Miguel Rodrigues mostrou que a cidade tinha esp\u00edrito inovador, capacidade de ir al\u00e9m das suas fronteiras e coragem de ousar.<\/p>\n\n\n\n<p>De uma pequena esquina na Rua do Com\u00e9rcio, Cordeir\u00f3polis levou seu nome e seu sabor para Goi\u00e1s, para Bras\u00edlia, para o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso, nenhum fechamento de f\u00e1brica consegue apagar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea se lembra?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Queremos ouvir suas hist\u00f3rias!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Sua fam\u00edlia comprava os refrescos do seu Miguel?<\/li>\n\n\n\n<li>Voc\u00ea se lembra do gosto da groselha? E do quinado?<\/li>\n\n\n\n<li>Algu\u00e9m na sua casa guardou uma ca\u00e7ulinha de lembran\u00e7a?<\/li>\n\n\n\n<li>Voc\u00ea conheceu a f\u00e1brica ou trabalhou l\u00e1?<\/li>\n\n\n\n<li>Tem fotos dessa \u00e9poca?<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Mande para o T\u00e1 no Arquivo!<\/strong> Seja por mensagem, coment\u00e1rio ou e-mail. Cada lembran\u00e7a ajuda a manter viva essa hist\u00f3ria saborosa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea Sabia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nos anos 50, ter um refrigerador em casa era luxo.<\/strong> A maioria das fam\u00edlias guardava as bebidas em <strong>caixas de gelo<\/strong> \u2014 blocos grandes de gelo que o &#8220;homem do gelo&#8221; entregava de porta em porta. Por isso, tomar um refresco gelado era um evento especial, n\u00e3o algo do dia a dia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bras\u00edlia come\u00e7ou a ser constru\u00edda em 1956<\/strong> e foi inaugurada em 1960. Durante a constru\u00e7\u00e3o, dezenas de milhares de trabalhadores viviam em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias no canteiro de obras. Produtos que vinham de outras regi\u00f5es do Brasil eram muito valorizados &nbsp;e os refrescos de Cordeir\u00f3polis estavam entre eles.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte Hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo faz parte da s\u00e9rie <strong>&#8220;Retratos do Passado&#8221;<\/strong> e foi desenvolvido com base em depoimentos de moradores antigos de Cordeir\u00f3polis, incluindo Fl\u00e1vio Rodrigues de Oliveira, filho do propriet\u00e1rio da f\u00e1brica. O texto aqui apresentado \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o narrativa do blog T\u00e1 no Arquivo, mantendo a fidelidade aos fatos hist\u00f3ricos relatados no ano de 2008 para o Jornal Expresso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gostou dessa hist\u00f3ria?<\/strong> Compartilhe com seus amigos e familiares de Cordeir\u00f3polis. Algu\u00e9m certamente vai se lembrar do gosto daquela groselha gelada.<\/p>\n\n\n\n<p><em>T\u00e1 No Arquivo &#8211; Desenterrando hist\u00f3rias que merecem ser contadas<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"653\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquiv_001-653x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-421\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquiv_001-653x1024.jpg 653w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquiv_001-191x300.jpg 191w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquiv_001-768x1205.jpg 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquiv_001-979x1536.jpg 979w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquiv_001-1305x2048.jpg 1305w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquiv_001.jpg 1506w\" sizes=\"(max-width: 653px) 100vw, 653px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"653\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquivo_002-653x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-422\" srcset=\"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquivo_002-653x1024.jpg 653w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquivo_002-191x300.jpg 191w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquivo_002-768x1205.jpg 768w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquivo_002-979x1536.jpg 979w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquivo_002-1305x2048.jpg 1305w, https:\/\/tanoarquivo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/reportagem2008_tanoarquivo_002.jpg 1506w\" sizes=\"(max-width: 653px) 100vw, 653px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tlin, tlin, tlin. O som das ca\u00e7ulinhas batendo umas nas outras no engradado era m\u00fasica para os ouvidos de qualquer crian\u00e7a dos anos 50. Tarde quente em Cordeir\u00f3polis. O sol castiga o ch\u00e3o de terra batida da rua do Com\u00e9rcio( hoje atual rua Toledo Barros). Um menino corre at\u00e9 a venda com algumas moedas na m\u00e3o. &#8220;Seu Jo\u00e3o, me v\u00ea uma groselha bem gelada!&#8221; A garrafinha sai da caixa de gelo, respingando \u00e1gua fria. O lacre estala. O primeiro gole \u00e9 pura felicidade. Essa cena se repetiu milhares de vezes entre 1952 e 1962, quando Cordeir\u00f3polis tinha sua pr\u00f3pria f\u00e1brica de refrescos. E o mais impressionante? Aquelas garrafinhas viajavam muito mais longe do que qualquer um imaginaria. O homem por tr\u00e1s das garrafinhas Miguel Rodrigues de Oliveira n\u00e3o era um grande industrial. Era um homem simples que viu uma oportunidade e decidiu arriscar. Em 1952, instalou sua pequena f\u00e1brica na esquina da rua Toledo Barros com a Sete de Setembro, um endere\u00e7o que somente os mais velhos chamam de &#8220;Rua do Com\u00e9rcio&#8221;. As instala\u00e7\u00f5es eram modestas, mas o que faltava em tamanho sobrava em dedica\u00e7\u00e3o. Ali, Miguel e sua equipe produziam artesanalmente os refrescos que ado\u00e7ariam a vida de muitas fam\u00edlias. Cada garrafa era enchida \u00e0 m\u00e3o, lacrada com cuidado e embalada em engradados de madeira. N\u00e3o era Coca-Cola. N\u00e3o era Guaran\u00e1 Antarctica. Era refresco de Cordeir\u00f3polis e isso bastava. Groselha e Quinado: Os sabores da cidade Dois sabores dominavam a produ\u00e7\u00e3o: groselha e quinado. A groselha era a favorita das crian\u00e7as, doce, vermelha, refrescante. O quinado tinha gosto mais marcante, meio amargo, e fazia sucesso entre os adultos que acreditavam em suas propriedades &#8220;fortificantes&#8221;. As garrafinhas eram chamadas de ca\u00e7ulinhas, pequenas, de vidro grosso, com tampa de metal que precisava ser aberta com abridor. Geladas, ent\u00e3o, eram irresist\u00edveis. Nas festas de anivers\u00e1rio, nos almo\u00e7os de domingo, nas tardes quentes de ver\u00e3o, l\u00e1 estavam elas. Cada ca\u00e7ulinha aberta era um evento. Cada gole era saboreado devagar. De Cordeir\u00f3polis para o Brasil Aqui \u00e9 onde a hist\u00f3ria fica surpreendente. Fl\u00e1vio Rodrigues de Oliveira, filho de Miguel, guarda mem\u00f3rias v\u00edvidas daqueles tempos: &#8220;Vend\u00edamos muito bem em toda a regi\u00e3o, inclusive at\u00e9 para Goi\u00e1s e no comecinho de Bras\u00edlia.&#8221; Pense nisso. Estamos falando de uma cidadezinha do interior paulista, com uma f\u00e1brica artesanal, despachando refrescos para Goi\u00e1s e para Bras\u00edlia, a capital federal que estava sendo constru\u00edda! Como isso acontecia? O Brasil dos anos 50 era um pa\u00eds em transforma\u00e7\u00e3o. Bras\u00edlia come\u00e7ou a ser constru\u00edda em 1956. Milhares de trabalhadores, os candangos, vinham de todos os cantos do pa\u00eds para erguer a nova capital. E precisavam de comida, bebida, mantimentos. Os refrescos de Cordeir\u00f3polis chegavam l\u00e1. Em caminh\u00f5es que enfrentavam estradas de terra, poeira e sol escaldante, as ca\u00e7ulinhas viajavam centenas de quil\u00f4metros. Era o interior paulista levando seu sabor para o cora\u00e7\u00e3o do Brasil. A era de ouro dos refrescos artesanais Para entender o sucesso da f\u00e1brica de Miguel Rodrigues, \u00e9 preciso voltar no tempo. Nos anos 50, refrigerantes industrializados ainda eram artigo de luxo no Brasil. A Coca-Cola havia chegado em 1942, mas sua distribui\u00e7\u00e3o era limitada \u00e0s grandes cidades. O Guaran\u00e1 Antarctica existia desde 1921, mas tamb\u00e9m n\u00e3o chegava a todos os cantos. No interior, a solu\u00e7\u00e3o eram as f\u00e1bricas locais de refrescos. Praticamente toda cidade de m\u00e9dio porte tinha a sua. Eram neg\u00f3cios familiares, artesanais, que atendiam a demanda regional. Cordeir\u00f3polis n\u00e3o era exce\u00e7\u00e3o, mas tinha um diferencial: qualidade e alcance. Enquanto muitas f\u00e1bricas se limitavam \u00e0 cidade e vizinhan\u00e7a, os refrescos de Miguel Rodrigues atravessavam estados. O dia em que as m\u00e1quinas pararam Em 1962, dez anos ap\u00f3s o in\u00edcio, a f\u00e1brica fechou suas portas. Por qu\u00ea? As raz\u00f5es s\u00e3o v\u00e1rias: Miguel Rodrigues teve que tomar a dif\u00edcil decis\u00e3o de encerrar o neg\u00f3cio. As m\u00e1quinas pararam. As ca\u00e7ulinhas deixaram de ser enchidas. O som do engradado tilintando na porta da venda virou apenas mem\u00f3ria. Mas que mem\u00f3ria. Um sabor que atravessa gera\u00e7\u00f5es Quem provou os refrescos de Cordeir\u00f3polis nunca esqueceu. N\u00e3o era s\u00f3 o gosto. Era o ritual. Era a garrafa gelada nas m\u00e3os num dia quente. Era o lacre estalando. Era dividir com o irm\u00e3o, com o primo, com o amigo. Era aquela sensa\u00e7\u00e3o de que o mundo estava bem quando voc\u00ea tinha uma ca\u00e7ulinha de groselha na m\u00e3o. Hoje, mais de 60 anos depois, n\u00e3o existem mais as garrafas. N\u00e3o existe mais a f\u00e1brica. Mas existe a mem\u00f3ria &nbsp;viva, forte, doce como groselha. O legado al\u00e9m do sabor A f\u00e1brica de refrescos foi mais um cap\u00edtulo na hist\u00f3ria empreendedora de Cordeir\u00f3polis. Assim como as f\u00e1bricas de cer\u00e2mica e as tecelagens que marcaram \u00e9poca, a ind\u00fastria de Miguel Rodrigues mostrou que a cidade tinha esp\u00edrito inovador, capacidade de ir al\u00e9m das suas fronteiras e coragem de ousar. De uma pequena esquina na Rua do Com\u00e9rcio, Cordeir\u00f3polis levou seu nome e seu sabor para Goi\u00e1s, para Bras\u00edlia, para o Brasil. E isso, nenhum fechamento de f\u00e1brica consegue apagar. Voc\u00ea se lembra? Queremos ouvir suas hist\u00f3rias! Mande para o T\u00e1 no Arquivo! Seja por mensagem, coment\u00e1rio ou e-mail. Cada lembran\u00e7a ajuda a manter viva essa hist\u00f3ria saborosa. Voc\u00ea Sabia? Nos anos 50, ter um refrigerador em casa era luxo. A maioria das fam\u00edlias guardava as bebidas em caixas de gelo \u2014 blocos grandes de gelo que o &#8220;homem do gelo&#8221; entregava de porta em porta. Por isso, tomar um refresco gelado era um evento especial, n\u00e3o algo do dia a dia. Bras\u00edlia come\u00e7ou a ser constru\u00edda em 1956 e foi inaugurada em 1960. Durante a constru\u00e7\u00e3o, dezenas de milhares de trabalhadores viviam em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias no canteiro de obras. Produtos que vinham de outras regi\u00f5es do Brasil eram muito valorizados &nbsp;e os refrescos de Cordeir\u00f3polis estavam entre eles. Fonte Hist\u00f3rica Este artigo faz parte da s\u00e9rie &#8220;Retratos do Passado&#8221; e foi desenvolvido com base em depoimentos de moradores antigos de Cordeir\u00f3polis, incluindo Fl\u00e1vio Rodrigues de Oliveira, filho do propriet\u00e1rio da f\u00e1brica. O texto aqui apresentado \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o narrativa do blog T\u00e1 no Arquivo, mantendo a fidelidade aos<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":419,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-418","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=418"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":425,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418\/revisions\/425"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/419"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=418"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=418"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tanoarquivo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=418"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}